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| 2/15/2010 | 4:21:02 PM
NÃO ESTAMOS SÓS
Tenho com todo o orgulho um amigo. Desses que, parece, não mais aparecem. Velho colega do Banco do Brasil na Revista Cacex, amigo ímpar, amizade que cultivo há mais de trinta anos. Quer dizer, na medida do possível, pois ele continua no Rio, esse mineiro de Nanuque e já eterno morador do Leme – enquanto eu vivo do escreviver de acá/taguases & do mundo que nos cerca e distancia. Na verdade, o que mais dificulta manter acesa a chama dessa amizade é que – com sua famosa idiossincrasia – ele não se adaptou de forma alguma ao computador, e nem tenta. O que faz ser por carta nossa rara comunicação. Cartas com sua letra miúda, um leve tombar para a direita, seus característicos caracteres muitíssimo bem construídos – um píccolo “pleonas/meu/femismo” que adoto aqui só pra dizer que é uma bela e saudosa letra esta que vejo agora no envelope que acabo de encontrar, carta datada de janeiro de 2007 (acabara de lhe enviar meu livro “Doris Day by Night/Noite Americana”):

“No espaço/ esparso/ à luz da noite americana,/ vogais e consoantes/ vagam soantes/ ou toantes/ ou não,/ e fazem lembranças,/ talvez já mortas/ voltarem à vida/ de Copa by night. Eu acho, meu caro Ronaldo, que aquele mundo que você conheceu a fundo, se por um lado era pesado e fundo, por outro, era de um brilho ‘fracturado’ de fantasias e realidades. Como as aparas, limalhas, maravalhas, fagulhas luminosas que se etincelam de uma serra a trabalhar o metal. Assim foi como vejo os seus poemas do tempo do Beco da Fome, e de outros tempos, e doutros becos, depois”.

Palavras que, como sempre, me emocionam – essa letra fina e magra e seca nascida no árido sertão de Nanuque. Letra elegante, como seu dono. De grande sensibilidade, como seu dono. Com seu saber enciclopédico, ele sempre nos disse mais de Paris que muito parisiense – sua Paris-paixão, que só conheceu “ao vivo” depois dos 50 anos. Ao “vivo” porque, muito antes de lá ter botado os pés, ele sempre nos dava indicações precisas de ruas, teatros, cafés – um parisiense nato (em Nanuque).

Lembro-me que, nos anos 70, da primeira vez em que estive em Paris, mandava-lhe poemas-postais que tentavam flagrar a cidade com citações de cinema, música, literatura, como este: “Suponhamos assim um sol. Um sol a sós que nos solapa. Que nous brûle et nous devore. Encore-encore, encore-encore: Saravá, Pierre Barouh! Paris-verão, verão partout. Paris, le soleil: bateau-mouche. Solta no céu, La Tour Eiffel. Alors, qu´est-ce que je peux faire? Pierrot, j´sais pas quoi faire. Pêut-être, lire Appolinaire”.

Postais altamente etílicos e entusiasmados: “Ontem à tarde dei uma volta pelo Bois de Boulogne (que temeridade!), depois passei ao lado da Sorbonne e logo-logo parei num café da Rue des Écoles pra tomar, é claro, mais um Rémy Martin. À noite, em outro café do Quartier Latin, paro pruma dose estratégica de Napoléon. A vida em Paris é um só cognac e outro, atrás do outro. Não estamos sós, há sempre um cognac a nos acompanhar. Saravá”.

Na volta, ele me mostrou os postais que eu mandara: vários, de vários países e cidades, de Argel a Roma, de Madri a Lisboa, todos sempre remetendo a cognacs, vinhos, uísques, Fernet Branca, cervejas variadas – principalmente Stela Artois, minha predileta na ocasião, facilmente encontrável em Paris. Rimos muito com meu homérico porre afro-europeu, que nada tinha a ver com os países que ia conhecendo; melhor, que ia bebendo. Parecia (não era verdade) que eu estava pouco me importando com todos eles. Parecia que podia ter ficado no Brasil, pois – à exceção da belga Stela Artois e do italiano Fernet Branca – os demais “traçados” eu já traçava normalmente no Rio, em Cataguases & quejandos.

Assim é agora este texto sobre meu caro Trajano Valpassos: só pra dizer que tenho um amigo, um amigo querido desses que não se fazem mais (Rosário Fusco dizia que os amigos, amigos mesmo, podiam ser contados nos dedos da mão – da mão direita). Só pra dizer (como em minha carta do início de 2007) que “vi você a passar indoutro dia numa manhã chuvosa de fim-de-ano pela Gustavo Sampaio: eu, distraído, a pagar o café-da-manhã na padaria e você a passar apressado, esguio e um pouco mais grisalho, mas com o andar firme e nanuqueano de sempre.

A moça do caixa demorou a me dar o troco. Cheguei à calçada, gritei por você, mas qual o quê: o Velho Traja já dobrara com elegância pra Antônio Vieira, ‘a rua da Ulla’, com toda a pompa e circunstância merecida pelo próprio padre. Por acaso, e veja como ‘o discurso é/continua infalível’, o mesmo Vieira que acabo de citar como uma das epígrafes de meu último livro, aquele Doris Day que enviei pra você, ‘rodado’ em Copa by Night”.

Em março de 2007, dizia o Velho Traja: “Como você é um curioso dessas produções folclórico-literárias, avaliador (e até avalista) delas, ouso voltar à sua presença com alguns daqueles sonetos luxuriosos, à moda do Aretino, que perpetuei faz alguns anos. Na verdade, os sonetos foram de viagens, que é a única coisa que, acho, aprendi a fazer, realmente bem, na vida. A origem deles vem de um anúncio, em “revista de sacanagem”, de um casal propondo-se a trocas amorosas. Havia uma foto de uma mulher em decúbito: o rosto não aparecia, o corpo era muito bonito, particularmente a bunda. Daí o mote: ‘as curvas dessa bunda’

A você, obviamente, foram dedicados dois deles: um, em Madri; e o outro, você à la Gabin, atrás daqueles curvas em Paris. Esse que aí vai: Túnel da Mancha, musa faz forfait,/ em vão a esperou no Pas de Calais,/ tomar um Calvados de armar banzé/ ou de boiotar como um zé-mané.// Deglutindo um paté de canard frais,/ sujeito pobre de marré, marré,/ em Minas, tomaria um capilé,/ sertão dos cataguás – Antão, inté...// Num bistrô chic, diante de um “Monet”, / um gauloise, Gabin, plus que jamais,/passeia pelo Sena. E o Corcunda// de Nôtre Dame o observa do alto. C´est/ la vie, meu caro amigo, s´il vou plaît/ de conhecer “as curvas dessa bunda”.

Sim, a bem da verdade, não se fazem mais bundas, ou curvas, ou pessoas tão retas como Trajano de Almeida Valpassos, o meu querido Velho Traja, impávido imperador do Leme. “Não estamos sós” (no universo) era/é seu lema, seu leme. Assino embaixo, porque quem o tem como amigo sabe que nunca vai estar só. E, olha cá: Trajan é tranchã! Et voilà!

| 9/1/2009 | 9:21:41 PM
Teço e traço meu texto


Brincadeira boboca, mas irresistível: Cataguases é uma cidade de primeira. Passou a segunda, não tem mais graça: ela também passa. Para quem gosta de dirigir, é um desatino. Mal começa, ela acaba. Nem bem engrena, ela termina. Não importa se o carro é mecânico ou automático, se a gente passa ou não passa marcha, ou se as marchas é que nos passam: na primeira acelerada, ela termina. Ou determina marchas-lentas: surgem do nada um trem que é um trem de transtorno, motociclistas avoados, bicicleteiros que parecem esquecidos da vida, (di)vagando nas vias onde o trânsito deveria escoar.

Mas nem sempre escoa, eis que a cidade já exibe, orgulhosa, seus engarrafamentos na hora do rush. Coisas de metrópole: Cataguases tem mais auto(i)móveis que Nova York. Há controvérsias? Resolve-se num só instante: basta checar (por logaritmo, é claro) a proporção carro-habitante. É uma cidade que não pede prise. Talvez por isso não entre em crise. E sejam poucos os acidentes. Que assim seja. Meia-volta-e-meia saio dela pelaí – assim ao vai-da-valsa, ao suingar-do-samba, ao roquear do rock, ao tarantantan-do-tango, ao bolero-pra-quê-te-quero. Quer dizer: som na caixa (de marcha). Para Astolfo Dutra, quando bate uma vontade já agora impossível de rever meu caro Luiz Linhares. Para Itamarati, porque me agrada a súbita assonância dessa “pedra-ita” que “amara a ti”. Para o Glória, distrito que torna masculina a vila-fazenda do Major Vieira, primeva e primorosa. Para Mirai, quando – mira aí, minha menina – batem saudades de laranjas maduras à beira da estrada, aquela fruta que não vai dar no “avarandado do amanhecer”, que isso é coisa do baiano Caetano, mas no pequenino manancial de mineiras reinações de Mestre Ataulfo Alves.

Para Leopoldina, às vezes & quase sempre, que isso aqui é um festival de controvérsias – e não é? Logo que pra cá voltei, final do século passado, costumava ir pra lá de madrugada, tomar café. Ninguém acreditava que eu pegasse estrada noite adentro pra tomar café. “Tem mulher no meio”, diziam. Pra quem quiser, rimam café & mulher. Mas, não aqui: era café mesmo. Num velho bar perto da Rodoviária, há uma parada dos ônibus que trafegam pela Rio-Bahia. Ali, no Centenário – não falei que o bar era antigo? –, há (ou havia?) café expresso a noite inteira. Então, Leopoldina by night era/é café no Centenário e gostar de dirigir, guiar pra desanuviar, guiar quando o trabalho trava, botar o carro na estrada pra ver se a noite vem socorrer meu texto. Sim, eu dirijo escrevendo.

Ou escrevo dirigindo. Sempre que o texto entala, pego o carro e saio por aí a pensar na morte da cachorra ou na do Ulysses Guimarães. Sim, no insondável mistério da morte direta e já. No súbito desaparecimento do Doutor Ulysses. E na pergunta sem resposta que me fez Tia Dalila, lá se vão mais de quinze anos. Internada no Pronto-Cordis, segurando-se no alto de seus quase noventa anos, Lilila vira-se pra mim no meio da noite, assim como quem não quer nada: “Meu filho, o mar devolve tudo que nele jogamos, não é? Então por que até hoje não devolveu o Ulysses Guimarães?”.

Ó mar, ó mar, porque até agora nada do velho Ulysses voltar? Nada o Doutor Ulysses? Nada? Sigo eu me perguntando estrada afora, enquanto me anoiteço e me aconteço de encontro ao acaso, e torço e traço e teço meu texto. Som ligado, a voz de Cartola me inunda de poesia, e à estrada, e à noite perto da Aurora: “Deixe-me ir preciso andar/ Vou por aí a procurar/ Quero assistir ao sol nascer/ Ver as águas dos rios a correr/ Se alguém por mim perguntar/ Diga que eu só vou voltar/ Depois que eu me encontrar” .

Então, Cataguases está logo ali, no clarão da antemanhã E não há mais controvérsias: ela é um só entrecruzar de fronteiras eruditas e automobilisticamente semoventes, com ou sem marchas. De tudo um trem, um traste, um apito, um muito alto grito. Tudo fora dos trilhos: drama, geografia, manhã, etimologia, música, poesia. Como este texto, essas palavras que escapam ao meu domínio. Um cicio, um sussurro em fuga, quase algaravia. Uma reta, uma canção que se segreda. Uma curva, uma história que surge e some.

| 7/1/2009 | 5:39:24 PM
D´ EU NO JB - Minerar O Branco


| 9/25/2008 | 10:20:12 AM
Brasília-Cataguases: escritores nascituros
Falou-se poemas nas ruas, nos museus, nas universidades, nos teatros, nos espaços mais inusitados. Liberta das mais recônditas gôndolas das livrarias – onde é quase sempre jogada às traças – a poesia invadiu a cidade. E ganhou finalmente a praça pública: como antes, na ágora dos gregos. Bom Demais, Balaio, Martinica, Savana, Rayuela, Açougue Cultural T-Bone: a poesia tomou de assalto cafés e bistrôs da Capital Federal, trafegou pela Barca Brasília no Lago Paranoá e avançou pelas cidades-satélites.
Imaginada como um espaço para o confronto das linguagens e formatos em que acontece a poesia contemporânea, em sua diversidade, a I Bienal Internacional de Poesia de Brasília – que ocupou vários espaços da Capital Federal entre os dias 03 e 07 de setembro de 2008 – foi um acontecimento fundador, um museu vivo e internacional da poesia que se faz no momento, uma tentativa de revitalização poética como há muito não se via. Segundo seu idealizador, o poeta-professor Antonio Miranda, diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, a Bienal foi “uma espécie de caleidoscópio, de vitral ou mural em que se expuseram todas as tendências para um confronto entre os criadores, mas aberto ao público”.
A Bienal não foi somente um festival de poesia para os poetas-participantes, mas – como afirmou o professor Miranda – “um encontro de poetas, editores, ensaístas e toda a classe de ativistas culturais com públicos em diversas escalas, desde os freqüentadores dos cafés literários e academias até os espaços abertos, em shows, em ônibus, praças públicas”. Daí, e não por acaso, a tomada da poesia em frentes diversificadas e nos pontos mais distantes da capital, um evento que não se deteve no mainstream do eixo central, mas espraiou-se pelos bistrôs e cafés-concertos de Brasília e pelas cidades-satélites.
Apesar de contar com o apoio da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal – tanto os Secretários de Cultura e de Educação, como o Governado José Roberto Arruda estiveram presentes à sessão de abertura no Museu Nacional, que teve palestra do poeta Affonso Romano de SantAnna – a I BIP não foi um evento “chapa branca”, mas manifestação solidária, cooperativa, democrática, em que muitos parceiros e voluntários se prestaram à montagem de sessões em diversos locais, com a total liberdade de organização e escolha. Mesmo oferecendo uma programação formatada, com nomes célebres em seus países de origem, o evento esteve aberto para que qualquer poeta pudesse divulgar seu trabalho, sem a mínima censura.
A Bienal prestou homenagens especiais aos poetas Thiago de Mello, Affonso Romano de SantAnna, Reynaldo Jardim (que ganhou uma exposição de suas criações literárias e multiartísticas na Biblioteca Nacional, intitulada “Revanguarda”) e ao poeta-processo Wlademir Dias-Pino, que acaba de completar 80 anos, e que teve suas obras em destaque na exposição de poesia visual “ObraNome”, realizada no Museu Nacional de Brasília. Na área experimental, o poeta Robson Correa Araújo apresentou na Biblioteca Nacional a mostra “Y-Semiótico”, projeção de vídeos com poesia de experimentação de linguagem semiótica.
Com curadoria do poeta Paco Cac, a Biblioteca Central da Universidade de Brasília exibiu a mostra “Revistas de Poesia”, com 50 revistas que refletiam a diversidade dos projetos poéticos surgidos nos últimos 50 anos. Paco Cac encenou ainda na Sala de Som do Museu Nacional o míni-show “O Menor Espetáculo da Terra”, uma audição realizada em sete minutos para sete pessoas, com poemas de Torquato Neto, Samaral, Sousândrade, Ferreira Gullar, Nelson Cavaquinho, kzé, Paulo Leminski. Também no Museu Nacional e na Praça do Conjunto Cultural da República, acontecia a mostra “Utopia e Modernidade: de Brasília à Tropicália”, com curadoria de Ana Queiroz.
A I BIP lançou na ocasião três antologias, o “Poemário”, com trabalhos de poetas-convidados dos vários países participantes; “Deste Planalto Central – Poetas de Brasília”; e “ObraNome”, catálogo com os trabalhos dos poetas visuais que participaram da exposição homônima no Museu Nacional de Brasília. E também os poetas-mirins não foram esquecidos: tiveram sua hora e vez na “Antologia da Poesia em Superdotação”, resultante de concurso nacional patrocinado pelo Ministério da Educação, com textos bilíngues, português e espanhol.
“Muito que bem”. Surge aqui o “link-Cataguases”, que não podia faltar se é de poesia que estamos a falar. Na Bienal de Brasília, Cataguases fez-se representar por Francisco Marcelo Cabral, Lina Tâmega Peixoto e por este controvertido cronista. Mal voltara eu do “federal porre poético” – onde, como já sabemos, houve o lançamento da antologia-mirim “Poesia em Superdotação” –, e eis que recebo convite para o lançamento de outra antologia-mirim, o volume “Assim Nasce um Escritor”, resultante de concurso promovido pela Secretaria Municipal de Educação em parceria com o Proler, e que contempla alunos de diversas faixas etárias das escolas de Cataguases.
Fui mais para ver do que se tratava, mas acabei convidado pelo prefeito Tarcísio Henriques para participar da mesa e entregar os prêmios aos jovens escritores “nascituros”, palavra que sapeco aqui para mostrar alguma erudição, como a justificar minha presença em tão digna mesa, ao lado da Secretária de Educação, Ana Maria Paixão Resende, e do “mais político de nossos políticos”, Galba Rodriguez Ferraz, autor da Lei Municipal 2731/97, que criou o projeto “Assim Nasce um Escritor”.
“Palavras doces, palavras fortes/ palavras pequenas, palavras de emoção/ palavras pesadas, palavras leves/ palavras da alma, puras ou não”, diz o poema de Carla Ramalho Procópio, da 7ª. Série do Colégio de Aplicação-FIC, que fecha com o quarteto “Palavras são palavras/insubstituíveis e sem fim/ para algumas pessoas, comuns/ mas são eternas para mim”. Isso aí, Carla: insubstituíveis e sem fim, as palavras são um mundo infinito. Fica assim gravado aqui o poema de Carla como exemplo ao acaso da antologia “Assim Nasce um Escritor”, que já se encontra em seu oitavo ano de realização.
Mais do que revelar escritores – vá lá, e de novo – “nascituros”, a importância do concurso “Assim Nasce um Escritor” é despertar esses jovens para a leitura e, principalmente, estimular sua curiosidade para o mundo à sua volta. Curiosidade acoplada à leitura – ponto de partida para a formação de um escritor, qualquer escritor. Ponto pro Galba, pro Tarcísio, pra Ana Maria Paixão. Ponto principalmente para as professoras cataguasenses que orientaram esses jovens poetescritores “nascituros”: é assim que nasce, assim que cresce – como cresceram as folhas de relva do poeta Walt Whitman – um projeto bem idealizado.
| 8/16/2008 | 11:50:16 AM
Bossa Nossa/Bônus 2
Memória, que nos leva a memorabilia, é também e muitas vezes coisa imemorial. Afinal, 50 anos (de Bossa Nova) em cinco (crônicas) dá nisso: falha(s) nossa(s). Mesmo porque a gente não pode assumir, incólume, a juscelinidade dos cinqüent´anos-em-cinco. Andei trocando nomes e me esquecendo de outros. Não é que chamei meu caro amigo Juquinha de José Maria, quando o bravo baterista e primeiro parceiro de Tom Jobim na verdade chama-se João Batista Stockler? Acho que – justo de Juquinha e só disso ser chamado – nem mesmo ele se lembra desse “tal de João Batista”. Mas, vá lá. Quer dizer, fica aqui. E registre-se: João Batista Stockler. Também indoutrodia, na volta de rápida viagem, o acaso me trouxe “vívidas” relembranças – que ele também traz dessas coisas, na impossibilidade de carregar “mortas” lembranças. Eis que na estrada deparou-se-me (sempre quis usar essas mesóclises, mesmo com o carro andando) um outdoor que me recordou a logomarca da Metal Leve do José Mindlin. Não me perguntem qual era o outdoor: o fato é recente e eu só me lembro, vocês bem sabem (“eu sou um rapaz de bem”: evoé, Johnny Alf!), de acontecimentos pra-lá-pra-cá de cinqüentenários.
Parágrafo para Conexão-Cataguases (há sempre um link/conexão Cataguases em toda e qualquer história): Mindlin foi quem lançou a edição fac-similada da Revista Verde, em 1978. Falo “de cadeira”: a coleção de números da Revista que possuo é autografada por ele e por alguns dos remanescentes da Verde. Todos, como eu, presentes ao lançamento em Belo Horizonte. O outdoor me levou então ao logo da Metal Leve e a ninguém menos que ao cineasta Walter Carvalho, há tempos (mas não ainda naquele tempo) o melhor fotógrafo do nosso cinema. Havia me esquecido de meu querido amigo Waltinho quando falei aqui do Festival Audiovisual de Cataguases, que Joaquim Branco e eu organizamos em 1970.
Ainda em fase de preparativos para o Festival, viemos do Rio o Waltinho Carvalho, o compositor Marcus Vinícius e o artista plástico Raul Córdula – todos esses impávidos paraibanos num fusquinha que eu modestamente dirigia. Ainda na baixada fluminense, Waltinho – na época aluno da ESDI, a famosa Escola Superior de Desenho Industrial carioca, e por isso mesmo – chamou minha atenção para um outdoor da Metal Leve, para a perfeição de sua logomarca. Eis o “link” que me levou a lembrar dessa história toda: Waltinho Carvalho seria um dos membros do júri; Raul, o responsável pela cenografia do Festival, desenhando belos e “práticos praticáveis” para o palco do Edgard Cine-Teatro. Já Marquinhos-Marcus Vinícius de Andrade, que vencera o Festival anterior, vinha para se inscrever. E sua música, “Meio-dia doze mortes”, acabaria em segundo lugar.
Foi um rápido fim-de-semana, só pra tomarmos pulso da cidade, ver a quantas andava Cataguases às vésperas do Festival. Na madrugada do outro dia voltamos ao Rio em meio a um toró maior que um tororó, uma chuvarada daquelas. O fusquinha estava, por assim dizer, desprovido de limpador de pára-brisa. Eu não enxergava nadica – embora dissesse aos meus brancaleônicos amigos que nem precisava, pois sempre estive “local” naquela estrada. É bem verdade que a turma não acreditou muito nessa minha “localidade” interestadual e o Waltinho logo se prestou a me ajudar. Foi quando o poeta-processo – que ele o era naquela era – retira sua camisa, mete metade do corpo e a cara toda fuscafora, quer dizer, pra fora do fusca, e põe-se bravissimamente a lutar contra a chamada intempérie.
Quanto mais Waltinho esfregava a camisa, mais a chuva-chovia sobre o pára-brisa. Eu nada via, nem podia. Havia a estrada? Havia. Mas a via estava vazia. Ainda bem. Vários e fortes pingos, outras tantas esfregadelas e muitas rimas depois, a chuvarada cedeu – acho que amainada pelos golpes camisísticos & Waltínicos. Coisa do Carvalho. Muitos anos depois, Waltinho faria o excelente “Janela da Alma”, um filmensaio sobre a cegueira – não por acaso um dos entrevistados era o próprio Saramago – e sobre deficientes visuais & afins. Mas já naquela viagem, quem diria, ensaiávamos nossas cegueiras estrada afora. Corações e olhos apertados, vislumbramos enfim o Dedo de Deus ao deus-dará, ao nada apontar. Névoa de nada, Teresópolis surgia assustada em meio à manhã que se desfazia.
“Chove chuva choverando/ que a alma do meu bem/ está-se passando-se”: cito Oswald de Andrade de cabeça e a chuvas tantas – cabeça ainda molhada pelos pingos do parágrafo anterior. E tudo isso me leva à Joyce. A crase não é por acaso. Não ao Joyce, James – mas à cantora, minha preferida entre tantas. Exatamente “Joyce na Chuva” chamava-se um artigo que escrevi para o “Voz Ativa”, um jornal que eu fazia em Cataguases no final dos anos 80 – ao lado de Silvério Torres, Marcos Spíndola, Rogério Torres, Acir Vassalo e Washington Magalhães.
Eu vinha do Rio todo fim-de-semana para o “fechamento” do “Voz Ativa” – pois era, vamos dizer, o “subeditor carioca” do jornal. Entre seus colaboradores, nomes como os de Luiz Ruffato, Jair Ferreira dos Santos e Carlos Alberto de Mattos, além dos saudosos Roberto M. Moura e Carlos Alberto Castelo Branco – e até uma coluna da Glória (de Ipanema) Horta. Mas, na verdade, eu vinha mesmo era mais pra namorar a Olga Juliana – namoro no(i)vo, vocês sabem como é – até que ela fosse comigo lá morar (no Rio).
Sempre fui (e vim) de dirigir à noite. Numa dessas, achei uma fita esquecida no porta-luvas e botei pra tocar. De início, não ouvi direito: chovia muito na subida da serra e minha atenção voltava-se para a estrada. Mas, de Teresópolis pra cá, fui ficando “local” com a chuva e a estrada e comecei a prestar atenção na música. A fita era da Joyce, que eu sempre ouvira assim como quem não quer nada. A chuva, a noite, a estrada. Tudo ao som de Joyce, minha inesquecível companheira daquela noite de brEu sozinho na mata mineira. Como é que eu nunca percebera a grande cantora e compositora que ela é? Chego a Cataguases e ainda naquela noite escrevo o tal Joyce na Chuva. E, mesmo sem chuva, sem Joyce jamais.
As Costas. Tem as duas, a Alaíde e a Gal. Tem Áurea Martins e Rosa Passos. Tem a Silvinha Telles. A Elis. A Leny. A Elizete. E Bethânia. E Elza. E Ná Ozzetti. Tem sempre a Nara. E agora tem até japonesas, a Lisa Ono e a Fernanda Takai. Ex-namorada vale? Tem a Andréa Dutra. A Daniela Aragão. A Neti Szpilman. Mas não vem que não tem ninguém como Joyce. A voz, o violão, as canções. A batida perfeita da viola, as divisões inteligentes, o seu cantar, o texto sofisticado, as bem-sacadas crônicas – o que fazem vocês que ainda não leram seu livro “Fotografei você na minha Roleiflex”? As letras, as mutretas, as costas.
Seu baterista-muso Tutti Moreno que me perdoe, mas as costas de Joyce – ah, as costas de Joyce – quequieisso, minha gente?!!! Aquelas costas – aquilo sim são as veras (en)costas do Rio que sobre o (meu) mar de Minas se debruçam –, aquelas costas magníficas antevistas anos atrás em cada rodada que Joyce dava dentro de um longo-verde-vestido-frente-única a girar no palco de um teatro do Leblon. Estava comigo naquela noite e está de “provas costais” o Afonsinho, meu muso-baterista – que eu também carrego um, ora pois! E até mesmo o Caetano Veloso, a aplaudir (as costas?) na fileira à nossa frente.
Mas parecia que era pra mim que ela cantava – e quem dizia que não? “Eu com vestido verde hortelã/perdida em seus olhos de xamã/de deslumbrante cor de avelã/pra me aquecerem, feito astracã/mas pra que me cobrir de lã/se cá não ardo em febre terçã?/me seduzindo assim como um fã/com fala mansa, cantada chã/pra um passeio no seu Sedan/e ver um filme de Jean Gabin/me convidou para um coq-au-vin/que encomendou lá no Bec Fin”. Mas logo sua voz, a cristalinamada voz de Joyce, me acordava na noite malsã: “e com a benção de Iansã/prossigo firme no meu afã/de não tirar o meu sutiã/e o meu vestido verde hortelã.//(Até amanhã, galã tantã...)”.
| 7/24/2008 | 7:19:57 AM
Bossa Nossa/Bônus 1
Foi ele o baterista a acompanhar João Gilberto e Tom Jobim nas gravações de Canção do Amor Demais, o emblemático álbum inaugural da Bossa Nova. E foi também o primeiro parceiro de Tom, na composição Faz uma semana. Jóquei dos mais supimpas, José Maria Stocker controlava absoluto suas rédeas em cavalógicos páreos na Gávea. Mas corria bem mesmo era dentro dos compassos ritmados por baquetas e vassourinhas pelas boates de Copacabana. Marceneiro pra ninguém botar defeito, o Juquinha – como Stockler sempre foi mais conhecido – arquitetou funcionais estantes pro meu apartamento da Constante Ramos, em Copa. Ele, que é ainda hoje uma verdadeira enciclopédia da Bossa Nova, também andou por Cataguases lá pela década de 1980, trazido pelo Tomaz (“Man”) Pacheco, pra quem deu aulas de bateria.
Juquinha morava em cima do mitológico Luna Bar, no Leblon, e dali saíamos emborcando todas madrugadas afora. Isso quando “Dona Encrenca” deixava, que a mulher dele sempre marcou em cima. Falar de Bossa Nova sem lembrar do Juquinha não vale. Não posso me esquecer de nós dois contracenando num Super-8 que dirigi noite aforadentro, de uma cena filmada numa daquelas etílicas madrugadas na calçada do Luna Bar. O sol já inundando o Leblon, nós dois mais pra lá que pra cá, eu mostrando/discutindo pra câmera a capa do livro “O Século do Cinema” e Juquinha, meio que encostado num orelhão, interferindo na cena do alto-abaixo de seu bonezinho de jóquei, “agredindo” o livro de Glauber com um exemplar de meu “Pomba Poema”, ora pombas! Paulinho Pontes me disse certa vez que iria escrever uma peça de teatro chamada “Luna Bar”. Quer dizer, escrever não, completou ele, pois só o título bastava: “Luna Bar”. Quer mais? O Bertolucci acabou filmando, Fellini ouviu suas vozes, mas isso são outras histórias de La Luna.
E La Luna sempre – é claro, é clara – com um bar no meio. Uma década antes, e literalmente ainda meio que nas águas das etílico-musicais amizades iniciadas em Copacabana, no “200 da Barata Ribeiro” – aprendizado da noite que muito me ajudou na virada dos anos 60, e pra vida inteira –, passei alguns meses arregimentando músicos e críticos para concorrer, e principalmente para compor o júri, na segunda versão do Festival de Cataguases, agora denominado “Audiovisual”. Várias e várias noitadas no Baixo Copa. No El Cid, no Nogueira, no Beco da Fome (nunca mais aquela carne assada com aipim da Lindaura!) e no recém-inaugurado bar da cantora Waleska, no Leme, aquele “breu total” de muita Fossa e pouca Bossa.
Dali vieram para o Festival de 1970 o Gutemberg Guarabira (E viva o México, com João Medeiros) o Luiz Carlos Sá, o Zé Rodrix – o trio Sá-Rodrix-Guarabira foi formado em Cataguases, numa mesa do Bar Mocambo, o sol (quer dizer, mais eu & o chope) por testemunha. E ainda o Carlos Imperial (“não dá um jeitinho de classificar minha Maria, Maria”?), o compositor paraibano Marcus Vinicius (que vencera o festival anterior), Rildo Hora, de novo o Messias dos Santos (agora “em parceria Cristycaia” com Carlos Sérgio Bittencourt e também com Pedro Lessa, em Produto Perdido), a Bia Bedran, o José Carlos Capinam – numa parceria com o então exilado londrino Gilberto Gil (Zooilógico, que acabou não concorrendo) –, vencedor com Gás Paralisante, feita com o pernambucano Aristides Guimarães, e a Equipe Mercado.
Meu Deus, a Equipe Mercado! Comandada por meu amigo e poeta-processo Ronaldo Periassu, eles causaram um rebuliço dos diabos com sua Marina Belair (“Manicure/ Escândalo dos dedos/ Dédalus// Lapa ofegante ofélia/ Gritrilhos de quinta categoria”). Não só pela letra de Periassu, plena de bricolagens, como pela guitarra destorcida de Stul e a voz rascante e desnuda sensualidade da band-leader Diana. Durante a apresentação, o pessoal do Mercado mastigava carne de cachorro e lançava nacos e mais nacos a um estarrecido, provinciano, engravatado público. Acabaram expulsos da cidade – com todas as glórias da imprensa nacional, da Veja (Antônio Chrysóstomo) à Manchete e Revista Amiga (Adriana Monteiro), a O Globo (Nelsinho Motta), ao Pasquim e Última Hora (Luiz Carlos Maciel) e ao Jornal do Brasil, onde Carlinhos Oliveira atacou de crônica indignada em desagravo.
No júri, Nelsinho Motta, Luiz Carlos Maciel, Marina Colasanti e Affonso Romano de Santana, Lúcio Alves, Mariozinho Rocha, Antonio Chrysóstomo e mais e mais, filósofos (Jorge Roux), críticos (até mesmo de cinema, como o baiano Alberto Silva), e poetas e potentados de tal quilate (Wlademir Dias-Pino, Moacy Cirne, Álvaro e Neide Sá, Affonso Ávila e Laís Correia de Araújo) que acabamos colocando todos no palco do Edgar Cine-Teatro. Imagina! Onde senão no palco colocar um júri de tal magnitude – e ainda sob o comando e presidência gloriosa de Clementina de Jesus, assessorada pelo mui nobre poeta cataguasense Francisco Marcelo Cabral?
O Festival Audiovisual de 1970 foi a ponte para Maria Alcina (eleita melhor cantora, ela que já arrasara no festival anterior com Pesadelo Refrigerado, de Leão Condé e Carlos Moura) lançar-se nacionalmente, sob os cuidados de um Nelsinho Motta fascinado com a jovem cataguasense. Na coordenação, estava ainda o Ernesto Guedes (vide Bossa Nossa/Lado 1), aquele que me aplicou, lembram-se?, João Gilberto & quejandos. E também Beatles, muito jazz e João do Valle, que o Ernesto sempre foi um cara aberto a todas as tendências. O mesmo João do Valle que eu vi entrar uma noite no Beco da Fome, reduto dos músicos de Copa, e ser escorraçado pelo português, dono de um dos botequins. Ainda falei pro cara: “Sabe quem é esse? É o autor do Carcará, o senhor não pode tratá-lo assim”. O português retrucou: “Não me interessa, bêbado não tem vez no meu bar”. Tristes tempos também. Se bêbado no bar não tem vez, onde terá, meu freguês?
Logo, muitíssimo logo depois, um tempo em que muito circulei pelo Biblo´s, uma boate da Lagoa, onde às vezes a Rio Jazz Orchestra tocava, com minha querida Neti Szpilman como crooner. O resto da noite corria ao som da bateria de meu amigo Tião, de um pianista (quem mesmo?) e do baixo do Bebeto, que fora do Tamba Trio e com quem, nos intervalos, eu conversava horas & uísque a fio. Tamba Trio, sim, é Bossa pura e nos leva logo-loguinho a Luizinho, o Eça (mas não, não era ele ao piano naquela boate).
Fui possivelmente a última pessoa a entrevistar Luiz Eça. Ele e Marinho Boffa se apresentavam num show “a dois pianos” no CCBB, já nos anos 1990. Eu realizava os vídeos, os textos e os roteiros pro CCBB e lembro-me muito bem da entrevista, feita no camarim do Teatro 2. Câmera em campo/contracampo, nós dois baforando com aquela dignidade dos fumantes de antigamente. A cada close, Luizinho dava uma tragada e uma píccola tossidela que vou te contar. Eu tacava-lhe outra baforada na cara (de pau) e dizia: “Você precisa parar de fumar, ô meu, olha essa tosse!”. Eça não, quer dizer, Eça sim, retrucava: “Que nada, isso é um resto de gripe, coisa à-toa, que peguei semana passada num show em Belo Horizonte”. Luizinho Eça morreu quinze dias, depois, estirado no sofá da sala de Marinho Boffa, onde dormia entre uma tossidela e outra.
| 7/8/2008 | 7:54:49 PM
Mineiros do Pasquim


Definitivamente, não há controvérsias. Só mesmo quem for mulher de padre não vai ver a exposição “Os Mineiros do Pasquim” – com abertura no dia 11 de julho no Centro Cultural Humberto Mauro em Cataguases. Bem verdade que sou suspeito. Não, nada de “mulher de padre”: é que também fui colaborador do Pasquim lá pelos anos 1970. E, além do mais, sou o Coordenador da mostra que traz a Cataguases – e logo a seguir a Muriaé (agosto) e Leopoldina (setembro) – as charges e ilustrações dos seis cartunistas mineiros que participaram do célebre hebdomadário carioca-ipanemenho: Caulos, Guz, Henfil, Nani, Zélio e Ziraldo. A exposição em Cataguases pode ser visitada até o dia 10 de agosto. A seguir, em primeira mão pra vocês, o texto de apresentação que “co-meti” (palavra certa) para a mostra. Ah, sim: o “lado Bônus” do álbum duplo “Bossa Nossa” retorna na próxima.

A letra que falta
“Ano gráfica e geograficamente de ponta-cabeça, nada mais natural que 69 visse também nascer O Pasquim, um jornal literalmente da pá-virada. Um ano às avessas, onde se mergulhou fundo e forte. Comendo pelas beiradas, mas comendo sempre – no umbigo de 69, na metade exata (o número 1 é de 26 de junho) –, eis que se intromete esse safado jornaleco desobstaculizador (epa!) dos papais & mamães da imprensa brasileira, o destemido hebdomadário inventor de novas posições sessenta e noves (a)fora – que perdurou (epa! epa!) até o número 1072, de 11.11.1991.
Pasquino é termo romano que significa “texto satírico, crítico e mordaz colado em local público”. E também “jornal ou folheto calunioso”. Num sentido pejorativo, “jornal sem repercussão, sem importância, ou mal redigido”. O Pasquim assumiu tudo isso, que não era jornaleco de deixar que assumissem por ele. E acabou por entornar o caldo e logo assumir também o posto de mais vendido. Não só da imprensa nanica, mas concorrendo com os grandes bananas nacionais. Do Globo à Veja, ora vejam só.
Diz-que desaforado. Desabrido. Desavergonhado. Diz-que destemperado. Desconcertado. Descomedido. Diz-que desparafusado. Diz-que “des-inserido” no contexto. As charges, os cartuns irreverentes. A descontração da linguagem não-oficial, aqueles asteriscos de palavrões pressupostos, o texto a correr como se falado fosse. E era. Seis meses após o AI-5, na contramão do governo militar, um jornaleco de primeiríssima, produzido por uma “patota da pesada”: Sérgio Cabral, Tarso de Castro, Millôr Fernandes, Jaguar, Sérgio Augusto, Fortuna, Claudius, Miguel Paiva, Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel, Martha Alencar, Ivan Lessa.
Mas aqui estão só os que mineiros são – essa meia dúzia de artistas que atua por um time todo, com suas endiabradas criações a pular das páginas do “velho Pasca”, a empunhar (epa! epa!) seu varonil valor. Quase quarenta anos após a primeira edição, ressurgem nesta mostra – patrocinada pela Energisa/Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho através da Lei de Incentivo à Cultura de Minas Gerais – algumas das melhores tiradas da patota, extraídas das recentes Antologias I (1969-1971) e II (1972-1973) do Pasquim, lançadas em 2006 e 2007 pela Editora Desiderata. Criações que assinalam a importância dos cartunistas mineiros. Aqui – e agora sim – devidamente inseridos no contexto.
Divisor de águas, nosso principal veículo alternativo, o Pasquim refletiu e nos fez refletir sobre um amargo período da História do Brasil – o “destemido hebdomadário” foi na verdade um (de)formador de (falsas) opiniões. Vários intelectuais de Minas figuram & fulguram em suas páginas. Rever essas charges e cartuns é também desengatar (epa!) daquele trem de mineiro esses seis desatinados vagões que sempre correram fora dos trilhos da mesmice, esses Caulos, e Guz, e Henfil; esses Nani, e Zélio, e Ziraldo.
Agora com vocês, os mineirins do Pasquim. Todos “comeketins”. Sabem David e Golias? Sacam os vietcongues e os gorilas? O Pasquim foi a irresistível resistência. Quando Juscelino morreu, Ziraldo criou uma capa com todo o alfabeto, menos as letras J e K. Aos analfabetos de hoje, o Pasquim é a letra que falta”.
Ronaldo Werneck
Coordenador do Projeto
Os Mineiros do Pasquim
| 6/5/2008 | 8:44:27 PM
Bossa Nossa/ Lado 2
É Lúcio Alves quem ouvimos agora na faixa de abertura do Lado 2 deste Bossa Nossa. O Lúcio que vem ao vivo, com aquele cheiro-Djalma Ferreira. Aquele cheio de saudade. Não o Lúcio Alves que também mereceu capa de cara “clean” & concreta assinada por César Villela – e com sua marca por excelência: o preto-e-branco predominante, foto constrastada, discretíssimos detalhes em vermelho naquele elepê Aloysio Oliveira/Elenco, ouvido na casa do Carlos Sérgio. Mas sim o cataguasense Lúcio Alves Ciribelli (que ele também era coisa nossa), cuja voz surge de uma casa na Avenida (qual? quando?), a gente sentado no chão da sala, silêncio & ouvidos absolutos – o outono enfim no coração só pra ouvir a impecável “versão Lúcio” da canção de Ferreira que ficara famosa na voz “Drink no Rio” de Miltinho: “É aquele cheiro de saudade/ que me traz você a cada instante/ folhas de saudade, mortas pelo chão,/ é o outono, enfim, no coração”.

É. É talvez que é tempo de saudade (“trago o peito tão carregadinho”), pois volta súbito um táxi subindo a Rio-Petrópolis, junho de 1969. Eu e o motorista no banco da frente; atrás, Lúcio Alves e a cantora (e também “certinha” do Stanislaw) Luely Figueiró. O destino? Adivinhem! Lúcio ia/vinha pro júri do 1º Festival de Música Popular de Cataguases, que eu organizara com o poeta Joaquim Branco, e Luely pra defender a canção “Momento”, de Messias dos Santos. O Messias que aqui retorna – depois de ouvir com o Acir, em 1959, a Canção do Amor Demais na loja do Comissário, vide Lado 1: retornar é sina dos Messias.

“Momento” era do Messias com letra de Afonso Vieira, o Afonsinho da Bateria, que volta à cena numa das faixas, perdão, parágrafos adiante. Nesta, e por enquanto, o que ouvimos são mesmo os sincopados semitons de Lúcio & Luely, que cantam Ismael Netto/Antônio Maria na Serra de Petrópolis, ainda agora e a duas vozes. E olha: bem que eu quis escrever um poema de amor, e o amor estava em tudo o que eu vi, o que ouvia , em tudo quanto eu amei naqauele momento. Mas no poema que eu fiz tinha alguém mais feliz que eu: o meu amor que não me quis (eta fossa, sô!). E olha o vento, esse vento do mar em meu rosto. E o sol a queimar, queimar. Calçada cheia de gente a passar e a me ver passar.

O Rio que por nós passava naqueles tempos era mesmo o das calçadas da Copacabana de Antônio Maria, do brilho de seus textos, do seu humor escancarado em paradoxal convivência com suas letras “down by the river side”. Aquela coisa de ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire – tudo, é claro, na voz dilacerada & fossa-pura de Nora Ney (que volta aqui após aquela mal-sucedida incursão no “Rock Around” que nos trouxe a já famigerada vitrola do Comissário). Mas o engraçado é que foi o próprio Antônio Maria quem escreveu logo de cara sobre a “bossa” de João. Fala, Maria: “João Gilberto será sempre o violeiro manso que, tirante o amor, tem medo de tudo. Tempestade, guerra, faca de prata, febre terçã. De tudo ele receia. Menos do amor. E sua voz rumoreja uma porção de palavras que sabem os caminhos dos corações sensíveis. No peito, a viola. Não sei de quem toque de maneira tão esquisita, tão fácil de sentir. Tinha que ser entendido, um dia”.

Qual o quê, Maria! Até hoje esse tocar esquisito do João parece não ter sido devidamente entendido. Não só “quem toque assim”, mas também “quem cante assim”. É, Maria. Veja agora as quebras e requebros de suas palavras, o seu cristalino silabar e diga lá o que é isto, diga lá junto com seu rival Ary Barroso, Maria. Isto aqui o que é, bim-bom, João-João, o que é essa morena boa que me faz penar, mas olha só o remelexo que ela sabe dar, olha como João pega carona com Haroldo Barbosa e diz adeus ao boogie woogie e ao swing também, pois isso aqui é um pouquinho de Brasil e o samba mandou nos chamar.

E olha que toda a “poesia” da Bossa Nova – Tom Jobim à parte – encontra-se no fraseado e no tom inovador de João, com seu dizer-não-dizendo, sua dicção reinventada – um João pleno de sons e permanentes surpresas. O cantar escandido, a pronúncia exata como nunca se ouvira – só aquele inglês silabado e corretíssimo de Sinatra poderia ser um parâmetro. Vinicius falava em emissão perfeita, num texto de 1965: “Bossa Nova é o canto puro e solitário de João Gilberto, eternamente trancado em seu apartamento, buscando uma harmonia cada vez mais extremada e simples nas cordas de seu violão e uma emissão cada vez mais perfeita para os sons e palavras de sua canção”. É isso. Estavam certos Antônio Maria e seu grande amigo Vinicius (“fala, Poesia”) de Moraes: a bossa toda era/é mesmo João. E sempre no tom (de) Jobim.

Na segunda metade dos anos 60, aquele Rio de Antônio Maria era pra mim Copacabana e um Edifício chamado 200, nome de peça do meu amigo Paulinho Pontes, que morava com Bibi Ferreira numa rua das vizinhanças – e que deu aquele título possivelmente influenciado por tanto eu contar pra eles aquelas inacreditáveis “histórias do 200”. Ali morei com dois bateristas, o conterrâneo Afonsinho e o paranaense Tião, meus grandes amigos até hoje. Era música, eram músicos dia-e-noite, night´n´day jazz & bossa. A maioria dos músicos da noite morava na Zona Norte e nosso apartamento – situado no meio de emaranhado de boates, casas noturnas e inferninhos de toda espécie – era o endereço certo, o ponto de referência onde trocavam de roupa, batiam papo, tomavam umas & outras, ensaiavam e, às vezes, até mesmo compunham.

Pelo apartamento da Barata Ribeiro, 200, passaram – citando assim ao “vai-do-samba”, que a turminha não era de encarar uma valsa – o Juarez do Sax, o baterista Robertinho Silva, o grande guitarrista Írio de Paula (que está na Itália há 40 anos, ou mais, desde que pra lá foi com o Afonsinho e Elza Soares – e pelos trasteveres dessa vida se embrenhou pra sempre), o Reizinho da bateria, os baixistas Tuca e Totó, o Celinho do pistom, o saxofonista Zito Righi (que logo depois seria “Bob Fleming”, atuando nos bailes dessa vida no lugar do Moacir Siva, com o Afonsinho no comando da bateria), o compositor Mário (irmão da Silvinha) Teles e o baterista Milton Banana. Este estacionava toda noite no botequim lá embaixo, e sempre me perguntava pelas cotações da Bolsa, pois Banana acreditava que eu era no mínimo um “broker” do pregão, dado eu andar invariavelmente de terno. E ainda o não menos Milton Nascimento, que chegava de Minas pra defender sua Travessia naquele Festival, lembram? E, também de Minas, o pianista e arranjador Wagner Tizo – que morou conosco por uns dois ou três meses.

Ah sim, abro outra faixa-parágrafo, pois o “Barata Ribeiro, 200” tem história – Paulinho Pontes tinha razão ao escrever sua peça. Um dia, distraído, abro a porta e sou quase atropelado por uma moto, que vinha a toda pelo imenso corredor que abrigava não sei mais quantos apês por andar. Chose de loque. Mas louco mesmo era o saxofonista Tranka, um arranjador conceituado e genial. Amigo do Tião, Tranka baixava sempre lá em casa e às vezes ficava dedilhando um velho violão jogado por alguém na sala. Um dia, aparece o Martinho da Vila. Tranka ia fazer o arranjo de uma música dele (qual mesmo?) que estava concorrendo a um dos muitos festivais da época. Martinho chegou cobrando o arranjo, e não deu outra. Tranka pegou o violão e fez o arranjo na hora, assim como quem não quer nada. A música foi grande sucesso no Festival. Detalhe: para desespero de Martinho da Vila, o violão tinha uma corda a menos.

E a figura impoluta do pianista Paulinho Cego, minha gente? Sempre sorrindo, de bem (como ninguém) com a vida. Um dia, alguém trocou suas meias de pura sacanagem. Lá foi ele, pimpão como sempre, nem aí pras meias – uma vermelha, outra marinho. Contaram pra ele, mas Paulinho fez que não sabia (“cego tem dessas vantagens, Ronaldo”).

Só o vi enfurecido quando, apertado pro pipi, alguém lhe deixou como mictório o capô de um carro estacionado. Dia claro, sol em meio, o motorista com a namorada do lado quase enche nosso ceguinho de porrada. Ufa, dessa vez foi por pouco: Paulinho dava murros cegos e em vão no ar, aqui e ali, que nem Muhammad Ali. Mas a melhor dele foi com o Afonsinho. Os dois já prontos pra descer, show-time, e já atrasados para entrarem na boate, quando falta luz. Seis andares no escuro, como é que fica? Paulinho vira-se pro Afonsinho: “põe a mão no meu ombro, bicho, que dessa vez é o ceguinho quem vai guiar a parada”.

Pois é, isso aqui é também um pouquinho de Brasil, desse Brasil que canta e toca, né seu Ary?, dessa gente que às vezes até é feliz-infeliz. Eles todos que no 200 baixaram e também a inacreditável penca dos demais músicos a circular sua solidão pela madrugada de Copacabana – a ver a calçada vazia, ninguém a passar, ninguém a os ver passar. E mais ainda: uma pá de garotas da noite, da bossa e da breca, que acabavam buscando caliente acolhida em minha cama, a única de casal do famigerado apê do 200. Pois é, as moças da noite amanhecendo em minha cama e eu tendo que cumprir meu ofício... no Banco do Brasil, é claro, onde batia ponto invariavelmente às nove da manhã. Semana que vem, a Bossa Nossa prossegue: faixas-bônus.
| 5/29/2008 | 8:45:15 PM
Bossa Nova/ Lado 1
Na geografia afetiva da época, as ruas da Cataguases 1950 eram rebatizadas por afinidade. Era assim a rua da Maizé e do Zé Luiz, a da Elvira, a do Carlos Sérgio, a da Maria do Carmo, que também era a minha. A cidade girava em torno da praça e de seu entorno – não uma “Rui Barbosa” qualquer, como tantas outras, mas a “nossa” praça Rui Barbosa, entoada com todos os erres. Um largo entorno que passava pela rua do Sobedesce, chegava à praça da Igreja, descia a rua dos Estudantes, atravessava a Avenida (sempre “Avenida”, jamais “Astolfo Dutra”) pra subir o morro de terra do Colégio (não havia Avenida Humberto Mauro, nem dele sabíamos ainda).

Na volta do Colégio, o dia em meio, jogávamos pedrinhas no córrego Lava-Pés – só pra fazer chuá-chuá, que coisa mais supimpa! – e subíamos famintos a rua da Estação. Às vezes, enveredávamos pela rua do Carlos Sérgio (a única no mundo que “descia pra Cima”, a Cia. Mineira Automobilística) e seguíamos em direção à rua da Maria Cristina e da Mabel, para deixarmos as duas meninas na casa da rua do Pomba, a casa do nosso diretor (que sequer imaginávamos, imagina!, ser assinada por Niemeyer), o Doutor Francisco (que mais tarde, quando já éramos “colegas de escriv´ânsias”, acabou mesmo sendo chamado afetuosamente de “Chico”, Chico Peixoto). Outras vezes, descendo do Colégio, esticávamos por outras bandas & esquivanças e subíamos a rua do Mete-em-Pé. Mas eram subidas inocentes, como de resto tudo o mais.

E agora – lá se vai meio século, e morando na Avenida, exatamente na cândida perpendicular do Mete-em-Pé – saio de novo a procurar o som daquele tempo. Não, meu caro Acir, nada daquilo que você, Vatinho e Messias ouviam na praça, na minúscula lojinha do Comissário José Thomaz – que se chamava, é claro, “Miniatura” (gracias, Antônio Jaime!). Nada da batida cool da Bossa Nova, nada do violão de João. Nem lugar há mais pra isso. Pelas ruas o que se vê é ainda uma gente que nem se vê. E nem marcha-rancho. Nem Lyra-Vinicius.

Pois o que agora ouço, e com profunda irritação, não é mais o apito da fábrica de tecidos, que silenciou como aquela do Noel. Mas sim o apito do trem, que leva nossa bauxita e paciência Avenida afora. E parece nos passar um pito a apitar assim, a rir de nós assim – a tremer nos trilhos assim, esse gaiato que lá vai a buzinar com estrondo. Parece filme do John Ford. Só que somos os índios. O quê? É, os ín-di-os! E devidamente ensurdecidos. Dá vontade de no trem meter em pé (mas de guerra) um trovão de volta. De destampar com um estridente A wop-bop-aloo-mop-alop-bam-bom, de rachar com um Little Richard os ouvidos do maquinista – que nos sorri com ar de pateta e ainda acena para idiotas como nós, que se debruçam pelas varandas a varar suas vaias contra o vento.

Só depois que o trem passa posso no passado pensar. Posso por essas ruas passar. “Velho caminho/ por onde passou o meu carinho/ chamando por mim.// Caminho perdido na certa,/ caminho de pedra onde não vai ninguém.// Só sei que hoje tenho dentro de mim/ um caminho de pedra no peito também”, cantava “Tom & Vinicius” aquela Elizete do “Caminho de Pedra” de Canção do Amor Demais. Tempos de “um olhar desesperado/ a derramar melancolia em mim/ poesia em mim”. Mas na verdade a poesia ainda não mandara me chamar. Nem o samba com essas novas bossas. Eu queria mesmo era rosetar.

Melancolia em mim, poesia em mim? Vê se derrama pra outras bandas. Aquele Vinicius de letras ainda empostadas, que vinha lá dos tempos da busca pelo “Sublime”, não me dizia nada. Aquele negócio de “assim como o poeta só é bem grande se sofrer” – que surgia do Vinicius em diálogo como o “Absoluto”, aquele dos anos 30, de “Forma e Exegese”, de “Ariana, a Mulher” e até dos “Novos Poemas”, de 1938 – não me motivava “em absoluto”. Aquele letrista ainda apegado aos “males inevitáveis do amor”, aos desencontros e sofrimentos na linha do amor cortês medieval – que emblematizava o sofrimento como único caminho para as epifanias do amor –, aquele Vinicius não “calava” em mim, porque em mim não repercutia.

Mais eis que o mundo começacaba mesmo em Cataguases. Ou daqui se inicia, se alça para a partida. Pois a canção, como naquela mesma e exata letra de Vinicius, “só tem razão se se cantar”. Inclusive com esse melódico “se-se”, ciciar de pássaros, canto de cigarras. A Bossa Nova passou por Cataguases – tudo passa por aqui, ou vocês duvidam? – quando ainda nem se sabia como tal. Lembro de Vinicius no Colégio Cataguases, numa manhã qualquer dos anos 50, talvez 1957-58. Camisa vermelha, cabelos grandes e (ainda) grisalhos, sapatos mocassim sem meias. Os mesmos e confortáveis mocassins da “Moreyra” (usados também pelos “Chicos Peixotos”, o pai e o filho), que eu mesmo iria adotar ao me estabelecer no Rio, meados da década de 60. Era o poeta de quem eu tinha “vaga notícia”, pai do meu colega Pedrinho (sempre a “filar” minhas “vinte”, as bingas de meus cigarros da época, o sem-filtro e arranca-peito “K-Tall”) – esse tal de Vinicius de Moraes, que nos chegou muito descontraído, e muito cariocamente nos falou no Grêmio Literário Machado de Assis sobre poesia & coisas quetais. Prestei mais atenção em seus mocassins sem meias, seu indistinto charme bossanovista.

Havia também um violão pré-bossa, tocado por outro interno do Colégio, o Dori, que namorava uma daquelas meninas da minha rua, filha do Seu Nogueirinha (Maria, Maria do Carmo, Terezinha?). Na varanda das Nogueirinhas, ouvi atento e por várias vezes aquele violão batuta, a voz rouca de meu colega Dori a cantar aquelas canções de pescadores, de uma aparente simplicidade – na verdade sofisticadíssimas. O mar da Bahia chegou-me assim, com a melodia de seu pai, um certo Caymmi. Mal sabia eu que menos de cinco anos depois, 1964, iria também morar na Bahia de São Salvador – e baiano por pouco não me tornaria, tal a porretíssima força de baianidade tamanha que baixou em mim, ó minha Menininha!

Foi então, nesse vai-não-vai, que o que Bossa viria a ser já me vinha de viés e ao vivo naquela Nova Cataguases de nunca mais anos 50 – do violão de Dori aos mocassins de Vinicius. Mas ouvida mesmo, e com atenção, acho que só em 1960. Era o som que “descia pra cima”, que ro(n)dava em nossos estudos na vitrola da casa do Carlos Sérgio. Junto com um ou outro Sinatra, predileção do nosso pianista Paulino. Lembro-me de “Sinatra Sings for Only the Lonely”, particularmente daquela canção de Nelson Riddle, “Ebb Tide”, que hoje pode ser encontrada no “youtube” – numa curiosa versão como pano de fundo para a famosa cena do assassinato de Janeth Leigh na banheira, no clássico Psicose, de Hitchcock.

A batida inovadora de João Gilberto, aquele violão “desencontrado” que acompanhava a Elizete em “Chega de Saudade”, quem percebeu de cara foi o Ernesto. Que não morava no Brás, mas foi quem primeiro nos convidou praquele novo tipo de samba. O Ernesto Guedes, que sempre intuía o novo e que logo nos trazia, “gilbertista de primeira hora”, o elepê inaugural do João, “O Amor o Sorriso e a Flor”. Um título que vou te contar. Mas com uma virada de viola e uma dicção tão perfeita que parecia aquela onda que surgiu no mar. E a capa? Cara, a capa era aquele nada que é tudo. Tudo branco, com discreta inserção de suave tipologia, em pequenos caracteres com o nome da gravadora (Odeon), do autor e o título. Logo abaixo, uma breve assinatura “João Gilberto”. Uma foto solarizada de João & violão no canto esquerdo, e é tudo. Tudo-quase-nada (o)usado pelo programador visual César Villela, o mesmo que faria logo a seguir as capas da gravadora Elenco, do Aloysio de Oliveira. Mas isso já faz parte do “Lado 2”. Semana que vem, viramos o disco.
| 5/14/2008 | 2:07:06 PM
O rock do Comissário
Na eletrola, a agulha sobre o vinil e o mundo a girar 1958 adentro. O som era o do Zé Comissário. Na Cataguases da época, “Comissário” era aquele sujeito pago por “comissão” como o Zé, que ia semanalmente ao Rio para levar e trazer encomendas. E que aproveitou pra abrir pequeníssimo ponto de vendas no esmirrado hall ao lado do Cinema Cataguases – discos, chocolates, chicletes ping-pong e cigarros Minister, a grande novidade das primeiras baforadas com filtro. Tudo ali naquele canto, subida pro Clube Social e descida pro Porão do João Tatu, a toca freqüentada pela maçonaria dos sinuqueiros. Exatamente onde agora funciona a Maçonaria, a outra.

Hoje Edgar Cine-Teatro, o Cinema Cataguases – instalado no novo prédio aberto em 1956, onde funcionara o velho Cine-Theatro Recreio dos tempos de Humberto Mauro – era naturalmente chamado de “Cinema Novo”, também para se distinguir do velho “Nelascope”, como eu chamava o Cinema do Seu Nelo Machado, na diagonal da Praça Rui Barbosa. E, como sempre antevendo o futuro – pois o presente, olhaí, já é passado –, Cataguases inaugurou o seu verdadeiro Cinema Novo antes do movimento dito como tal. Bem verdade que “Rio 40º”, o filme-seminal de Nelson Pereira dos Santos, é de 1955. Mas verdade mesmo é que o Cinema Novo, o “deles”, só ganhou esse nome bem depois, já nos anos 60. A gente de Cataguases já ia ao “Cinema Novo” em 1956: não há controvérsias.

E ouvia-se de lá a vitrola do Comissário. De lá do Porão do Tatu, digo eu, que ali ensaiava novas tacadas e assistia – pura fascinação, I know – aos inacreditáveis lances daquelas memoráveis partidas de bilhar entre Aristides Braga e Elton Santos, coisa de gênios. O som que descia pela escada já vinha alto de nascença e não havia razão prum antecipador “aumenta que é rock´n´roll”. Vinha de lá o "negrimoral” Chuck Berry, o papa-mocinhas Jerry "The Killer" Lee Lewis, o adamado Little Richard e a sex-coqueluche Elvis "The Pelvis" Presley. Mas nada disso sabíamos ainda. Só que aquilo era o tal de rock´n´roll, que a gente ouvira pela primeira vez do outro lado da praça, naquele “filme do Glenn Ford” no Nelascope, o Sementes da Violência/Blackboard Jungle, e logo naquele outro, Ao Balanço das Horas/Rock Around the Clock, com o Bill Halley e seus Cometas, que além da vibração da música-título nos apresentava Only You e See you Latter Alligator.

E tudo isso a combinar com o chiclete de bola, o cigarro com filtro, a camisa vermelha e a calça Lee dos alunos internos do Colégio Cataguases. Que quase sempre vinham do Rio de Janeiro e ganhavam, com o devido perdão, todos os “brotinhos”, mas – ó tangas, ó mangas! – eram nossos eternos patos na sinuca e nas notas mensais. Exceção feita pro Chico Buarque de Hollanda, o próprio, que costumava brilhar, o safado, nas lides das notas escolares. “Também, pudera!”, disse alguém, “o cara é filho do homem do dicionário!”. Contei isso pro Chico anos depois, quando seguíamos, velhos atletas, pruma partida de futebol do Politheama no Recreio dos Bandeirantes. Ao volante, “o filho do homem do dicionário” quase bate com o carro, tamanha foi sua risada.

Coisas que agora retornam, trazidas pelos contraventos de um email de meu amigo Acir Vidal, o comandante-em-chefe do “Contraovento”, mordaz & movimentado blog que ele posta lá de Vitória de todos os Santos Espíritos, inclusive os de porco – e que até mesmo os meus “Há Controvérsias” abriga. Sem brigas, sem nada demais. Assim diz Acir: “Ronaldo, meu querido. Em 1958/59 eu ouvi pela primeira vez o João Gilberto cantando Chega de Saudade, num disco 33 RPM, na loja do Zé Comissário, na entrada do Clube Social. Eu estava com o falecido Vatinho, Jones Walter de Mello, o Messias e não me lembro mais quem. Ouvíamos discos também lá na loja da Belinha, cujo nome da loja me esqueço, e que ficava em frente onde hoje é a Caixa Econômica Federal, perto da Estação. Seguinte: como estamos comemorando 50 Anos de Bossa Nova, bem que você poderia escrever algo a respeito. Mesmo havendo “controvérsias”. Que tal?”

Dito & feito. Ou: eis-que o porquê. Atendendo ao pedido do Acir – com entregas sempre contra o vento e “a/em” domicílio, graças à internet – comecei a me lembrar do Comissário, dos discos 33 RPM e até da loja da Belinha, na verdade a Casa Radar. Mas, eu nunca ouvi discos por lá, na Radar. Na loja do Comissário, sim. E, perdão Acir, era na verdade muito rock que rolava escada abaixo. Por onde descia do rascante refrão de “Let´s rock, evebody, let´s rock” do Jailhouse Rock do Elvis – idolatrado/imitado mais tarde pelo nosso querido Niquinha –, a todos os outros “Snookers Rock” ali ouvidos, hits como Roll Over Beethoven e Route 66, de Chuck Berry, & os cambaus. Bossa Nova pra mim foi depois. Eram naturalmente outros os ouvidos do Acir, um expert e colecionador, sempre atento a qualquer novidade “mais sofisticada” surgida nos discos; do caro e saudoso Vatinho-Jones Walter, que bem se defendia na voz-violão; e do compositor e cantor Messias dos Santos.

Os meus ouvidos, à época, ligavam-se ao barulho das bolas do bilhar, ao balanço das horas da sinuca. Esse o meu ritmo, o frenesi do “rock do Comissário”, que reverbera ainda agora e toma de assalto minhas palavras. De Chuck Berry a Chubby Checker e só depois, num vôo cool, a Chet Baker. Daquele mix de rock-blues-country de Berry em Maybellene ou Johnny B. Goode ao Let´s twist again do Ernest Evans, que vocês podem chamar de Chubby Checker, se melhor lhes aprouver. De quem, aliás, eu preferia a versão “twilstal” & coisa do I Could Have Danced All Night, som que me levou a sessões de contorcionismo explícito com (a)variado elenco de My Fair Ladies na pista do Clube Social.

Falta Little Richard, que ressurge aqui, e vivíssimo (como também Berry) ainda agora, com Long Tall Sally e o famigerado Tutti Frutti, aquele do grito de guerra de “Tarzan das Bonecas”: A wop-bop-aloo-mop-alop-bam-bom. Pois é: isso enquanto, nos brasis de Cataguases o rock tupiniquim nos chegava pelo rádio na voz da musa da fossa Nora Nei com “Na Ronda das Horas”, a tenebrosa versão de Rock Around the Clock. Logo quem, a Nora Nei do início da MPB, cujo grupo contava, vejam vocês, com o sofisticado acompanhamento do piano de Johnny Alf, além dos irmãos Farney: Cyll na bateria e Dick nos vocais. O “rádio” era naturalmente “Hoje é Dia de Rock”, o programa de Jair de Taumaturgo que a torcida do Operário e todos nós, desprovidos de “electrola”, ouvíamos pela Rádio Mayrink Veiga.

É por aí que surge o não menos Carlos Imperial, também ele interno no Colégio Cataguases, agora no comando do “Clube do Rock” na TV-Tupi do Rio. Imperial iria produzir em 1961 Louco por Você, o primeiro disco de Roberto Carlos (que ele intitulou “príncipe da Bossa Nova”). Acusado de imitar João Gilberto, o disco do “príncipe” desatinou nas paradas e foi por água abaixo. Mas, logo à frente, o príncipe voltaria à tona: coroado rei, ele mandaria tudo pro inferno ao deslanchar no leme de emoções jovemguardistas dos Lady Lauras & outros detalhes. E deixou de tratar Imperial por “papai”, como nos velhos tempos: o império agora era só dele. Coisas de rei, vocês sabem. Semana que vem, e finalmente para gáudio do Acir, a gente vem cheio de bossa. A nossa.
| 4/15/2008 | 5:44:02 PM
Frevo na Casa do Agra


Recife: RW & o apresentador da folia no Marco Zero
© Lilia Tandaya

Ainda na prise nordestino-momesca. Na terça, rumo ao frevo – que Lilia precisava fotografar no Recife. Mas já saímos tarde de João Pessoa e chegamos com a noite em meio. Grandes engarrafamentos até a entrada de Olinda. Passamos batido rumo ao Recife: frevar ali nem pensar. Já ia lá pelas dez quando adentramos o Marco Zero – o “epicentro da efeméride”, com o devido perdão pelo pernambucano arroubo de epicentro & efeméride E literalmente adentramos também a balbúrdia de vários blocos de rua. Lilia clicava dali e daqui e eu dançava aqui e ali em plena rua, junto à multidão de brincantes. Não dançar, nem pensar. Sem dançar, não conseguiria acompanhar minha amiga, que dançava num bloco e clicava no outro. Ou vice-versa: há controvérsias.

Mas não conseguimos encontrar nenhum frevo na noite. Exaustos, saímos do Marco Zero em direção ao carro, que estava do outro lado da ponte. Só então, atravessando a ponte toda carnavalizada com aqueles bonecos imensos e luzes verde-rosa – a Mangueira homenageava Recife nesse Carnaval, e Recife retribuiu com suas luzes –, é que me dei conta de seu nome: Ponte Buarque de Macedo. Foi quando ainda em pleno Carnaval fui lembrar-me logo de quem, de Augusto dos Anjos, o poeta das sombras. Pois é, disse para Lilia, o Augusto dos Anjos, que está enterrado em Leopoldina, cidade perto de Cataguases, tem um poema que fala dessa ponte. E lembrei-me da enigmática quadra inicial do poema vastíssimo:

Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo.

Já na BR de volta à Paraíba, Lilia pisa fundo e me diz que prefere não usar faróis altos, pois enxerga bem e não gosta de ficar trocando a luz ao cruzar todo veículo que lá vem vindo. Noite alta e faróis baixos, lá vem vindo minha cisma – e me distraio em meio à escuridão a pensar no poema do Augusto. No sinistro poema dos Anjos em meio à noite, naquela “casa do Agra”, na verdade, um funerária (ou necrotério?) que existia (existe?) no Recife. E sinto um arrepio nesse final de noite e de Carnaval ao lembrar-me de outra das quadras do poema:

Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!

Na verdade, não pensava em (d)escrever nada disso. Paraíba, Pernambuco, Maracatu, o frevo que não houve. Acontece que em minha caminhada neste início de noite, quase dois meses depois, vejo minha gorda e nada saudável sombra projetar-se à minha frente na velha ponte de Cataguases. Ela levou-me de imediato ao poema de Augusto. Não uma sombra magra, como a dele. Nem (ainda) rumo “à casa do Agra”. Mas lembrei-me também que a Ponte Velha nos leva a Leopoldina, onde o poeta se encontra ainda hoje – e, seguindo direto & reto, ao cemitério de Cataguases, onde me encontrarei um dia. O que não é muito correto.

Estranha coincidência: como a Buarque de Macedo, a velha ponte de Cataguases também leva à casa do Agra. E do metal da ponte me surgiu essa quadra assim, em redondilha. Não tão longos versos, como os “de onze” do Augusto, mas com ar de emplacados em funesto bronze.

Ponte Velha: Cataguases.
Eu, em minha caminhada,
Arrasto a forma abaulada.
Sombra redonda: ou quase.

Mas, nem eu nem Augusto seguimos “direto & reto” pra aonde vocês bem sabem. O poema dele atravessou a ponte levando todas as suas cismas e dobrou pra direita, pros lados de Leopoldina. Já o meu ficou por lá mesmo, ensimesmado. Eu fui-me logo embora dali, passos apressados à esquerda, pela calçada do Clube do Remo afora. Logo a memória remou velhos carnavais pras bandas daqueles salões. Coisas de confeti que (não) chorei.

Prise de lança e magnólia
em mim recende vida afora:
dança balança na memória
e Pernambuco vai embora.
Caduco agora vivescrevo:
Bloco das Flores, Pirilampos
luzAndaluzas – não me atrevo
frevê-frevar por esses campos.
| 4/9/2008 | 11:59:15 AM
Boi com Maracatu


Paraíba à beça: a fotógrafa, o boi, o poeta.

© Foto: G.G. Carsan

Pimpão e passadiço passo-que-passo por Paraíba-Pernambuco no compasso da folia 2008. Frevo esparso, mas muito maracatu no pedaço. O quartel-general da banda é em Cabedelo, nas proximidades de João Pessoa: Pousada de Ana Júlia, mãe de minha amiga, a fotógrafa paulista Lilia Tandaya. O mar em frente, verde-invadente: à tardinha, maré cheia, cadê a areia? O mar quase nos alcança na varanda. Êh verde-vida! Quer dizer, nos interlúdios. Na verdade, todo-tempo-todo trouxe muito (e, é claro, carnavalesco) trabalho. Pernas pro ar? Nem pensar, nem penso: só mesmo no poema do Ascenso. Lilia foi fotografar as manifestações de raiz em vários locais – e lá fomos nós nordeste aforadentro, eu de fiel escudeiro.

Em João Pessoa, na concentração do tradicional Bloco do Boi do Bessa, em casa do artista plástico Clóvis Júnior, ensaiamos apenas um esquenta-tamborins. Pelo menos pra mim: Lilia me diz que os blocos “pessoenses” (é isso mesmo? Acho que Ariano iria preferir “parahybanos”, com rima e tudo) já vinham se esquentando desde a semana anterior, e olhe que ainda era apenas sábado à tarde. O bloco sai à cata de resgatar os velhos cajueiros e os bois das ruas do Bairro do Bessa. O Boi do Bessa existe há 14 anos, o mesmo número dos belos estandartes do boi com chifres de caju, criados a cada Carnaval, e que remetem à “estética Clóvis Júnior”, fundador e folião primaz.

Na copa da casa do artista, enquanto a batucada come solta na varanda, não só encaramos como também até mesmo comemos um inacreditável prato de favas ao lado dele e de sua mãe, foliã contumaz. Batidas a rodo, até mesmo de caju. Ao me oferecerem um suco da mais pura fruta, falo sobre o “caju amigo” do Carlinhos Niemeyer. Mas ninguém sabia o que era. Também, pudera: como poderiam nossos alegres-à-beça foliões paraibanos saber do carioca Carlinhos e de sua fantástica receita de uma talagada de cachaça rebatida por um espremer do próprio caju, tudo direto na goela do bebum-doidão?

No domingo cedo, empreendemos a empreitada por um Pernambuco pré-profundo: verde mato, verde mundo. Em plena Zona da Mata, a deles: não havia alpendre a se debruçar sobre o canavial, mas a paisagem me levou a João Cabral. Um canavial visto de dentro, um canavial literalmente viajante (enquadrado da janela do carro), no primeiríssimo plano de um travelling nordestino. E muito, muito canavial e travellings depois, no rumo daquela “prumada”, como nos indicou um caboclo, finalmente adentramos Nazaré da Mata.

Vem dali o Maracatu, como do morro o samba. Havia na praça um palanque e brincantes de muitas cores por toda a cidade. Mas não sentamos praça, que Lilia já conhecia o fuzuê de outros carnavais. Direcionados por um negro redondo e sorridente, que assume o papel clownesco da “Catita” na folia do Maracatu Rural – tomamos o “prumo” da estrada que leva ao Engenho do Cumbe, berço do Maracatu da Cambinda Brasileira, que completava 90 anos de folguedos nesse Carnaval.

Estrada de chão afora fomos devagar-devagarinho quase tropeçando em brincantes do Maracatu durante todo o trajeto Nazaré da Mata-Engenho do Cumbe. Um fantástico contraste entre suas coloridíssimas fantasias e o cáqui da estrada, com o verde da mata pernambucana projetando-se num plano geral ao fundo do quadro-paisagem. Olha que falo como se olhasse pelo visor da câmera de Lilia, que foto-filmava enquanto dirigia. Melhor ver o resultado no vídeo “Cores & Ritmo do Maracatu Rural”, disponível em seu blog na internet: http://liliatandaya.blogspot.com/. Está tudo ali, captado com precisão e editado com ótimo ritmo, como que seguindo a “cantoria de uma nota só” do Maracatu Cambinda do Cumbe.

Na segunda de Carnaval, pequeno “refresco” na própria Cabedelo. Uma ida pra rever o Jurandyr do Sax tocar o Bolero de Ravel na praia do Jacaré. Já ou/vira e me emocionara com o “Bolero do Jacaré” no ano passado, quando cheguei mesmo a entrevistar o Jurandyr durante o Cineport da Paraíba. Sou “vendido” pelo Bolero (quase que também de uma nota só) e me emociono à-toa sempre que ouço. Assisti no Rio a algumas das apresentações do “Boléro-Béjart” nos anos 1970, com performances do argentino Jorge Donn, no Municipal e no Maracanãzinho. E de novo ele, com seu Donn fantástico, em pleno Trocadéro, Tour Eiffel ao fundo, na seqüência final do filme de Claude Lelouch. E ainda, em 2006, a uma inovadora montagem vista em Paris, no Opéra Bastille. Maurice Béjart ainda vivo, e em cena o solo eletrizante da bailarina Marie-Agnès Gillot, atual estrela do Ballet de l´Opéra de Paris.

Lembrei-me do “Boléro-Béjart” naquela tarde porque – tal a multidão afim e no afã do espetáculo – não conseguimos ver nem Jurandyr nem o pôr-do-sol ao som do seu Bolero. Mal ouvíamos seu sax, ao som da tapioca-maravilha que mastigávamos num barzinho ao lado. Eta Paraíba-pau-pereira! Um abraço pra ti, pequenina, que já-já voltamos Pernambuco adentro.
| 4/4/2008 | 7:18:04 PM
Glauber-Cangaceiro


“Sou um artista. Não me exijam coerência”, disse um dia Glauber Rocha. Relendo ao acaso o livro “Glauber Rocha – Cartas ao Mundo”, organizado por Ivana Bentes (Companhia das Letras, 1997), vejo que marquei várias “tiradas” do cineasta baiano entre sua correspondência do início dos anos 1960, principalmente naquelas cartas dirigidas ao amigo e também cineasta Paulo Cezar Saraceni. Os trechos marcados, vejo agora, são por si só uma resposta à c...g...da que recentemente o cômico (?) Marcelo Madureira disse em público sobre Glauber. Literalmente: “Glauber é uma merda”. Não soube de alguém que tenha rido do Glauber. Mas, e da merda do Madureira?

Dona Lúcia Rocha, mãe de Glauber, disse que se o filho fosse vivo ele (Madureira) não teria coragem de dizer aquilo. Glauber para Saraceni, 1961: “Estou em luta com muita gente. Vou terminar dando tiro no Rio e em São Paulo. Você sabe que tenho sangue de cangaceiro”. E, em 1963: “Gustavo (o cineasta Gustavo Dahl) me escreveu sobre o Cahiers (um artigo da revista francesa Cahiers du Cinéma, que elogiava Glauber e Saraceni) e isto é ótimo. Justamente eu e você que Ely (o crítico Ely Azeredo) esculhambou. Com que cara ele vai ficar? Aquilo é um pobre-diabo; já disse a ele uma vez que se bulisse comigo eu ia dar porrada. Quando chegar ao Rio vou quebrar os óculos dele na vista de todo mundo, pra desmoralizar de vez e ele aprender a não bulir com baiano”.

Mas “o cangaceiro Glauber” era na verdade um ser sensível, que “pensava cinema” mesmo nas ocasiões mais inusitadas. Por email, e a pedidos (não me lembrava mais exatamente da história), meu amigo Saraceni me (re)conta o inacreditável episódio ocorrido quando da morte do pai de Glauber: “Caro Ronaldo, lá vai a história do pai do Glauber, que se chamava Adamastor. Morreu numa noite no Arpoador, em Ipanema, onde moravam. Glauber me chamou, às duas da madrugada. Lá fui eu para casa dele. Encontrei Dona Lúcia muito nervosa, me pedindo para convencer o Glauber a deixar que retirassem o corpo do apartamento, pois os vizinhos estavam reclamando. Glauber expulsou todos do quarto e, ficando só comigo e o cadáver do Adamastor, me pediu para contar o roteiro que eu tinha escrito sobre a Coluna Prestes, porque era a grande frustração de seu pai por não poder seguir com a Coluna, pois foi logo preso. Eu contei para Glauber e o cadáver do Adamastor meu roteiro. Glauber chorava e vibrava com o roteiro. Só quando eu acabei ele deixou que levassem o corpo do Adamastor”. Corte rápido.

Para (pára?) essa história do menino Madureira, metendo a merda da caceta no Glauber. Repercussão via jornal, e fico no Globo, pra não ir muito longe. Deus & o Diabo, muita gente a protestar. A Terra em Transe: sessão de desagravo, declarações de amigos de Glauber, Saraceni inclusive, e de colegas-cronistas, defendendo (discretamente) a “bostura” Madureira (que não chorou de dor, mas devia). Tudo é relativo e o (mal)dito pelo cu(su)jo do Madureira deveria era reverberar naquele “fala sério”, o bordão boboca de seu confrade Bussunda – o que, falando sério, já foi. Mas o humor dos cacetóides é mesmo rasteiro e pra lá de debilóide, coisa de meninos de primário, babacas & boçais. Ri quem não tem mais remédio nesse (neste?) idiotal planeta. “Você permanecerá pelo que fizer, criar”, disse certa vez Glauber para Saraceni, como se caceteando o caceta. A relação entre os dois cineastas é, aliás, um dos temas do belo e imperdível documentário “A Etnografia da Amizade”, de Ricardo Miranda. Na seqüência, a mesma morte que abate e o aceno para a “coerência revolucionária” em carta de Glauber para Saraceni, 1962.

“A morte de Miguel Torres (ator e roteirista, morto em acidente de jipe durante filmagens no Nordeste) me abalou muito, logo depois da morte de Mário Faustino (poeta, morto em acidente aéreo nos Andes)... subitamente vi um negócio terrível, que me apavora tanto, que é a morte... tenho a impressão de que a solidão humana só não é absoluta porque você tem irmãos em determinados momentos da história com os quais se comunica – lendo poetas mortos ou falando com amigos. A morte é inevitável, a vida não tem o menor sentido enquanto vazio, renúncia, recusa, humildade: você é na medida em que você está em relação com o mundo e faz. Importa apenas o que você fizer – você permanecerá pelo que você fizer, criar. Eis a vantagem de ser artista... o verdadeiro artista é um ser revolucionário; um ser em oposição, em luta consigo mesmo e com o seu tempo.

“Escrevo pedindo que você nunca se perca no seu caminho, embora ele seja tortuoso, duro de ser seguido. Já lhe disse mais de uma vez que você é um homem à margem e seria muito difícil você marchar com a história do nosso cinema, porque você vai na frente, assim como Humberto Mauro vai atrás e Nelson (Pereira dos Santos) vai conosco. Sobre isto, sobre Mauro, Nelson e você, estou fazendo um artigo para Sadoul (o crítico francês e historiador do cinema Georges Sadoul) publicar no Lettres Françaises. Tenho agora de escrever muito, pois esta crítica está demitida, falida, aniquilada pela burrice. O Brasil é um país morto-vivo, onde poucos homens pensam e fazem”. E, em 1963, também para Saraceni: “O cinema brasileiro é assim: Ganga Bruta evolui para Rio, 40º evolui para Porto das Caixas evolui para Vidas Secas evolui para o próximo filme seu, meu, de outro qualquer, entende? A gente faz grandes filmes porque nós somos cinema, nosso ser é o cinema e temos talento”.

Ainda em 1962, ainda para Saraceni: “Antonioni (Michelangelo Antonioni, o “cineasta da incomunicabilidade) só me interessa enquanto eu sou intelectual de superestrutura. Quando eu faço a redução pro Brasil subdesenvolvido e inculto eu vejo que a Europa é a história feita e nós somos a história a fazer, e nosso tempo é pouco, nosso passado é vergonhoso e temos de agir engajados na história. O Brasil de hoje não tem lugar pro artista romântico e sim para o artista revolucionário. Mas não um revolucionário da arte e sim da própria história. Estética hoje é uma questão política”.

Para o crítico baiano Walter da Silveira, em 1964: “Digo, humildemente, como Antonioni: não tenho mais pudores em me dizer um diretor intelectual. É crime ser intelectual em cinema? O músico, o crítico, o poeta, o pintor, o político é intelectual, não? Porque somente o cineasta tem de ser um mecânico e banir a condição de intelectual? Quem não é intelectual faz os filmes ruins, ou todos os grandes realizadores que nós amamos não são intelectuais? Talvez a massa não esteja preparada para o papel histórico que nós, intelectuais, desejamos que ela assuma. Respeitar o público é fazer mau cinema? Respeitar o cinema e sua História, aprender dos grandes mestres e evoluir & revolucionar para o moderno é crime contra o público? Onde começa o cinema e termina o público?”.

Enfim, há controvérsias. Oswald de Andrade disse um dia: “A massa ainda comerá do biscoito fino que eu fabrico”. Antonioni sim, Antonioni não: Glauber tinha razão. “Sou um artista. Não me exijam coerência”.
| 3/23/2008 | 11:41:16 PM
Para ler RW
O multiartista Jiddu Saldanha (pintor, poeta, mímico, cineasta) esteve em Cataguases no domingo, dia 16 de março, para realizar alguns takes do próximo filme da trilogia que está fazendo, tendo por base poemas de meu livro “Noite Americana/Doris Day by Night”. Filmamos a tarde toda e noite adentro. Na madrugada, Jiddu pediu que eu pegasse alguns livros e fosse lendo ao acaso que ele iria rodar e ver no que dava. O resultado está aí, improviso puro, até mesmo no making of. Um cinema possível, mais que provável de ser feito. Cinema (im)possível.

| 3/23/2008 | 11:16:35 PM
A noite do iguana


Bahia, 1964. Saída do Cine-Guarany: “Que bela fotografia, hein? Também, com o mestre Figueroa por trás da câmera só podia sair mesmo essa maravilha em preto-e-branco”. Quem me falava assim era o artista plástico Sante Scaldaferri. Acabáramos de ver juntos “A Noite do Iguana”, o filme que John Huston lançara naquele ano, baseado na peça de Tennessee Williams. Coisas de cada qual. O pintor Sante destacara a imagem, a esplêndida fotografia do mexicano Gabriel Figueroa (indicado ao Oscar daquele ano). Quanto a mim, estava mesmo era impressionado com o poema ditado no final do filme pelo poeta-avô Jonathan Goffin, o nonno de Deborah Kerr – o canto de cisne do ator Cyrill Delevanti, que morreria logo depois das filmagens. Ele foi indicado ao Globo de Ouro, junto com Ava Gadner, melhor atriz dramática, pelo papel de Maxine Faulk, a dona do Hotel Miss Malaya.

Nunca mais me esqueci de Delevanti já meio moribundo marcando o ritmo de seu belo poema com a bengala, enquanto ditava para sua neta. Outro dia, no Rio, encontrei o dvd do filme na Modern Sound. Não sabia de seu lançamento. Revi agora e percebo que conserva intacta a bela fotografia do Figueroa; o martírio do reverendo, interpretado por Richard Burton, oscilando entre todos os álcoois e todas as seduções da adolescente Sue Lyon (logo após fazer a Lolita de Kubrick) e da já meio-que-madura Ava Gardner. Ah!va Gardner!. Ela valia por todas, e acaba “ganhando” o reverendo Shannon/Burton. E, é claro, revi o poema de Tennessee Williams “escrito” pelo nonno – nada menos que emocionante. Que posso dizer mais, a não ser que saiu disso tudo um poema, ora pois. Esse que aí vai.

a noite do iguana

How calmly does the olive branch
Observe the sky begin to blanch
Without a cry, without a prayer
With no betrayal of despair

Tennessee Williams

no leme treme Tennessee
e seu solto iguana seu signo
do dia-noite atrás do dia
de um prior fantastic-indigno

john huston cede coco e rum
e burton bebe e be-bebum
trafega velhuscas turistas
e tentações lyon-lolita

gabriel na câmera foto
grafa fosca luz figueroa
luz mexicana ava-e-tarde
tesa na tela arde gardner

peixes frescos saltam no prato
vaga no écran ava qual eva
mar de maracas e mulatos
beach boys garotos de esfrega

tudo avatar tudo ava dar
na areia na água a suar
enfim se esfalfa a miss malaya
antes que a noite do céu saia

Com que calma o ramo de oliva.
Vê a tarde ficar menos viva
Nenhuma súplica ou ruído
Seu desespero não é sentido

deborah kerr crava dilemas
anota versos do poeta-
nonno que na bengala bate
um certo ritmo de poema

Um dia será essa luz tolhida
E então o zênite da vida
Terá passado e em tal momento
Começará um segundo alento

nada que é humano me enoja
deborah fala e se despoja
enquanto sacana o iguana
some na noite mexicana

e vibra o poema do nonno
a neta anota e quer deborah
que reverbere em ava e burton
e gabriel-huston e todos

Num intercurso inadequado
Para um matiz que é tão dourado
Pairar tal verde deveria
Por sobre a terra obscena e fria

sus! sacana some o iguana
solto na ante-luz mexicana
e em sua voz fraca o poeta
seu poema assim nos completa

Coragem! você não poderia
Fazer outra moradia
Não só no ramo tão dourado
Mas em meu coração assustado?
| 3/6/2008 | 11:50:35 PM
Modestamente!
Na guerra e no pós-guerra, a Itália era o país da bicicleta (e, na pobreza, dos “ladrões de” – vide o filme de Vittorio de Sica). Logo depois, o império da motorina, das lambretas. E logo-logo da febre dos automóveis, da macchina, orgulho e glória de onze entre dez italianos em louca disparada, ultrapassagens controvertidas e desenfreada buzinação asfalto afora. Este o ritmo, o acelerar de Il Sorpasso/Aquele que sabe viver, de Dino Risi – filme que adoro, mas que não vou contar. Quem viu, volte a ver correndo (e com todas as “ultrapassagens” possíveis). Quem não viu, corra logo: o dvd é encontrável nas chamadas boas casas do ramo. Só três lances rápidos, relembranças que valem por fragmentos emblemáticos de Il Sorpasso (pode também ser chamado de “A ultrapassagem”).

Primeiro, o personagem Bruno/Vittorio Gassman – como sempre incorretíssimo – “desconstruindo” a inocência da infância de Roberto/Jean-Louis Trintignant, na seqüência da visita a seus tios. Bruno acaba transando com a tia de Roberto, o fetiche de sua infância. Mais: insinua que sua outra tia traía o marido e que o filho deles era na verdade filho do capataz. Mais ainda: logo que chegam à propriedade, são atendidos por “Occhio Fino”, o mordomo todo “adamado”. Só Roberto parece não ter percebido durante toda a sua vida. Bruno: “Mas, como? Ele não engana ninguém. Você não percebe que “Occhio Fino” é “Finocchio” (gay) ao contrário?”. Na (perfeita) versão brasileira, o jogo de palavras resultou em “Chabi-Bicha”. Segundo lance, a cantada de Gassman em Lili/Catherine Spaak, quando ele a persegue, ela de costas a andar por uma praia. Quando ela se vira, ele vê que é sua filha. “Claro que foi brincadeira, imagina!”.

Terceiro, a famosa cena da dança “engoma-cueca” com Gassman e a mulher do Comendador, a coleante Gianna/Luciana Angiolillo. Tudo na presença do próprio Comendador, que está numa mesa a contar piadas de adultério para os convidados. Lá pelas tantas, após o endiabrado “torcer de um twist” (ele dá literalmente uma “bundada” em um dos dançarinos, um chega-pra-lá enquanto exclama: “pô!, eu estou criando”), a música ralenta e Gassman quase que se debruça sobre sua partner, fincando o queixo em seu ombro, no ardor do “é-pau-é-pedra”. Ela sussurra em seu ouvido: “U-lá-lá!!!”. É quando, afastando-se ligeiramente, Gassman diz num semi-sorriso safado: “Modestamente! Modestamente, Signora!”.

Isso sem falar nos estropiados e absolutamente desabonadores comentários sobre Federico García Lorca (“aquele poeta da Casada Infiel. Sabe, Roberto, aquele “meio assim-assim”?) e Michelangelo Antonionni. “Muito bom, esse tal de O Eclipse. Dormi o filme todo. Ótimo diretor, esse Antonionni”. Revendo o filme agora, fica também aquele cena onde o rapaz, já meio fascinado pelo modo de vida do personagem de Gassman, vira-se e diz terem sido aqueles dois dias os melhores de sua vida. E Gassman (sorrindo): Que importam as tristezas? Sabe qual a idade mais bela? É aquela que cada um tem, no dia-a-dia”. O próprio carpe diem.

Passo agora a palavra ao próprio Dino Risi. Ninguém melhor do que ele para falar de seu belo filme, como nesses fragmentos que traduzi de um antigo depoimento de Risi sobre como surgiu Il Sorpasso. “O personagem de Il Sorpasso nasceu numa viagem que fiz com um advogado milanês meio maluco, que um dia me levou de Milão a Varese para procurar a irmã, depois a Lugano para comprar cigarros, e depois me perguntou de chofre: “Você já esteve em Lichtenstein?”. E me levou para comer com o Príncipe de Lichtenstein, em cujo castelo conseguimos entrar mostrando a carteira de sócios do time do Milão, fazendo-nos passar por jornalistas. Assim, pensei em contar uma história parecida, que se completou quando fiz uma viagem de Roma a Maratea, em busca da locação adequada para as externas de A porte chiuse, um filme com Anita Ekberg.

“O produtor com quem viajava, outro maluco completo, era apaixonado pelo time do Roma a ponto de ter dado um chute no rádio quando, no trajeto, o seu time sofreu um gol. Tivemos que procurar um posto de gasolina, para saber o final da partida. Mas precisamos também de mudar de restaurante pois, num deles, o garçom suava nas mãos; no segundo, era a garçonete que fedia; e no terceiro, nós comemos pessimamente. Assim, chegamos a Maratea às três da madrugada, não encontramos sequer um hotel aberto – e acabamos dormindo no carro.

“Esse foi o segundo qüiproquó resultante de uma aventura automobilística, que me serviu como primeiro tratamento para o roteiro de Il Sorpasso: a história de uma bela amizade entre dois homens, que assustou o produtor Mario Cecchi Gori. Ele me disse, esperançoso: ´Se chover amanhã, terminamos o filme com os dois correndo ao longo da estrada e um final feliz´. Mas no outro dia não choveu – e filmamos o acidente com o qual eu queria que o filme terminasse. Estranhamente, esse final trágico conquistou o público, que sentiu o perigo que se esconde na vida daqueles que são felizes, mas pressentem o surgimento de alguma coisa de terrível. Isso foi tão bem compreendido que o filme alcançou sucesso em todo o mundo.

“Meu grande amigo nessa história cinematográfica foi Vittorio Gassman, com quem fiz dezesseis filmes. Il Sorpassso, por exemplo, começou muito mal, pois me recordo que no Cine Corso, onde foi feita a pré-estréia, havia ainda cartazes de um filme de Rossellini com Gassman, Anima nera, que ficou somente dois dias em exibição e depois foi retirado. Quem passava em frente ao cinema e via a cara de Gassman escapava de imediato, pois Gassman estava em um período em que era rejeitado pelo público. Para atuar no grande sucesso que foi I soliti ignoti (Os Eternos Desconhecidos, 1958), de Monicelli, quase mudaram todas as suas características, colocando algodão nas bochechas e abaixando sua fronte, dando-lhe praticamente uma cara de clown. Eu tive a coragem de usar Vittorio como era na vida, isto é, muito simpático, belo mesmo.

“De início, pensara em Sordi (Alberto Sordi, Roma, 1920-2003). Mas, quando falei com ele, Sordi me disse que temia se entregar totalmente ao papel e, no final, o mérito ir todo para o co-protagonista. Aconteceu também que, como Cecchi Gori devia fazer um filme com Gassman, tentamos nos aventurar com esse ator, embora não fosse um queridinho do público. O filme começou com cinqüenta pessoas na sala de exibição. Na noite seguinte, não eram mais que duzentas. Na terceira noite, era o jipe da polícia que mandava as pessoas de volta. A crítica só se tocou quando o filme caiu no agrado dos franceses, em particular da Revista Positif, que lançou a commedia all´italiana na França. Na Itália, esse gênero tinha alguma coisa de ´sucesso malvisto, recorrente´. Súbito, passou-se a falar da commedia all´italiana não mais com desprezo, mas com uma certa atenção – e começou a belíssima temporada que fez o sucesso de filmes extraordinários como Divorzio all´italiana, de Pietro Germi, e de tantos filmes de Pietrangeli, Monicelli, Comencini e até mesmo os meus”.

Modestamente, meu caro Dino Risi! Chiaro que mui modestamente.
| 3/6/2008 | 11:46:21 PM
A Ultrapassagem
Em plena viagem, e em meio aos “livros de”, sou quase atropelado na Libreria del Cinema, em Roma, pelo dvd de “Il Sorpasso”: súbita ultrapassagem. Tudo a ver. Ou a rever. Principalmente agora, após a leitura de um dos contos do ótimo Cybersenzala (Ed. Brasiliense, 2006), de Jair Ferreira dos Santos. Ali, desconfio que meu amigo paranaense andou trocando as bolas ao citar uma das (ultra)passagens, possivelmente a mais famosa, do filme de Dino Risi. Na verdade, o feroz bate-coxa de Bruno (Vittorio Gassman) na cena antológica da dança na boate não é com sua filha Lili (Catherine Spaak), mas com Gianna (Luciana Angelillo), a mulher do Comendador com quem ele mantinha atabalhoadas negociações. Volto assim a Il Sorpasso, não só para – “modestamente” – confirmar minha suspeita, bingo!, como pelo prazer de rever momentos marcantes de um filme que adoro. Um filme que ficou, desde que o vi no velho Cinema do Seu Nelo, na Cataguases do início da década de 1960. E ficou mesmo quando em constante movimento – orquestrado a cada fotograma pelo maestro Gassman, “Aquele que sabe viver”, como o filme seria conhecido no Brasil.

Pelo que sabe viver e por seu regista. Um dos mais prolíficos diretores da commedia all´italiana, ele realizou entre outros os filmes Poveri ma belli, Una vita difficile, Profumo di donna (com um Gassman arrasador no papel do cego, vivido depois por Al Pacino) e Il nuovi mostri. Teve amantes famosas, de Anita Ekberg a Alida Valli. Há treze anos não filma, há trinta e três vive isolado em Roma, há três tornou-se escritor (I miei mostri, Mondadori). Programou morrer no ano 2000. “Estou ganhando quatro anos”, disse em 2004. Mais quatro, até agora. Ele é Dino Risi (Milão, 1916), o roteirista e diretor de Il Sorpasso/Aquele que sabe viver. Pioneiro dos chamados road-movies – na verdade, Il Sorpasso (Milão, 1962) significa “A ultrapassagem” –, este é um dos filmes emblemáticos da explosão da commedia all´italiana naquela década.

Grande sucesso de bilheteria – e desde o início “bafejado pela sorte”, como disse Risi – Il Sorpasso, inspirou, segundo o diretor italiano, até mesmo o mitológico Easy Rider (“Sem destino”, 1969), de Dennis Hopper. Interessante notar que na América o filme de Dino Risi foi intitulado “The Easy Life”. Mais interessante ainda: a expressão “easy rider”, que dá nome ao filme de Hopper (com roteiro de Hopper, Peter Fonda e Terry Southern), pode ser atribuída também ao homem sustentado pela “namorada-que-namora-no-atacado”. Vamos dizer, o proxeneta e sua “prima-piranha”. O personagem Bruno Cortoni, vivido – e como! – por Vittorio Gassman, não chega a tanto. Mas derrapa (“modestamente”, é claro!) em sinuosas curvas femininas nas suas sucessivas e incorretíssimas ultrapassagens filme afora. Numa delas, como agora, minha atenção é cortada abruptamente pela capa do dvd – a imagem de Gassman ao volante de seu Lancia conversível, Trintignant a tiracolo, quase me atropelando na Libreria del Cinema, em pleno Trastevere.

Il Sorpasso é Vittorio Gassman (Gênova, 1922; Roma, 2000) em seu esplendor. É o jovem talento de Jean-Louis Trintignant. É o sacadíssimo roteiro de Ettore Scola, Ruggero Maccari e do próprio Risi. É o brilho dos diálogos, também escritos por Scola. É a trilha sonora de Riz Ortolani, com direito a “Quando, quando, quando” na voz de Emílio Pericoli. A “St. Tropez Twist”, “Don’t Play that song (You Lied)” e “Per un attimo”, tudo com Peppino di Capri. A “Vechio Frak” de e com Domenico Modugno. E a “Pinne Fucili Occhiali” e “Guarda come Dondolo”, as duas canções da dupla Rossi-Vianello, na voz de Edoardo Vianello. Principalmente a última, que marca o ritmo saltitante daquela Itália que se industrializava, tutti quanti se retorcendo ao som-twist dos anos 1960. É também muito da beleza então adolescente de Catherine Spaak, a valer mais que um parágrafo.

Em 1965, durante o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, eu e meu saudoso amigo, o cineasta baiano Olney São Paulo, fumávamos no foyer do Cine Bruni-Copacabana quando vimos ganhar literalmente todo o mar da “locação” uma jovem de longos cabelos negros, pele dourada e belíssimo porte, que adentrou a sala com seu mover sinuoso e a autoridade de um transatlântico. Do casco ao portaló, do verniz dos sapatos ao frufu do vestido, ela era toda uma viagem em vermelho. Nunca mais me esqueci dessa imagem de Catherine Spaak assim, vivaz e carmesim. E tão perto passou que eu e Olney sentimos a sua, vamos dizer, fragância – esse aroma a recender de cada poro e que só emana de animais magníficos e em toda a sua plenitude. Entramos para a sessão e Catherine sentou-se na fileira à nossa frente, o que me deixou particularmente perturbado, pois não sabia se adivinhava o esplendor da nuca por detrás de seus cabelos ou se me concentrava nas imagens de “Simão do Deserto”, o filme de Luis Buñuel que estava sendo projetado.

Na fileira de trás, a mexicana Silvia Pinal, protagonista desse e de outros filmes de Buñuel, cuja imagem eu via agora na tela, tentava explicar num “mexicanenglish” a Lucynna Winnicka, a “Madre Joana dos Anjos” (Matka Joanna od Anioláw, Polônia, 1961) de Jersy Kawalerovicz, o que se passava na tela, pois o filme, falado em espanhol e sem legendas, era incompreensível para a bela atriz polonesa. Lá pelas tantas, la Pinal – que me pareceu não gostar muito do filme que protagonizara – saiu-se com esse arroubo inesperado: “Buñuel hoje não é mais o mesmo. Você precisa ver a beleza dos filmes realizados pelos jovens cineastas mexicanos!”. Virei pro Olney e sorrimos, meio espantados com a tolice da falastrã.
Até hoje, lá se vão mais de 40 anos, não consegui saber desses jovens cineastas mexicanos e de seus filmes maravilhosos. Silvia Pinal perturbou toda a sessão, com suas explicações desnecessárias (imagem não carece de palavreado) e suas traduções capengas. A voz de la Pinal vinha direto aos nossos ouvidos. Os cabelos de la Spaak, à frente, a encobrir a nuca insondável. Na tela, Buñuel a apresentar uma Silvia travestida de colegial, nada a ver com a voz irritante que me chegava ao fundo. Sons e imagens em conflito: “Simão do Deserto” é para mim, até hoje, o mais impenetrável dos filmes de Luis Buñuel. Pudera.

Fui então “ultrapassado”, por Catherine Spaak, uma bela macchina ao vivo e em vermelho. Mas voltemos a Il Sorpasso, antes que acabe meu espaço. Spaak à parte, o filme é principalmente aquele que sabe viver, o folgazão Bruno Cortono (o vulcão Gassman, muito “gás/man”), ao volante de um turbinado Lancia Aurelia Spyder easy rider entre as estradas de Roma e da Toscana. A seu lado, o jovem carona-forçado, o mais que tímido estudante Roberto Mariani (Trintignant, retraído e cativo). No painel, um lance hilário: uma pequena foto de uma sorridente Brigitte Bardot com a legenda: “Seja prudente, eu te espero em casa.” Gassman mostra a foto e fala: “Bela ragazza, hein!”. Como se dissesse, ao ritmo da música, “olha como balanço”. Rapaz, guarda come dondolo. Na próxima coluna, o próprio Dino Risi conta como encontrou em Vittorio Gassman o seu personagem perfeito. Vejo Gassman a viver: “Ragazzo, olha como ultrapasso”.
| 12/12/2007 | 4:28:14 PM
Dry Milk no vídeo
Sob os auspícios da Diretoria do Fomento ao Audiovisual da Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais, alunos de uma oficina de vídeo da Secretaria de Cultura de Igarapé, Minas Gerais, acabam de fazer um belo trabalho visual sobre meu poema "Dry Milk" (do livro Selva Selvaggia, de 1976), colocando palavras em movimento. Isso é cinema, disse um dia Glauber Rocha. Vale para este vídeo. Transcrevo o email que de agradecimento que escrevi aos jovens de Igarapé:

" Olá, pessoal! Só pra dizer que adorei o vídeo de vocês. Adorei mesmo: editado no ritmo certo, com cortes precisos de imagens e grande riqueza visual. O jogo de vozes e a "massa sonora" casam perfeitamente com as imagens e engrandecem o meu poema. Maravilha!

Engraçado, e não sei se vocês sabem disso, que esse meu poema foi escrito inicialmente para ser letra de uma canção que eu e o compositor paraíbano Marcus Vinicius faríamos para o filme " O País de São Saruê", de nosso amigo Vladmir Carvalho. Acabou saindo o meu poema e a canção do Marcus, que terminou recebendo letra dele mesmo e virou canção-tema do filme.

O País de São Saruê (e se vocês não viram corram pra ver) tem imagens muito próximas das que vocês captaram/elegeram para o vídeo. Só que mais secas, filmadas em p&b pelo então iniciante Walter Carvalho em pleno sertão nordestino. Um (mais que saudável) festival de coincidências e uma espécie de retorno às origens, pois vocês fizeram do meu poema (e com grande talento), o que eu queria fazer com ele desde o início. Ele foi pensado para "dialogar com imagens", exatamente a forma com que vocês o vestiram agora. E tudo enriquecido pela (re)leitura gráfico-visual que dele fizeram. Fico honradíssimo por ter contribuído com meu poema para o belo trabalho de vocês.

Parabéns! Daqui da Zona da Mata, Cataguases saúda Igarapé. Viva!

Abraços,

Ronaldo Werneck.



O link para ver o "Dry Milk de Igarapé" é Dry Milk
| 12/10/2007 | 4:52:33 PM
Bravo, Jiddu!
Mímico, poeta, agitador cultural, o multifacetado artista Jiddu Saldanha é agora um criativo videomaker, como se vê por este filme que ele realizou a partir de dois poemas meus. Bravo, Jiddu!

Dois Poemas
| 12/10/2007 | 12:30:27 PM
Movido a álcool
Amador, a princípio – mas logo puro profissional da mais baixa (ou alta, depende das doses do enquadramento) estirpe de bares & balcões de botequins os mais diversos e safadins – eu bebi de tudo um muito por quase 30 anos, dos 14 aos 44. Conheço ainda hoje – melhor, localizo-me ainda agora – (em) várias cidades do in(ex)terior por (débil) mental mapeamento “hidráulico”: não sei as ruas e seus nomes, mas sim onde estão as vendas, armazéns, empórios, restaurantes, bares, boates, botecos & butiquins onde bebi, onde bebi, onde bebi. Um poetanol por excelência, tal como aquele Nouas, o poeta árabe que só poetava às expensas de altissimas libações etílicas. E cujo nome “nomeou” famosa cerveja argelina, uma das maravilhas árabes de minha estada em Argel no final da década de setenta. Na coluna de hoje, e na próxima, um pouco do que restou na memória desse tempo movido a álcool – agora que acabo de completar vinte anos sem combustível. O carro ainda anda, mas tem hora que custa a pegar. Com tônica & guaraná a marcha é lenta, mas segura. Como (não) dizia meu amigo Waly Salomão: “– (Não) me segura que eu (não) vou dar um troço!”. E soltem os tremoços!

Na noite em que Rosário Fusco morreu, falei com o Ziraldo por telefone e combinamos que eu faria um artigo pro Pasquim. Eu ainda estava chorando quando fui pra máquina, a velha e imbatível Lettera-22.. Meia hora e três doses de uísque depois estava pronto um texto apaixonado sobre o romancista, que foi publicado no Pasquim naquela semana de agosto de 1977. Havia seis meses que eu não via o meu amigo. A gente havia “brigado” por conta da entrevista que havíamos feito com ele, eu e Joaquim Branco.

Aliás, pro próprio Pasquim: uma garrafa de gin pro Fusco, umas dez doses de uísque pro poetinha, este aqui. Só podia dar no que deu: telefonemas, cartas, até telegramas esculhambativos de ambas as partes: “eu não disse isso, vou te processar, vou processar o Pasquim” – “Disse sim, está gravado (pelo menos na memória, pois Fusco detestava gravador), não vai processar droga nenhuma”. Enfim, um etílico e diabólico qüiproquó.

Fusco amava as bebidas como amou as várias mulheres que passaram por seus curtos 60 e poucos anos de vida (um “sex-appeal-genário”, como gostava de dizer, citando Oswald de Andrade). Exatamente como se entregou às mulheres, uma de cada vez, se entregou ao álcool: gin este mês, uísque no outro, conhaque no outro. Jamais misturava as coisas, mulheres ou bebidas. Era um fiel apaixonado, um furacão de criatividade, amor, ódio, talento.

E assim cumpriu sua trajetória neste mundo. Lúcido, mesmo encharcado de álcool, vociferando do alto de seu metro e noventa, terno, amigo, arrumando mirabolantes empregos pra Deus e todo mundo, esse misto de italiano e mulato (“saco azul, cinta encarnada”, como dizia) foi devorado pelo álcool e morreu sem escrever sequer metade da grande obra que poderia ter feito. Annie, sua última mulher e seu grande amor, me diria mais tarde que pouco antes de morrer ele ainda bebeu sua derradeira dose de uísque em pleno hospital. Folclore? Chi lo sà?

Um ano antes de sua morte, minha ex-mulher Adriana Monteiro – autora das fotos da entrevista do Pasquim –, teve uma desidratação em Cataguases e passou a noite internada. Eu fumava no corredor do hospital quando passou uma enfermeira conhecida, dizendo que o Fusco estava internado no quarto ao lado. Ao abrir a porta, achei que entrara no lugar errado: o quarto daria inveja a qualquer botequim. Garrafas para todos os lados, fumaça e alegria.

Fusco contava uma piada para as enfermeiras. Havia subornado todas elas para que contrabandeassem uísque e cigarros para seu quarto. Recebeu-me efusivamente: e não descansou enquanto não estourou uma garrafa de champanhe para bebemorarmos nosso reencontro. Era o mesmo Fusco, equilibrando-se como sempre entre o soro, o sonho e o não sei quê do álcool de cada dia.

Quando o romancista William Faulkner veio pela primeira e última vez ao Brasil, tomou um porre terrível no avião, bicho que definitivamente detestava. Ao descer as escadas, olhou a cidade (São Paulo) e berrou naquele inglês do Mississipi: “Não, não vou descer! Isso é Chicago!” – e voltou. De certa forma, Fusco faria a mesma coisa. O medo do avião o deixou praticamente um mês num hotel de Copacabana, já com passagem marcada, aguardando uma inesperada conexão para Paris, devidamente bêbado e preocupando mulher e filho. Bêbado e brilhante, como sempre.

Lembro que nesse meio tempo fomos ao tradicional almoço que o Zé Olympio dava todas as sextas-feiras em sua livraria. Antes, havíamos tomado uns quatro uísques per capita num botequim do Leme, onde eu morava (no Leme e às vezes no botequim, o Boca Seca) e havíamos deixado a Annie na Sears fazendo compras. Eu e Fusco caminhávamos pela praia de Botafogo aí por volta de mezzogiorno, já devidamente bêbados. Duas figuras de almanaque: Fusco altíssimo, com os sapatos na mão (os pés estavam tão inchados que não mais agüentava calçados); eu possivelmente trôpego, tropeçando na barba e no que mais pintasse na minha frente.

Antes do almoço, Zé Olympio chamou-me ao seu escritório, pra dizer da sua preocupação com o Fusco, sua saúde, com suas mamas que estavam muito crescidas. Combinamos então de levar o Rosário pro Pelegrino Jr. dar uma olhada. Qual o quê! Fusco falou que jamais, jamais de la vie. Primeiro, porque não acreditava em acadêmico, segundo porque o Pelegrino não escrevia lá essas coisas. E ele não confiava em quem “não escrevia lá essas coisas”, entenda quem quiser. Era assim o meu amigo. As mamas crescidas eram um indício da doença que iria derrubá-lo. A confiança em seus princípios, e em quem escrevia bem, um indício do que iria perpetuá-lo – pra mim, certamente. Para seus leitores, quem sabe?

| 12/3/2007 | 3:14:47 PM
(Re)movido a álcool
Bêbado, Rosário Fusco subornou certa vez um motorneiro, e assumiu a direção de seu bonde, de boné e tudo – e de Copacabana ao Largo do Machado foi fazendo aquela algazarra federal na sonolenta madrugada da capital então idem. Tudo sob o olhar também etilicamente espantado de seu amigo Lúcio Cardoso, ilustre passageiro devidamente encarapitado num dos bancos de trás.

Um maluco maravilhoso que dançou com Grace Kelly no Quitandinha e me diria 20 anos depois: “o sovaco da princesa fedia paca”. Quando Orson Welles, a quem conheceu no Rio, comprou os direitos de seu romance “O Agressor”, Fusco me soprava, entre uma tragada e uma talagada: “não sei o que ‘o atleta’ viu no meu livro”. O filme nunca foi feito, mas Fusco recebeu seus dólares – devidamente transformados em uísque.

Enfim, Fusco era um bêbado terrivelmente talentoso. E talentoso é palavra que conheço. Bêbado, eu evito. O que o Fusco escreveu custou um câncer, várias amolações e algumas inúmeras caixas de uísque e outros álcoois do momento. Valeu a pena? – Quem sabe, minha pequena! De certa forma, o álcool em Rosário Fusco estava perto da santidade e do encantamento, quer dizer, da eternidade.

Quando Rosário Fusco morreu, Carlinhos Olivera fez uma crônica maravilhosa no JB, onde dizia coisas como: “recebo um telefonema do Fusco: Carlinhos, venha logo, estou aqui em Paris com champanhe e três mulheres maravilhosas... pegue o primeiro avião”. Bem Rosário Fusco! – que era isso e muito mais que isso.

Aliás, Carlinhos também já fez o diabo. Minha primeira mulher trabalhou com ele na Manchete. Às vezes eu ia lá e o Carlinhos estava invariavelmente com um litro de uísque na gaveta. A gente tomava um caubói e falava bobagens e era ótimo. Mas Carlinhos era daqueles bêbados quase sempre irremediavelmente chatos. Uma vez, no Degrau, ainda na época em que havia degraus, eu bebia com minha mulher Adriana (quer dizer eu, porque ela só bebia água tônica) quando Carlinhos sentou-se em nossa mesa chorando, absolutamente bêbado, dizendo que sempre fora apaixonado (“platonicamente: é claro, Ronaldo!”) por ela (sim, pela Adriana ora vejam só, que sacanocrata!), que era um infeliz, um solitário, essas coisas.

De repente, abrem-se as portas do Degrau – que eram como aquelas de saloon de filme de caubói – e entra o Ney Bianchi, na época comentarista esportivo da Revista Manchete. Carlinhos dá um salto, se transfigura, e saltitante começa a cantar (no ritmo do hino do Botafogo): “Ney Bianchi, Ney Bianchi... campeão... do céu... da terra... e do mar!”. Era outro, o Charlot! Puro folclore.

Carlinhos Oliveira incorporou o etílico folclore, mas Fusco sempre pairou acima. Porque ele era o próprio folclore e não precisava de firulas, se é que me explico bem. Vou parar de falar sobre o Fusco, que se foi há 30 anos, senão começo a chorar de novo. Este papo é, ou deveria ser, sobre o álcool, cachaça, pinga ou que nome tenha: pudim de cachaça, pinguço, bêbado, alcoólatra, cachaceiro, porrista, essas coisas. Os nomes me dão um certo mal-estar. Mas voilà! Vamos contar o tempo e as canas daquele tempo em que eu bebia mais & tanto mais quanto hoje não bebo mais desde vinte anos atrás. Há quatro lustros e mais uma engraxadinha de cara limpa, sapatos & máquina limpíssimos, (i)lustradíssimos!

O prefácio do livro Consumito, do Joaquim Branco, foi feito em 40 minutos no Bar dos Caixotes, em Copacabana. Exatamente onde, entre outras tantas doses de uísque, Tom e Vinícius ensaiaram os primeiros passos da Bossa Nova: custou-me quatro doses de uísque aquele pequeno texto. A produção de meu primeiro livro, Selva Selvaggia, durou doze anos: não dá pra contar a quantidade de álcool consumida. Pomba Poema, seis meses: possivelmente, dez litros de uísque. A peça Carta aos Ases, escrita com o JoaQuincas White, uma semana: algumas cervejas e meia dúzia de gin-tônica – eu tinha vinte e poucos anos e bebia pouco.

Mas para Apaguem os Lampiões – exatos 30 anos atrás – foram vários meses junto com meu amigo, o diretor Cassé Bittencourt: uma só emoção e porrilhões de uísque a cauboi. Lembro que na estréia da peça eu – que durante o ensaio final bebera a tarde inteira – fiquei junto do pessoal da técnica, emocionadíssimo, copo na mão, nervoso, gritando pro Pury: “Porra, tá errada essa luz, joga o canhão na Adriana! Porra, afina o foco no Antônio Jaime! Porra, arruma esse o som! Porra, porra, porra! – como bebia o poetinha!. No outro dia, baixei farmácia. Intoxicação. “Me dá um necroton!”. Exatamente como dizia o meu amigo Rosário Fusco que exatamente morreu exatamente disso. Exatamente. (Re)movido a álcool da vida. Tintim, tantã!
| 9/2/2007 | 3:47:15 PM
Cataguases 130 anos:

30 sem Rosário Fusco


Sexta que vem é novamente sete de setembro. Vem e acontece a cada ano. E espero que venha sempre. Cataguases faz 130 anos de (ver´a)cidade. E 30 anos sem Rosário Fusco, seu maior nome literário. Fusco morreu em 17 de agosto de 1977. No dia sete de setembro daquele ano era lançado meu Pomba Poema, um poema-livro sobre o centenário da cidade. Na foto (de Adriana Monteiro), os bardos barbudos Werneck e Joaquim Branco ao lado de um sorridente Rosário Fusco na Cataguases dos anos 70. A seguir, alguns fragmentos de Pomba Poema – trinta anos (sem Rosário Fusco) depois.



POMBA POEMA/Fragmentos



pressinto

com horror

cabreiro

que estou

numa cidade do exterior

mineiro



aguado

maneiro

resta o café

deslocado no tempo

outroragora



movida a carro de boi

e gerânios

girando

como pião matreiro

fora dentro fora

no exterior mineiro



a mais mineira

maneira das minas

meninas cidades gerais



catas catuauás

meia-pataca catas

itacataguarte catas

meia pacata

água ases catas

cataguases



mesma a curva

a mesmidão do rio

mesma a solidão minerada

das mesmas minas içadas

ouriçadas minas

onde chico cabral & lina

acharam palavras

mineraram

poemas-pataca



perdidos rolados

no rio enrolados

por verdes

às vezes embora

sagazes

rapazes de outrora



um rosário endiabrado

luscofuscando

lambuzando

embaralhando a lousa



nada vale nada com algemas

pois a palavra é poesia

e a poesia morreu

são cibernéticos os contatos

dos homens com os homens

e dos homens com as coisas



cata ktá catanga

catuauás cartazes catuauases

itacatuauases cataguases



catarte

catarse

catavento

em close na memória



aqui ali

frag´alimentada

parte por parte

catanada água argila

desesperada

cataguases

arte por arte

ainda cintila



cataguarte.
| 8/24/2007 | 6:03:46 PM
NOITE AMERICANA NA EMPÓRIO DO FAROL


| 8/10/2007 | 9:00:01 PM
Wislawa & o veio de Minas
“Mencionei a inspiração” – e continuo a reproduzir aqui fragmentos da fala na Academia Sueca da poeta Wislawa Szymborska, Nobel de Literatura de 1996. “Poetas contemporâneos”, prossegue a poeta, “respondem de forma evasiva quando lhe perguntam o que é isso, e se existe de verdade. Mas minha resposta é esta: a inspiração não é um privilégio exclusivo de poetas e artistas. Existe, existiu, existirá sempre um certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. Seja lá o que for a inspiração, ela nasce de um contínuo ‘não sei’. Assim, embora eu possa recusar aos poetas o monopólio da inspiração, ainda os situo num grupo seleto de favoritos da Fortuna. É por isso que dou tanto valor à pequena frase ‘não sei’. É pequena mas voa com asas poderosas. Expande nossas vidas para incluir espaços que estão dentro de nós, bem como as vastidões exteriores em que a nossa minúscula Terra pende suspensa.

“Poetas, se autênticos, também devem repetir ‘não sei´. Todo poema assinala um esforço para responder a essa afirmação, mas assim que a frase final cai no papel, o poeta começa a hesitar, a se dar conta de que essa resposta particular era puro artifício, absolutamente inadequada. Portanto, os poetas continuam a tentar e, mais cedo ou mais tarde, os resultados da sua insatisfação consigo mesmos são reunidos, e presos num clipe gigante pelos historiadores da literatura, e passam a ser chamados de suas ‘obras’. Às vezes sonho com o autor do Eclesiastes, aquele comovente lamento sobre a vaidade de todos os esforços humanos. Curvo-me profundamente diante dele, pois é um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Depois seguro sua mão. ‘Não há nada de novo sob o sol – foi o que você escreveu. Mas você mesmo nasceu sob o sol, uma vez que ninguém o havia escrito antes de você.

“E todos os seus leitores são também novos sob o sol – aqueles que viveram antes de você não puderam ler seu poema. E Eclesiates, eu também gostaria de lhe perguntar que coisa nova sob o sol está agora em seus planos de trabalho. Um suplemento adicional às idéias que já expressou? Ou talvez esteja tentado a contradizer algumas delas? Em sua obra inicial, você fez menção à alegria – de que adianta se é fugaz? Então, será que o seu poema novo sob o sol vai falar da alegria? Já tomou notas, fez rascuhos? Duvido que você responda: ‘Já escrevi tudo, não tenho mais nada a acrescentar. Não existe no mundo nenhum poeta que possa dizer isso, muito menos um grande poeta como você”.

São vários, e cada um melhor que o outro, os poemas de Wislawa Szymborska estampados pela revista Piauí em sua edição de maio último. Para fechar este nosso passeio pelo universo da poeta polonesa, transcrevo somente o “Fotografia de 11 de setembro”, por trabalhar na mesma pulsação emocional imagens que se estilhaçam no vazio, numa atmosfera destroçada, em tudo muito próxima do recente desastre com o avião em Congonhas: “Pularam dos andares em chamas –/ um, dois, alguns outros,/ acima, abaixo// A fotografia os manteve em vida,/ e agora os preserva/ acima da terra rumo à terra.// Ainda estão completos,/ cada um com seu próprio rosto/ e sangue bem guardado.// Há tempo suficiente/ para cabelos voarem,/ para chaves e moedas/ caírem dos bolsos.// Permanecem nos domínios do ar,/ na esfera de lugares/ que acabam de se abrir,// Só posso fazer duas coisas por eles –/ descrever este vôo/ e não acresentar o último verso”.

Ponto e pronto: viva Wislawa! Passemos agora ao Ciclo “Minas em Mim” – mesmo quase voltando ao Eclesiastes e seu falar sobre a vaidade. Este sentimento que agora de mim se apossa. Não de Minas, é certo: esta, resta imperturbável – e como sempre se cala. E faz psiu pras montanhas, ou “piuaiui” – que Minas se equilibra entre montes de consoantes e balança num trapézio em intervalos vocálicos dissonantes. Vamos lá, ou cá: Minas então. O veio de Minas veio em mim de Cristina Prates, doutora em literatura brasileira pela UFRJ, com pós-doutoramento em carisma, competência e cordialidade pela UWMC, a egrégia Universidade Werneckal Minas-Cataguases, que funciona aqui em casa e da qual sou reitor ultra-interino (favor não trocar as letras), posto que não sou besta de assumir formalidades quetais.

Pois foi exatamente minha (pre)dileta amiga Cris-Tina (perdão, Nete; perdão, Regininha) quem me convidou para participar em junho último, no Rio, de um ciclo de debates e palestras na UVA-Universidade Veiga de Almeida. E ainda me pediu licença para dar ao ciclo o título de um de meus livros, “Minas em Mim”. Ora pois: quanta honra, minha querida. E depois: recusar, quem há-de? Por três dias afora, muito Drummond, muito Guimarães Rosa, muito Aleijadinho, muito Fernando Sabino e um pouco deste ‘ultra-interino reitor’. E deu no que deu, como já vimos: falei o tempo todo e mais que merecidamente sobre a poeta polonesa Wislawa Szymborska e meio que me esqueci de Minas. Mas, no fundo, nos Gerais, tanto o Piauí como a Polônia são Minas de não esquecer jamais. Transcrevo o texto da Cristina Prates, que muito me honrou. Puro Eclesiastes: um reles arroubo, um voar de vaidade em vão.

Fusão de todos os tempos

“Ronaldo é um poeta sem medo de outros poetas”, afirma Francisco Marcelo Cabral, sensível homem das letras, a propósito da obra de Werneck. Alcione Araújo, dramaturgo e ficcionista, ressalta, no prefácio de Revisita Selvaggia, haver dois escritores num só: “siameses assimétricos, o primeiro (Ronaldo) mais velho que o outro (Werneck)”. Pois bem: de fato temos não dois, mas muitos Ronaldos Wernecks, tal a versatilidade de sua obra e a pluralidade dialógica que trava com as várias linguagens artísticas e com escritores das mais diversas nacionalidades, dentre os quais se destaca Ezra Pound e sua lição de mestre: “Make it new”.

“Na sua alquímica linguagem poética, Werneck tudo trama e mói, no almofariz do ouro, as experiências de um leitor atento às quais se mesclam as vivências dessa nossa fragmentada modernidade. Daí resultam os estilhaços que se movem no papel em branco, palavras soltas, sem nexo sintático, mas que se buscam semanticamente e que se atraem em solidárias aliterações e assonâncias: se a vida não faz sentido, a poesia volta-se sobre si mesma num projeto de reinvenção do mundo.

“É a memória sinestésica, involuntária memória proustiana, que acorda a infância do eu-lírico, aquele menino que trocara o Rio Pomba pelas águas do mar de Itaipu. Mas, numa manhã, eis que lhe chega o cheiro de maçã, a sensação do “abiu grudando / dissolvendo na boca/ melando”; a aparição de Santa Rita, curando feridas; a padaria Cabral, o footing na avenida – Cataguases vem em versos no Pomba Poema que, publicado em 1977, é retomado 20 anos depois, nessa belíssima edição de Minas em mim e o mar: esse trem azul. Com vocês, a paisagem mineira que, acordada pela memória poética, rompe os estreitos limites da cronologia para mergulhar no tempo mítico, no qual se fundem todos os tempos”.

Gracias, Cris-Tina. Nessa (con)fusão de todos os tempos, meu tempo não é certamente “quando”, como o de Vinicius. É um permanente “não sei” (evoé Wislawa!). Com os pés prontos para o salto a partir de outrora, meu tempo é onde-aqui, onde-agora.

| 8/1/2007 | 9:11:28 AM
Vergonha de ser poeta


“A solução é vendermos o Piauí pros japoneses” – disse certa vez, numa boutade incorretíssima e lelé da cuca, o Juca com suas Chaves supostamente bem-humoradas, mas na verdade pouco mais que engraçadinhas. Que lá dos píncaros onde explodiu seu avião (a cauda intacta, como no Airbus da TAM) me perdoe o piauiense Mário Faustino, meu poeta de cabeceira. Ele e todos os seus conterrâneos de variegadas estirpes: mas não é que o amalucado dito do Juca fazia lá, pelo menos lá nos anos 70, um certo sentido? Com a venda, quitaríamos a polissemicamente impagável dívida externa e o novo Piauí – movido a tomates gigantes e bugigangas eletroeletrônicas – seria naturalmente o país mais rico da América Latina, cuíca do mundo. Nada como um vizinho rico para (re)fazermos novas dívidas, ora pois. Mas, logo-logo, pois ora pro nobis, nada seria como antes. Pelo contrário: com um novo e riquíssimo Piauí como credor, nós seríamos o velho Piauí, eternos devedores de nossos vizinhos.

Enquanto a venda não se processa, Piauí é agora nome de uma revista da alta cultura que trafega e apita – Piauí! Piauí! – sobre temas cujos dormentes se encravam numa cultura nem assim tão alta. Há naturalmente controvérsias, se é que me explico bem. Coisa que, aliás, nem sempre faço. Segundo seu editor, o cineasta João Moreira Salles, o nome Piauí não tem a ver com o Estado homônimo: deve-se somente ao encontro vocálico “iauí”que é de seu particular agrado. Idiossincrasias à parte, tem razão o Salles: a junção vocálica “iauí” tem lá eu charme, com uma bela sinuosidade sonora. Mas o Piauí, o próprio, se bem me lembro, ainda não mereceu matéria no corpo da Piauí, pelos menos até agora, com dez edições mensais já lançadas. Leio sempre a Piauí, na espera talvez de um dia, quem sabe, encontrar matéria se não sobre o Piauí, pelo menos sobre meu querido Mário Faustino. Assim foi que me surpreendi na edição de maio último, ao ser apresentado a Wilaswa Szymborska que, ao contrário da Piauí, é um só entrechocar-se consonantal. Um doce pra quem a conhece. Outro pra Piauí, a revista que me (e)levou à belíssima poeta.

Nobel de Literatura em 1996, a polonesa Wilaswa Szymborska (Kórnik, 1923) foi traduzida no Brasil por Ana Cristina César e Nelson Ascher. Mas só agora, via Piauí, dela tomei conhecimento e por outras traduções: a de seu discurso na Academia Sueca, por Rubens Figueiredo, e de alguns de seus poemas por Sylvio Fraga Neto (do inglês) e Danuta Hacynska da Nóbrega (do polonês). E ainda agora, devidamente “aplicado” pela Piauí, continuo literalmente fascinado por tudo que Wilaswa vem escrevendo. Tanto, tanto, que fui ao Rio em junho para fazer uma palestra na Universidade Veiga de Almeida sobre os poemas de meu “Minas em Mim” – dentro de um ciclo sobre Minas, arte e literatura – e acabei falando quase todo o meu tempo sobre Wilaswa. Deixo com vocês algumas pedras-de-toque da poeta polonesa, antes de “passar a palavra” à professora Cristina Prates, organizadora do ciclo sobre Minas, o que fica para o próximo ‘Há Controvérias’.

Do discurso de Wilaswa ao receber o Nobel: “Os poetas contemporâneos são céticos e desconfiados até, ou talvez sobretudo, de si mesmos. Só com relutância confessam publicamente ser poetas, como se tivessem um pouco de vergonha. Mas em nossos tempos estrepitosos, é mais fácil reconhecermos nossos erros, ao menos se estiverem atraentemente embalados, do que reconher os próprios méritos, pois estes se mantêm ocultos mais no fundo, e nós mesmos nunca acreditamos neles. Quando preenchem fichas ou batem papo com estranhos – ou seja, quando não podem deixar de revelar sua profissão –, os poetas preferem usar o termo genérico “escritor” ou substituir “poeta” pelo nome de qualquer outro trabalho que façam, além de escrever. Burocratas e passageiros de ônibus reagem com um toque de incredulidade quando descobrem que estão tratando com um poeta. Creio que os filósofos enfrentam reação semelhante. Contudo, estão numa posição melhor, pois na maioria das vezes podem ornamentar seu ofício com algum tipo de título universitário. Professor Doutor de Filosofia: isso sim soa muito responsável.

“Mas não existem professores de poesia... (se houvesse)... significaria, em troca, que não basta encher páginas de poemas, mesmo os mais primorosos do mundo, para tornar-se um poeta. O fator decisivo seria um pedaço de papel que traz um selo oficial. Lembremos que o orgulho da poesia russa, o futuro ganhador do Prêmio Nobel Joseph Brodsky (1940-1996, poeta russo naturalizado norte-americano, Nobel de 1986), foi certa vez condenado ao exílio em seu próprio país justamente com base nessa idéia. Chamaram-no de ‘parasita” porque não possuía o certificado oficial que lhe assegurava o direito de ser poeta. Há muitos anos, tive a honra e o prazer de conhecer Brodsky. Notei que, de todos os poetas que eu conheço, ele era o único que gostava de se chamar de poeta. Pronunciava a palavra sem inibição. Ao contrário: ela a falava com uma liberdade desafiadora.

“Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é agredida tão facilmente, os poetas almejam ser publicados, lidos e compreendidos, mas fazem pouco, ou quase nada, para se situarem acima do rebanho geral e da roda-viva do dia-a-dia. No entanto, ainda não faz tanto tempo, os poetas se esforçavam para nos escandalizar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Tudo isso era só para encher os olhos do público. Sempre chegava a hora em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si, despir suas capas, seus penduricalhos e outras parafernálias poéticas e enfrentar – em silêncio, com paciência, à espera de si mesmos – a folha de papel ainda em branco. Pois, no final, é isso o que de fato conta”.

“Não é por acaso que filmes sobre cientistas e pintores célebres são produzidos aos montes. Filmes sobre pintores podem ser espetaculares, enquanto recriam todos os estágios da evolução de um pintor famoso, desde os primeiros traços a lapis até a pincelada definitiva. Claro, tudo isso é ingênuo, e não explica o estranho estado mental popularmente conhecido como inspiração, mas pelo menos existe algo para se olhar e se ouvir. Mas os poetas são os piores. Seu trabalho, inapelavelmente, nada tem de fotogênico. Alguém senta a uma mesa ou deita num sofá enquanto olha imovel para a parede ou para o teto. De quando em quando, esta pessoa escreve sete linhas, só para riscar uma delas quinze minutos depois, em seguida mais um hora se passa, durante a qual nada acontece... Quem agüentaria assistir a esse tipo de coisa?”

Pois é, quem agüentaria? A folha de papel não está mais em branco, mas quase toda preenchida, “de mode que”, pra voltar a Minas, interrompo aqui o discurso da poeta polonesa. Que será retomado da próxima vez, com algum de seus poemas, e tudo o mais que sobre ela falei no Ciclo Minas em Mim, organizado no Rio pela Cristina Prates, inclusive a bela apresentação que a professora fez de meu trabalho. Bom domingo, e até.
| 6/25/2007 | 5:49:22 PM
BUFFALO BILL NA CANDELÁRIA
Foi quando – era aí pelos meados dos 1970 na Candelária – adentrou o sujeito a redação da Revista Cacex. Esquina de Rio Branco com Presidente Vargas, Centro do Rio. Vinha falar comigo: sobre búfalos, e numa só investida. Toureiro modesto, ainda tentei algumas manobras & um par de esquivanças. Mas nada de olés & quais-o-quês: o bubalus era mesmo indomável. Seu autor, então, inquebrantável. Na Candelária, asfalto pleno e pradaria, bufava Buffalo Bill e corria-discorria. Bufavam bubalus & seu dono, que impávido descrevia-discorria. Eu fazia que nada sabia. Mas, bubaloidemente, também discorria.

Com a obra na mão, uma só manobra. Pra Revista, o assunto não levantava mesmo poeira: seção pradaria não havia. Pro Pasquim, então, eia pois, que os bubalus, ora pois, faziam também, e por que não?, o seu, digamos, perfil. Tudo assim, vírgula por virgula, virgulandim, mandei meu bubalus pra ser devidamente entubado – pro Jaguar, ou pro Ziraldo?: esse texto bubalóide aí, que discorre na seqüência e na distância. O Pasquim publicou logo na semana seguinte: página inteira, com direito a ilustração do Reinaldo, hoje Casseta & Planeta. Bons tempos aqueles, em que ainda bufávamos e – bubalus bons de bola, e muito jorgedelimamente – ainda acreditávamos palustre e bela a garupa da vaca. Qualquer uma.

| 6/25/2007 | 5:48:03 PM


Tempos atrás, o poeta Ferreira Gullar publicava aqui no Pasquim um comentário sobre “O Pequeno Dicionário Histórico e Elucidativo de Assuntos Pouco Vulgares”, de autoria do Desembargador Alfredo de Castro Silveira. Segundo o poeta, o livro podia ser encontrdo na Livraria São José e era o maior sucesso em Buenos Aires, devido ao completo nonsense de rigorosamente todos os verbetes.

Muito que bem. Saí de imediato pra Livraria São José em busca de tão inusitada contribuição ao nosso vernáculo, que ainda por cima possuía um subtítulo dos mais supimpas: “Tudo nos Domínios da Literatura Abrangendo Todos os Ramos do Saber Humano”. Ora, pois-pois, nem bem comecei a declinar o extenso nome da preciosidade e já o balconista gritava lá pros fundos da livraria: “Solta um Dr. Silveira!”. Pra meu espanto, o Dr. Silveira estava/está solto e é um dos best-sellers da São José, já na 4ª edição.

Agora me chega às mãos outra raridade que nada fica a dever ao Dr. Silveira. “Exaltação ao Búfalo” é, no mínimo, um dos livros mais malucos e engraçados que já li, uma hilariante sucessão de chavões & frases supostamente “poéticas”, com toda a melosidade característica de um parnasiano de boa (?) estirpe. Só que em lugar das veiazinhas azuis realçando o colo da mulher amada encontra-se o Bubalus (mas pode me chamar de Búfalo, viu?): “a tua presença nas pastagens verdes, pisoteando indiferente o macio tapete do relvado, forma contraste brusco e pouco agradável ao ambiente de harmonia colorida que caracteriza a natureza inteira”.

Na verdade, o búfalo brasileiro é uma parada. Vindos da África, os bubalus acabaram dando com os costados (e que costados!) na ilha de Marajó, onde se alastraram & cresceram de forma espantosa (são quase duas vezes maiores que o bisão americano: mais uma vez os gringos se curvam). Os caçadores que se aventuram a encarar o seu bubalus em Marajó levam armas com calibre idêntico ao utilizado para elefantes. Mas, quase sempre, a vez é da caça e nossos heróis acabam ganhando o bubalus que a Luzia perdeu na horta.

Quer dizer, no Brasil seria outra a história de Buffalo Bill. Rima à parte, nosso amigo estaria frito. Imaginem vocês que agora alguns criadores do Paraná estão querendo cruzar o bubalus com algumas vaquinhas da região. Nossas amiguinhas, nem é pra menos, estão fazendo de tudo pra esconder seus encantos. Mas o bubalus não perdoa: vai mandar sua brasa assim mesmo. E essa deverá ser realmente a primeira f(*) selvagem da história.

Bem, após essas brilhantes considerações, voltemos ao famigerado livro do Dr. Walter da Fonseca (palmas para o autor!). Sob o alto patrocínio da Associação Brasileira de Criadores de Búfalos, servimos ao indistinto público algumas fatias da preciosa publicação. Regalem-se, que há gosto pra tudo:

“De manhã e de tarde Deus fez então o dia sexto. O dia em que nasceste... E como os sagrados livros não assinalam o lugar primeiro onde os teus pés pisaram a terra virgem, o homem foi encontrar depois as marcas de tua existência na velha e misteriosa Índia, pérola soberba engastada na península sul da Ásia. Ásia das lendas e dos cânticos sagrados, o teu berço maior... De BRAMA – então o deus supremo do universo e alma do mundo, que se comprazia em dividir os homens em castas privilegiadas, decrescentes de categorias, até reduzí-los à condição de párias, ou seres imundos, tu herdaste a imponência, a valentia e a força...

“De BUDA – o iluminado, o criador do estado de nirvana, recebeste os eflúvios da serenidade, a condição de vivência tranqüila e a incondicional submissão ao homem, que te explora nos quatro cantos do mundo. Assim, BÚFALO, a tua origem está envolta no emaranhado de uma filosofia de princípios políticos-geográficos-religiosos, onde a ponta do fio desaparece no conteúdo de idéias e de crenças...

“– É negra a tua pele: O teu mugido insinua um grito surdo de sofrimento que vai retumbar nas quebradas das montanhas, que adentra profundamente o verde emaranhado das florestas e que percorre ligeiro os vales dos rios, rumo ao infinito, em direção ao imponderável, buscando alguma coisa que o homem não sabe entender e que não procura decifrar... E tu caminhas lentamente, pesadamente, indiferente a tudo, seguindo ao encontro do nada!...

“Búfalo! Deus, é certo, deu-te o divino dom do raciocínio. Pára e pensa! E pensando, volta os teus olhos tristes e lânguidos para a tua terra de origem... E no fim da vida aguardarás tranqüilamente o dia em que a morte virá levar-te de volta até a origem das origens... Aí então – BÚFALO, a tua alma que deve ser branca, muito branca, exageradamente branca para contrastar com a negrura de tua pele, subirá pelos espaços sem fim, rumo ao imponderável...”.

A partir daí, parece que nosso brilhante autor entrou devidamente em pirólise, imaginando a apoteótica subida aos céus do nosso bubalus, recebido pelos deuses do Olimpo e, como não podia deixar de ser, pelos babalaôs desta & e de outras plagas:

“Percorrerás primeiro os caminhos multicoloridos do arco-íris. E passarás pela Via-Láctea, cuja faixa esbranquiçada estará inteiramente marchetada de estrelas aurifulgentes – os vagalumes dos espaços celestiais... De um lado, legiões de anjos e querubins, dedilhando harpas, entoarão o cântico das Aleluias. De outro, centenas e centenas de Orixás, de Oguns, de Oxalás e de Oxus, farão ouvir os ritmos vibrantes, ardentes e cadenciados, da envolvente música africana...

“E ao longo dos espaços siderais a tua alma poderá ver figuras da mitologia em aplausos à sua passagem. Lá estarão Clio, Euterpe, Thalia, Terpsychore, Plimnia, Urânia e Calíope, deusas da história, música, comédia, dança, poesia lírica, astronomia e eloqüência. Vênus e Eros, os deuses do amor. E Themis, a imponente deusa da Justiça... Anjos, mitos e orixás! Um candomblé ecumênico no vazio do tempo... E muitos personagens bíblicos, saídos do Velho e do Novo Testamento, permanecerão postados em toda a extensão dos caminhos, sorrindo e admirando a silhueta tênue e vaporosa da tua alma, de contornos indefinidos.

“Até mesmo Judas — o traidor arrependido, estará formado ao lado deles. Estarrecido como todos eles! E tal como aconteceu no Vale do Aijalon quando Josué, sozinho, batalhou contra cinco reis, o Sol e a Lua pararão de novo, estupefatos à passagem de tua alma branca, exageradamente branca... Eolo, o deus do vento, estenderá a mão e aquietará a turbulência das tempestades e a violência dos furacões, deixando apenas em liberdade a brisa acariciante que refresca!

“E a tua alma volátil, etérea, indefinida como todas as almas, em absoluta e perfeita sublimação, prosseguirá indiferente, alheia a tudo, até alcançar o trono do paciente Buda, o deus de tua terra. Nesse exato momento, quando o silêncio for total e absoluto, um pássaro do Brasil – O Uirapuru, que o imortal Humberto de Campos chamou de Orpheu do Seringal Tranqüilo, saudará a chegada de tua alma branca com seu cântico de ternura e de paz, místico de tradições folclóricas, de nostalgia intensa, anunciando a chegada do fim!...”.

Daí pra frente, só restava ao nosso autor coroar o bubalus com a aura de defensor dos fracos o oprimidos, um Búfalo Bill às avessas. E ele o faz de modo irrepreensível, com toda a elegância de seu linguajar surrealista:

“E em estado de nirvana, lá longe, bem longe, nos incomensuráveis espaços siderais, tu dirás ao homem civilizado que te explora: Obrigado, homem! Obrigado por esses mesmos búfalos que continuarão pela vida afora dando de tudo de si, em troca de nada! Apenas e tão-somente motivados pelo instinto de participar ativamente no sentido do bem-estar da humanidade inteira! Conta comigo, homem civilizado ou inculto! Estarei sempre pronto a dar de mim em benefício de pobres e ricos, de párias e de potentados, de reis e de plebeus, de crentes e de ateus, de negros e de amarelos e de brancos...

“E quando a violência impiedosa da marreta do magarefe abalar por inteiro a estrutura óssea do meu crânio, quando a choupa decepar a minha cabeça ou o estilete perfurar a minha medula, você – homem, ouvirá de novo e pela última vez, a melancolia do meu mugido...”.

É isso aí: fora do búfalo não há salvação. Agora, venha cá, meu querido Dr. Fonseca, diga só pra gente: entubas um bubalus?

RW no Pasquim

06 a 12/08 de 1976
| 6/16/2007 | 2:09:59 PM
DOIS TEMPOS DE AGOSTINHO



Em junho do ano passado, escrevi em Portugal um texto para um vídeo sobre o pensador Agostinho da Silva, que foi homenageado por seu centenário pelo 2º Cineport, o Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa, realizado naquele mês em Lagos, no Algarve. Mês passado, durante o 3º. Cineport de João Pessoa, encontrei-me com meu amigo, o cineasta Jom Tob Azulay, que acabara de publicar um texto sobre Agostinho no jornal O Globo. Nossa conversa girou naturalmente sobre a importância do pensamento de Agostinho e surgiu a idéia de republicar o texto de Jom Tob aqui no Há Controvérsias, do qual ele se diz leitor assíduo. E agora, colaborador ilustre. Aproveito para publicar também o texto (inédito) que escrevi em Portugal para o vídeo-homenagem. Editado por Alessandro Arbex e dirigido pela coréografa Daniela Guimarães, o vídeo serviu como pano de fundo para o espetáculo encenado pelas Cias Cos´è? e Ormeo Teatro-Dança.

AGOSTINHO DA SILVA
Jom Tob Azulay

Curioso que numa época apocalíptica como a atual caia um esquecimento sobre pessoas chaves para a compreensão e o desvendamento de novos caminhos para a crise que vivemos. É o caso do luso-brasileiro George Agostinho Baptista da Silva, que nasceu no Porto em 1906 e morreu em Lisboa em 1994, olhando o rio Tejo, para ele símbolo de um povo e uma cultura fadados a expandir-se mundo afora.
Em 1944, perseguido pelo regime salazarista, Agostinho da Silva toma o rumo do Atlântico e aporta no Brasil. Em 1959, Eduardo Lourenço, que nessa época ensinava na Universidade da Bahia, o aproxima do reitor Edgar Santos, ex-ministro da Educação de Getúlio Vargas, a quem propõe a criação do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia, CEAO, primeiro do gênero da América Latina e germe de uma revolução na cultura brasileira.
No CEAO, Agostinho abriu cursos de ioruba, hebraico, árabe, japonês, montou biblioteca, organizou exposições (como a de arte do Japão), criou bolsas de estudo para a África. Pierre Verger, com quem freqüentava os candomblés, como o de Olga do Alaketu, era um de seus colaboradores. O fascínio e o carisma do Professor Agostinho, como era conhecido, fizeram dele o guru cultural da Bahia para a geração do Tropicalismo baiano, disseminando “um paradoxal sebastianismo de esquerda que se nutria de lucidez e franco realismo... e via no Brasil um esforço de superação da fase nórdico-protestante da civilização”, como conta Caetano Veloso em Verdade Tropical.
Com a transferência da capital, em 1960, Agostinho é chamado por Darcy Ribeiro para ajudar a fundar a Universidade de Brasília, onde criou o Centro Brasileiro de Estudos Portugueses, no qual se passou a ensinar culturas africanas e asiáticas com ênfase na difusão da língua portuguesa. “Não precisamos de mais nada na realidade senão ensinar a língua. Atrás da língua as outras coisas virão”, dizia, com endosso de um Anísio Teixeira.
Na verdade, com o CEAO e o Centro Brasileiro de Estudos Portugueses, Agostinho via, além da dimensão acadêmica, a possibilidade de implementar-se uma pré-concebida política nos planos nacionais e internacionais. Em 1961, atento às alterações do cenário internacional e ao movimento de descolonização que se acentuava (estourava a guerra de Angola), Agostinho é levado a Jânio Quadros por José Aparecido de Oliveira. Expõe então a Jânio sua tese de que ao Brasil, que estava em pleno processo de desenvolvimento e auto-afirmação, cabia um papel de liderar um movimento de países não-alinhados para se contrapor à polarização leste-oeste da Guerra Fria.
Assim, como conseqüência dos encontros que Agostinho da Silva teve com Jânio, abriram-se embaixadas brasileiras em países do Terceiro Mundo e vários embaixadores desses países foram credenciados no Brasil. Surgia a Política Externa Independente que ganharia corpo com Afonso Arinos, Santiago Dantas e Araújo Castro, projetando, até os dias de hoje, com vigor e personalidade a presença do Brasil nos foros mundiais.
A vida de Agostinho da Silva foi um caleidoscópio de atividades intelectuais e acadêmicas. Além de professor, que transitava com naturalidade em praticamente todas as áreas das ciências humanas, dos estudos literários à filosofia, da história à economia, era poeta de verve pessoana: O mundo é só o poema / em que Deus se transformou / Ele existe e não existe / tal a pessoa que sou. Como Vieira e Pessoa, era sebastianista que, como sabemos, é crença que está para a história (de Portugal e do Brasil), como a saudade para a poesia (de língua portuguesa). Também era adepto do culto do Espírito Santo, seita herética medieval que se disseminou nos Açores e no Brasil, ainda presente em algumas regiões brasileiras, que profetiza uma era destituída de propriedade, poder e fronteiras. “Ao que eu chamo Império do Espírito Santo, outros chamam ‘sociedade sem classes’”, ironizava.
Homem do século 20, profundamente consciente do inevitável agravamento da crise do modelo de economia e de vida que a civilização ocidental engendrou, o que sempre norteou Agostinho da Silva foi essa idéia-força de “nação portuguesa”, pressentida por Camões, Vieira e Pessoa. Ao Brasil caberia a tarefa de dar continuidade ao que Portugal não pode plenamente realizar em termos de uma civilização que fosse fruto de uma história marcada por influências marcantes no plano ibérico e que Pessoa sintetizaria no “minha pátria é a língua portuguesa”. Curiosa é sua interpretação para o “mau funcionamento” do Brasil, para Agostinho: “um atestado de vitalidade” que nos permitiria sobreviver ao naufrágio da civilização ocidental.
Também profetizava que “é da América do Sul que a humanidade poderá esperar as indicações de novos horizontes porque aí houve, como nunca na Europa, a fusão de etnias e de culturas”. Para isso, todavia, como camonianamente alertava, necessário seria perder a “austera apagada e vil tristeza, o desânimo que nos deu uma falta de orgulho e de confiança em afirmar isto mesmo: que a nossa Cultura é uma cultura superior no mundo e pode realmente dar soluções novas”.
Jom Tob Azulay
Cineasta luso-brasileiro
Rio, abril de 2007



UM CURIOSO SER QUE BRILHA
Ronaldo Werneck

Pensador, filósofo de grande originalidade, ele ancorava seu raciocínio na tradição para vislumbrar o devir – sabedor do passado, podia dar-se ao luxo de antever o futuro. E foi nessa posição privilegiada, na excelência de antecipador do acontecimento, que George Agostinho Baptista da Silva – o Agostinho da Silva – pôde um dia influenciar o então Embaixador do Brasil em Portugal, José Aparecido de Oliveira, quando da idéia inicial de se fundar uma Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Filósofo dos grandes, Agostinho plantou em português o seu ideário, voltando-se para o próprio destino da língua pátria, da língua única, “língua-pátrias” de mais de duzentos milhões de falantes irmanados pelo mesmo idioma. Um destino que naturalmente deve passar fora de tudo que não for libertação. Exatamente como passou ao longo de sua vida esse seu grande idealizador, esse Agostinho da Silva que sempre lutou pela independência das colônias portuguesas, e que sofreu a ditadura em terras de Portugal e do Brasil – país onde viveu por vinte e cinco longos anos, e onde deixou marcos dignos de um homem de sua estatura.
Um fundador de Universidades, de Centros de Estudos e Investigação, de Centros de divulgação da língua e da cultura portuguesas, fazendo-se presente em momentos fundamentais no desenvolvimento de Universidades brasileiras, quer em Santa Catarina, quer na Paraíba, em Pernambuco, em Brasília. Um curioso pelas coisas do mundo, pelos seres que formam essas coisas – e por isso mesmo um ser que sempre pensou o estar no mundo de forma extremamente curiosa.
“Creio, primeiro, que o mundo em nada nos melhora, que nascemos estrelas de ímpar brilho. Penso, portanto, que a natureza é bela na medida em que reflete a nossa beleza. E penso que todo homem é diferente de mim, e único no Universo. Não sou eu que tem de refletir por ele, não sou quem sabe o que é melhor para ele, não sou eu quem tem de lhe traçar o caminho. Com ele só tenho o direito, que é ao mesmo tempo um dever: o de o ajudar a ser ele próprio – como o dever essencial que tenho comigo é o de ser o que sou”.
No momento em que se comemora o centenário de Agostinho da Silva – nascido no Porto em 13 de fevereiro de 1906 – é extremamente apropriada a homenagem a ele prestada aqui em Portugal pela Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho neste 2º. Cineport – Festival de Cinema de Países de Lingua Portuguesa. Agostinho foi principalmente senhor de um pensar muito próprio, o que fazia sempre com que suas idéias navegassem na contramão das ondas correntes do pensamento estratificado. E não é assim, dessa massa movida a extrema curiosidade, que se move o mundo a partir do pensar dos grandes filósofos?
Ronaldo Werneck
Lagos, junho de 2006
| 6/1/2007 | 9:17:02 PM
três quartos de melancolia



Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada

É dia claro quando chego ao hotel na Paraíba. Venho da Cidade do Cinema montada na Usina Cultural Saelpa, de João Pessoa. Mais uma noite em (preto e) branco a digitar e editar textos para o jornal eletrônico do Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa, o “Cineport na Tela”. Nove e meia da matina e caio na cama, exausto de lutar com palavras noite aforadentro.
Ligo a tevê só pra ver. Pra ver se durmo. Mas minha atenção é despertada por um documentário finlandês num canal a cabo, “3 Quartos de Melancolia”, realizado em 2004 por Pirjo Honkasalo (Helsinque, 1947), responsável pela direção, câmera e edição do filme. Tomo de meu noteboook e anoto com minha caneta Cineport.
Aqui pra nós, o notebook é um caderno sem pauta (por isso sempre desafino) comprado ano passado em Veneza. Tá escrito na capa Notebook, e alguém duvida? Depois, a textura do papel é uma beleza. A Cine/pen/port corre macia por meu Note. E anoto o que se segue em meu Book, que fica assim mesmo como se segue, pois assim saiu e assim segue. Pois.
Um mundo de silêncio e perplexidade. As seqüelas da guerra da Chechênia vistas pelos pequenos grandes olhos de meninos russos na Academia Militar de Kronstadt. Parecem atores-personagens, tal a força dramática dessa pequena gente de carne e osso e amargura. As panorâmicas, a madrugada sanguínea (palavra certa) e fresca sobre as montanhas – tudo lembra pombas e céu escarlate e Raimundo Correa:

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

O cavalo na bruma. Os silêncios. Os travellings verticais belíssimos. Construir um filme. Câmera fechada sobre o silêncio. Sobre o pequeno Aslam, 11 anos, o menino estuprado pelos soldados russos. Close em Adam, 12 anos, que perdeu o pai. Em Milana, 19 anos, estuprada aos 13. Câmera ainda em close sobre Milana, agora abraçada à irmã Kiki, de uns dois anos. Silêncio constrangedor. Milana começa a rezar: “Salva-me da vergonha, meu Deus, bendiga todos os órfãos, ouça minha prece, salva-me da vergonha!”.

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais

A câmera em close sobre os dedos dos meninos. Dos pés, das mãos, desses dedos de crianças que se espreguiçam num acordar para o nada. Choro matinal. Um galo canta ao longe. Um jato risca o céu vermelho. Ao ouvir o barulho, os “olhos estuprados” de Aslam são puro estupor, puro medo e apreensão. Silêncio.
Tudo no mais perfeito silêncio, que escorre em contrapono às notas de rara pungência da música-tema. A banda sonora corretíssima como elemento de tensão. Pastores e cabras. Câmera passeia em lenta panorâmica sobre montanhas e vales, agora azulados pela semi-claridade, e vai ao encontro de pastores.

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...

Exausto, fecho os olhos. Mas custo a dormir, vigiado por olhares infantis que vagam sobre o nada – e mesmo assim me questionam.
| 4/25/2007 | 10:38:04 PM
ah! há controvérsias.


mudo o mundo muda

na praça sem pressa:

sim: há controvérsias



um dito um não dito

novas tão funestas:

não: há controvérsias



nada mal: pressentes

fogo na floresta:

sim: há controvérsias



fado: fogo-fátuo:

minas é o que resta:

ah! há controvérsias



não às reticências:

chagas sem compressa:

não: há controvérsias



o preço da pressa

o fausto da festa:

ah! há controvérsias



cães na praça: restos

no caos que atravessas:

sim: há controvérsias.



nada tal e qual

na vida adversa:

ah: há controvérsias



nem tangos nem tangas

só minas: homessa!

não: há controvérsias



o pó que perpassa

poalha sem pressa

sim: há controvérsias



em tudo uma fresta:

o azul é o que resta:

ah! há controvérsias?



e pronto: e basta:

chega de conversa:

não há controvérsias.

| 4/25/2007 | 10:30:08 PM
gotas de sangue e poesia




Give me the gun, Pump! vociferava o grandalhão-marfim John Wayne – o protótipo do herói americano – para o ébano-gigante Woody Strode, o Pump, na seqüência-chave do filme de John Ford “O homem que matou o facínora” (The man who shot Liberty Valance, 1962). “The gun” era o rifle, pedido e passado por Pump a Tom Doniphon (Wayne) segundos antes dele liquidar Liberty Valance (Lee Marvin), o facínora do título em português. Tempos em que a América-mundo girava em ritmo de faroeste – onde caubóis nem sempre do bem matavam índios nem sempre do mal. E por “índios” entenda-se qualquer bandido, mesmo bandidos não sendo.

A recente tragédia americana com os estudantes de Virginia Tech, em Blacksburg, lembrou-me que exatamente em abril de 1998 – quando de meu retorno a Cataguases, há quase dez anos – eu escrevia em minha coluna para o Jornal do Marcos uma crônica intitulada “Deserto Aborrecido”, que girava sobre o mesmo tema. Não de homens que matam facínoras. Mas de meninos que simplesmente matam o que estiver pela frente. Nos EUA, mais que em qualquer outro lugar, o mundo realmente gira sobre si mesmo, como balas no tambor de uma arma. E disparates como esse de agora voltam sempre, como se disparassem (palavra certa) em cima da(s) gente(s). Bush, esse ser presidencialmente inacreditável, declarou que os estudantes “estavam no lugar errado na hora errada”. Parece auto-referência.

Ao escrever minha crônica, rifles e demais símbolos fálicos, com licença da palavra, abundavam. O presidente americano era Bill Clinton, na época às voltas com o escândalo Monica Lewinsky, a moça do charuto, lembram-se? Em 24 de março de 1998, em Jonesboro, Arkansas, os meninos Andrew Golden, 11 anos, e Mitchell Johnson, 13, mataram a tiros quatro estudantes e uma professora durante um treinamento contra incêndio na escola onde estudavam. Um ano depois, aconteceria outra tragédia de grandes proporções numa escola americana, tratada por Michael Moore em filme memorável. Em 20 de abril de 1999, no Instituto Columbine, Colorado, Eric Harris de 18 anos, e Dylan Klebold, 17, atiraram e atiraram e atiraram a esmo – e mesmo a esmo mataram mesmo muitos mestres e colegas.

Perguntas que ainda hoje perduram: como Harris e seu amigo conseguiram levar para a Columbine High School quatro armas pesadas e dezenas de quilos de explosivos? Por que atiraram a esmo, enquanto explodiam quatro bombas, e depois executaram com tiros na cabeça alguns dos melhores atletas da escola? Queriam mesmo comemorar o aniversário de Adolf Hitler, nascido há 110 anos, num mesmo 20 de abril? Não por caso, os matadores de Columbine foram incensados como heróis por Cho Seung-Hui, o atirador enlouquecido que agora em 16 de abril matou 30 estudantes na Universidade Virginia Tech, em Blacksburg.

April is the cruelest month, escrevia o poeta T.S. Eliot (Saint Louis, 1888; Londres, 1965) em The Wasteland, um dos poemas-marco do século XX. Ezra Pound (que leu The Wasteland no original e fez a mais célebre revisão da história da literatura, totalmente aceita por Eliot) dizia que os poetas são as antenas da raça. Fica então mais uma pergunta: a reincidência desses massacres americanos em abril, este “mês mais que cruel” contribui para confirmar o poder de antecipação da poesia?

Fica a pergunta e suas controvérsias, enquanto transcrevo a crônica de 1998, a ser publicada na próxima coluna, mas que parece ter sido escrita agora. Há uma gota de sangue em cada poema, dizia Mário de Andrade em 1917, muito antes do “modernismo” desses massacres. Matança tá na moda. O mundo, “esse deserto aborrecido”, continua a confirmar o título de minha crônica, dito pelo pai de meu amigo, o escritor Carlos Alberto Castelo Brano, que nesse entretempo se foi para sempre. O pai e o filho. Sim, “pela morte de Deus”. Não “por tiro lá no sertão”, como dizia a letra que Glauber Rocha fez para a canção de Sérgio Ricardo em Deus e o Diabo na Terra do Sol. Nos EUA, antes como agora, a morte vem mesmo de bala encontrada, de tiros acertados por facínoras que matam os homens. Tiros delivery, certeiros – entregues no/pelo destino, a domicílio. E a vinte e quatro quadros por segundo. Cinema-verdade é isso aí. A América (não) muda.
 
 
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