roneck@ronaldowerneck.com.br
| 8/16/2008 | 11:50:16 AM
Bossa Nossa/Bônus 2
Memória, que nos leva a memorabilia, é também e muitas vezes coisa imemorial. Afinal, 50 anos (de Bossa Nova) em cinco (crônicas) dá nisso: falha(s) nossa(s). Mesmo porque a gente não pode assumir, incólume, a juscelinidade dos cinqüent´anos-em-cinco. Andei trocando nomes e me esquecendo de outros. Não é que chamei meu caro amigo Juquinha de José Maria, quando o bravo baterista e primeiro parceiro de Tom Jobim na verdade chama-se João Batista Stockler? Acho que – justo de Juquinha e só disso ser chamado – nem mesmo ele se lembra desse “tal de João Batista”. Mas, vá lá. Quer dizer, fica aqui. E registre-se: João Batista Stockler. Também indoutrodia, na volta de rápida viagem, o acaso me trouxe “vívidas” relembranças – que ele também traz dessas coisas, na impossibilidade de carregar “mortas” lembranças. Eis que na estrada deparou-se-me (sempre quis usar essas mesóclises, mesmo com o carro andando) um outdoor que me recordou a logomarca da Metal Leve do José Mindlin. Não me perguntem qual era o outdoor: o fato é recente e eu só me lembro, vocês bem sabem (“eu sou um rapaz de bem”: evoé, Johnny Alf!), de acontecimentos pra-lá-pra-cá de cinqüentenários.
Parágrafo para Conexão-Cataguases (há sempre um link/conexão Cataguases em toda e qualquer história): Mindlin foi quem lançou a edição fac-similada da Revista Verde, em 1978. Falo “de cadeira”: a coleção de números da Revista que possuo é autografada por ele e por alguns dos remanescentes da Verde. Todos, como eu, presentes ao lançamento em Belo Horizonte. O outdoor me levou então ao logo da Metal Leve e a ninguém menos que ao cineasta Walter Carvalho, há tempos (mas não ainda naquele tempo) o melhor fotógrafo do nosso cinema. Havia me esquecido de meu querido amigo Waltinho quando falei aqui do Festival Audiovisual de Cataguases, que Joaquim Branco e eu organizamos em 1970.
Ainda em fase de preparativos para o Festival, viemos do Rio o Waltinho Carvalho, o compositor Marcus Vinícius e o artista plástico Raul Córdula – todos esses impávidos paraibanos num fusquinha que eu modestamente dirigia. Ainda na baixada fluminense, Waltinho – na época aluno da ESDI, a famosa Escola Superior de Desenho Industrial carioca, e por isso mesmo – chamou minha atenção para um outdoor da Metal Leve, para a perfeição de sua logomarca. Eis o “link” que me levou a lembrar dessa história toda: Waltinho Carvalho seria um dos membros do júri; Raul, o responsável pela cenografia do Festival, desenhando belos e “práticos praticáveis” para o palco do Edgard Cine-Teatro. Já Marquinhos-Marcus Vinícius de Andrade, que vencera o Festival anterior, vinha para se inscrever. E sua música, “Meio-dia doze mortes”, acabaria em segundo lugar.
Foi um rápido fim-de-semana, só pra tomarmos pulso da cidade, ver a quantas andava Cataguases às vésperas do Festival. Na madrugada do outro dia voltamos ao Rio em meio a um toró maior que um tororó, uma chuvarada daquelas. O fusquinha estava, por assim dizer, desprovido de limpador de pára-brisa. Eu não enxergava nadica – embora dissesse aos meus brancaleônicos amigos que nem precisava, pois sempre estive “local” naquela estrada. É bem verdade que a turma não acreditou muito nessa minha “localidade” interestadual e o Waltinho logo se prestou a me ajudar. Foi quando o poeta-processo – que ele o era naquela era – retira sua camisa, mete metade do corpo e a cara toda fuscafora, quer dizer, pra fora do fusca, e põe-se bravissimamente a lutar contra a chamada intempérie.
Quanto mais Waltinho esfregava a camisa, mais a chuva-chovia sobre o pára-brisa. Eu nada via, nem podia. Havia a estrada? Havia. Mas a via estava vazia. Ainda bem. Vários e fortes pingos, outras tantas esfregadelas e muitas rimas depois, a chuvarada cedeu – acho que amainada pelos golpes camisísticos & Waltínicos. Coisa do Carvalho. Muitos anos depois, Waltinho faria o excelente “Janela da Alma”, um filmensaio sobre a cegueira – não por acaso um dos entrevistados era o próprio Saramago – e sobre deficientes visuais & afins. Mas já naquela viagem, quem diria, ensaiávamos nossas cegueiras estrada afora. Corações e olhos apertados, vislumbramos enfim o Dedo de Deus ao deus-dará, ao nada apontar. Névoa de nada, Teresópolis surgia assustada em meio à manhã que se desfazia.
“Chove chuva choverando/ que a alma do meu bem/ está-se passando-se”: cito Oswald de Andrade de cabeça e a chuvas tantas – cabeça ainda molhada pelos pingos do parágrafo anterior. E tudo isso me leva à Joyce. A crase não é por acaso. Não ao Joyce, James – mas à cantora, minha preferida entre tantas. Exatamente “Joyce na Chuva” chamava-se um artigo que escrevi para o “Voz Ativa”, um jornal que eu fazia em Cataguases no final dos anos 80 – ao lado de Silvério Torres, Marcos Spíndola, Rogério Torres, Acir Vassalo e Washington Magalhães.
Eu vinha do Rio todo fim-de-semana para o “fechamento” do “Voz Ativa” – pois era, vamos dizer, o “subeditor carioca” do jornal. Entre seus colaboradores, nomes como os de Luiz Ruffato, Jair Ferreira dos Santos e Carlos Alberto de Mattos, além dos saudosos Roberto M. Moura e Carlos Alberto Castelo Branco – e até uma coluna da Glória (de Ipanema) Horta. Mas, na verdade, eu vinha mesmo era mais pra namorar a Olga Juliana – namoro no(i)vo, vocês sabem como é – até que ela fosse comigo lá morar (no Rio).
Sempre fui (e vim) de dirigir à noite. Numa dessas, achei uma fita esquecida no porta-luvas e botei pra tocar. De início, não ouvi direito: chovia muito na subida da serra e minha atenção voltava-se para a estrada. Mas, de Teresópolis pra cá, fui ficando “local” com a chuva e a estrada e comecei a prestar atenção na música. A fita era da Joyce, que eu sempre ouvira assim como quem não quer nada. A chuva, a noite, a estrada. Tudo ao som de Joyce, minha inesquecível companheira daquela noite de brEu sozinho na mata mineira. Como é que eu nunca percebera a grande cantora e compositora que ela é? Chego a Cataguases e ainda naquela noite escrevo o tal Joyce na Chuva. E, mesmo sem chuva, sem Joyce jamais.
As Costas. Tem as duas, a Alaíde e a Gal. Tem Áurea Martins e Rosa Passos. Tem a Silvinha Telles. A Elis. A Leny. A Elizete. E Bethânia. E Elza. E Ná Ozzetti. Tem sempre a Nara. E agora tem até japonesas, a Lisa Ono e a Fernanda Takai. Ex-namorada vale? Tem a Andréa Dutra. A Daniela Aragão. A Neti Szpilman. Mas não vem que não tem ninguém como Joyce. A voz, o violão, as canções. A batida perfeita da viola, as divisões inteligentes, o seu cantar, o texto sofisticado, as bem-sacadas crônicas – o que fazem vocês que ainda não leram seu livro “Fotografei você na minha Roleiflex”? As letras, as mutretas, as costas.
Seu baterista-muso Tutti Moreno que me perdoe, mas as costas de Joyce – ah, as costas de Joyce – quequieisso, minha gente?!!! Aquelas costas – aquilo sim são as veras (en)costas do Rio que sobre o (meu) mar de Minas se debruçam –, aquelas costas magníficas antevistas anos atrás em cada rodada que Joyce dava dentro de um longo-verde-vestido-frente-única a girar no palco de um teatro do Leblon. Estava comigo naquela noite e está de “provas costais” o Afonsinho, meu muso-baterista – que eu também carrego um, ora pois! E até mesmo o Caetano Veloso, a aplaudir (as costas?) na fileira à nossa frente.
Mas parecia que era pra mim que ela cantava – e quem dizia que não? “Eu com vestido verde hortelã/perdida em seus olhos de xamã/de deslumbrante cor de avelã/pra me aquecerem, feito astracã/mas pra que me cobrir de lã/se cá não ardo em febre terçã?/me seduzindo assim como um fã/com fala mansa, cantada chã/pra um passeio no seu Sedan/e ver um filme de Jean Gabin/me convidou para um coq-au-vin/que encomendou lá no Bec Fin”. Mas logo sua voz, a cristalinamada voz de Joyce, me acordava na noite malsã: “e com a benção de Iansã/prossigo firme no meu afã/de não tirar o meu sutiã/e o meu vestido verde hortelã.//(Até amanhã, galã tantã...)”.
| 7/24/2008 | 7:19:57 AM
Bossa Nossa/Bônus 1
Foi ele o baterista a acompanhar João Gilberto e Tom Jobim nas gravações de Canção do Amor Demais, o emblemático álbum inaugural da Bossa Nova. E foi também o primeiro parceiro de Tom, na composição Faz uma semana. Jóquei dos mais supimpas, José Maria Stocker controlava absoluto suas rédeas em cavalógicos páreos na Gávea. Mas corria bem mesmo era dentro dos compassos ritmados por baquetas e vassourinhas pelas boates de Copacabana. Marceneiro pra ninguém botar defeito, o Juquinha – como Stockler sempre foi mais conhecido – arquitetou funcionais estantes pro meu apartamento da Constante Ramos, em Copa. Ele, que é ainda hoje uma verdadeira enciclopédia da Bossa Nova, também andou por Cataguases lá pela década de 1980, trazido pelo Tomaz (“Man”) Pacheco, pra quem deu aulas de bateria.
Juquinha morava em cima do mitológico Luna Bar, no Leblon, e dali saíamos emborcando todas madrugadas afora. Isso quando “Dona Encrenca” deixava, que a mulher dele sempre marcou em cima. Falar de Bossa Nova sem lembrar do Juquinha não vale. Não posso me esquecer de nós dois contracenando num Super-8 que dirigi noite aforadentro, de uma cena filmada numa daquelas etílicas madrugadas na calçada do Luna Bar. O sol já inundando o Leblon, nós dois mais pra lá que pra cá, eu mostrando/discutindo pra câmera a capa do livro “O Século do Cinema” e Juquinha, meio que encostado num orelhão, interferindo na cena do alto-abaixo de seu bonezinho de jóquei, “agredindo” o livro de Glauber com um exemplar de meu “Pomba Poema”, ora pombas! Paulinho Pontes me disse certa vez que iria escrever uma peça de teatro chamada “Luna Bar”. Quer dizer, escrever não, completou ele, pois só o título bastava: “Luna Bar”. Quer mais? O Bertolucci acabou filmando, Fellini ouviu suas vozes, mas isso são outras histórias de La Luna.
E La Luna sempre – é claro, é clara – com um bar no meio. Uma década antes, e literalmente ainda meio que nas águas das etílico-musicais amizades iniciadas em Copacabana, no “200 da Barata Ribeiro” – aprendizado da noite que muito me ajudou na virada dos anos 60, e pra vida inteira –, passei alguns meses arregimentando músicos e críticos para concorrer, e principalmente para compor o júri, na segunda versão do Festival de Cataguases, agora denominado “Audiovisual”. Várias e várias noitadas no Baixo Copa. No El Cid, no Nogueira, no Beco da Fome (nunca mais aquela carne assada com aipim da Lindaura!) e no recém-inaugurado bar da cantora Waleska, no Leme, aquele “breu total” de muita Fossa e pouca Bossa.
Dali vieram para o Festival de 1970 o Gutemberg Guarabira (E viva o México, com João Medeiros) o Luiz Carlos Sá, o Zé Rodrix – o trio Sá-Rodrix-Guarabira foi formado em Cataguases, numa mesa do Bar Mocambo, o sol (quer dizer, mais eu & o chope) por testemunha. E ainda o Carlos Imperial (“não dá um jeitinho de classificar minha Maria, Maria”?), o compositor paraibano Marcus Vinicius (que vencera o festival anterior), Rildo Hora, de novo o Messias dos Santos (agora “em parceria Cristycaia” com Carlos Sérgio Bittencourt e também com Pedro Lessa, em Produto Perdido), a Bia Bedran, o José Carlos Capinam – numa parceria com o então exilado londrino Gilberto Gil (Zooilógico, que acabou não concorrendo) –, vencedor com Gás Paralisante, feita com o pernambucano Aristides Guimarães, e a Equipe Mercado.
Meu Deus, a Equipe Mercado! Comandada por meu amigo e poeta-processo Ronaldo Periassu, eles causaram um rebuliço dos diabos com sua Marina Belair (“Manicure/ Escândalo dos dedos/ Dédalus// Lapa ofegante ofélia/ Gritrilhos de quinta categoria”). Não só pela letra de Periassu, plena de bricolagens, como pela guitarra destorcida de Stul e a voz rascante e desnuda sensualidade da band-leader Diana. Durante a apresentação, o pessoal do Mercado mastigava carne de cachorro e lançava nacos e mais nacos a um estarrecido, provinciano, engravatado público. Acabaram expulsos da cidade – com todas as glórias da imprensa nacional, da Veja (Antônio Chrysóstomo) à Manchete e Revista Amiga (Adriana Monteiro), a O Globo (Nelsinho Motta), ao Pasquim e Última Hora (Luiz Carlos Maciel) e ao Jornal do Brasil, onde Carlinhos Oliveira atacou de crônica indignada em desagravo.
No júri, Nelsinho Motta, Luiz Carlos Maciel, Marina Colasanti e Affonso Romano de Santana, Lúcio Alves, Mariozinho Rocha, Antonio Chrysóstomo e mais e mais, filósofos (Jorge Roux), críticos (até mesmo de cinema, como o baiano Alberto Silva), e poetas e potentados de tal quilate (Wlademir Dias-Pino, Moacy Cirne, Álvaro e Neide Sá, Affonso Ávila e Laís Correia de Araújo) que acabamos colocando todos no palco do Edgar Cine-Teatro. Imagina! Onde senão no palco colocar um júri de tal magnitude – e ainda sob o comando e presidência gloriosa de Clementina de Jesus, assessorada pelo mui nobre poeta cataguasense Francisco Marcelo Cabral?
O Festival Audiovisual de 1970 foi a ponte para Maria Alcina (eleita melhor cantora, ela que já arrasara no festival anterior com Pesadelo Refrigerado, de Leão Condé e Carlos Moura) lançar-se nacionalmente, sob os cuidados de um Nelsinho Motta fascinado com a jovem cataguasense. Na coordenação, estava ainda o Ernesto Guedes (vide Bossa Nossa/Lado 1), aquele que me aplicou, lembram-se?, João Gilberto & quejandos. E também Beatles, muito jazz e João do Valle, que o Ernesto sempre foi um cara aberto a todas as tendências. O mesmo João do Valle que eu vi entrar uma noite no Beco da Fome, reduto dos músicos de Copa, e ser escorraçado pelo português, dono de um dos botequins. Ainda falei pro cara: “Sabe quem é esse? É o autor do Carcará, o senhor não pode tratá-lo assim”. O português retrucou: “Não me interessa, bêbado não tem vez no meu bar”. Tristes tempos também. Se bêbado no bar não tem vez, onde terá, meu freguês?
Logo, muitíssimo logo depois, um tempo em que muito circulei pelo Biblo´s, uma boate da Lagoa, onde às vezes a Rio Jazz Orchestra tocava, com minha querida Neti Szpilman como crooner. O resto da noite corria ao som da bateria de meu amigo Tião, de um pianista (quem mesmo?) e do baixo do Bebeto, que fora do Tamba Trio e com quem, nos intervalos, eu conversava horas & uísque a fio. Tamba Trio, sim, é Bossa pura e nos leva logo-loguinho a Luizinho, o Eça (mas não, não era ele ao piano naquela boate).
Fui possivelmente a última pessoa a entrevistar Luiz Eça. Ele e Marinho Boffa se apresentavam num show “a dois pianos” no CCBB, já nos anos 1990. Eu realizava os vídeos, os textos e os roteiros pro CCBB e lembro-me muito bem da entrevista, feita no camarim do Teatro 2. Câmera em campo/contracampo, nós dois baforando com aquela dignidade dos fumantes de antigamente. A cada close, Luizinho dava uma tragada e uma píccola tossidela que vou te contar. Eu tacava-lhe outra baforada na cara (de pau) e dizia: “Você precisa parar de fumar, ô meu, olha essa tosse!”. Eça não, quer dizer, Eça sim, retrucava: “Que nada, isso é um resto de gripe, coisa à-toa, que peguei semana passada num show em Belo Horizonte”. Luizinho Eça morreu quinze dias, depois, estirado no sofá da sala de Marinho Boffa, onde dormia entre uma tossidela e outra.
| 7/8/2008 | 7:54:49 PM
Mineiros do Pasquim


Definitivamente, não há controvérsias. Só mesmo quem for mulher de padre não vai ver a exposição “Os Mineiros do Pasquim” – com abertura no dia 11 de julho no Centro Cultural Humberto Mauro em Cataguases. Bem verdade que sou suspeito. Não, nada de “mulher de padre”: é que também fui colaborador do Pasquim lá pelos anos 1970. E, além do mais, sou o Coordenador da mostra que traz a Cataguases – e logo a seguir a Muriaé (agosto) e Leopoldina (setembro) – as charges e ilustrações dos seis cartunistas mineiros que participaram do célebre hebdomadário carioca-ipanemenho: Caulos, Guz, Henfil, Nani, Zélio e Ziraldo. A exposição em Cataguases pode ser visitada até o dia 10 de agosto. A seguir, em primeira mão pra vocês, o texto de apresentação que “co-meti” (palavra certa) para a mostra. Ah, sim: o “lado Bônus” do álbum duplo “Bossa Nossa” retorna na próxima.

A letra que falta
“Ano gráfica e geograficamente de ponta-cabeça, nada mais natural que 69 visse também nascer O Pasquim, um jornal literalmente da pá-virada. Um ano às avessas, onde se mergulhou fundo e forte. Comendo pelas beiradas, mas comendo sempre – no umbigo de 69, na metade exata (o número 1 é de 26 de junho) –, eis que se intromete esse safado jornaleco desobstaculizador (epa!) dos papais & mamães da imprensa brasileira, o destemido hebdomadário inventor de novas posições sessenta e noves (a)fora – que perdurou (epa! epa!) até o número 1072, de 11.11.1991.
Pasquino é termo romano que significa “texto satírico, crítico e mordaz colado em local público”. E também “jornal ou folheto calunioso”. Num sentido pejorativo, “jornal sem repercussão, sem importância, ou mal redigido”. O Pasquim assumiu tudo isso, que não era jornaleco de deixar que assumissem por ele. E acabou por entornar o caldo e logo assumir também o posto de mais vendido. Não só da imprensa nanica, mas concorrendo com os grandes bananas nacionais. Do Globo à Veja, ora vejam só.
Diz-que desaforado. Desabrido. Desavergonhado. Diz-que destemperado. Desconcertado. Descomedido. Diz-que desparafusado. Diz-que “des-inserido” no contexto. As charges, os cartuns irreverentes. A descontração da linguagem não-oficial, aqueles asteriscos de palavrões pressupostos, o texto a correr como se falado fosse. E era. Seis meses após o AI-5, na contramão do governo militar, um jornaleco de primeiríssima, produzido por uma “patota da pesada”: Sérgio Cabral, Tarso de Castro, Millôr Fernandes, Jaguar, Sérgio Augusto, Fortuna, Claudius, Miguel Paiva, Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel, Martha Alencar, Ivan Lessa.
Mas aqui estão só os que mineiros são – essa meia dúzia de artistas que atua por um time todo, com suas endiabradas criações a pular das páginas do “velho Pasca”, a empunhar (epa! epa!) seu varonil valor. Quase quarenta anos após a primeira edição, ressurgem nesta mostra – patrocinada pela Energisa/Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho através da Lei de Incentivo à Cultura de Minas Gerais – algumas das melhores tiradas da patota, extraídas das recentes Antologias I (1969-1971) e II (1972-1973) do Pasquim, lançadas em 2006 e 2007 pela Editora Desiderata. Criações que assinalam a importância dos cartunistas mineiros. Aqui – e agora sim – devidamente inseridos no contexto.
Divisor de águas, nosso principal veículo alternativo, o Pasquim refletiu e nos fez refletir sobre um amargo período da História do Brasil – o “destemido hebdomadário” foi na verdade um (de)formador de (falsas) opiniões. Vários intelectuais de Minas figuram & fulguram em suas páginas. Rever essas charges e cartuns é também desengatar (epa!) daquele trem de mineiro esses seis desatinados vagões que sempre correram fora dos trilhos da mesmice, esses Caulos, e Guz, e Henfil; esses Nani, e Zélio, e Ziraldo.
Agora com vocês, os mineirins do Pasquim. Todos “comeketins”. Sabem David e Golias? Sacam os vietcongues e os gorilas? O Pasquim foi a irresistível resistência. Quando Juscelino morreu, Ziraldo criou uma capa com todo o alfabeto, menos as letras J e K. Aos analfabetos de hoje, o Pasquim é a letra que falta”.
Ronaldo Werneck
Coordenador do Projeto
Os Mineiros do Pasquim
| 6/5/2008 | 8:44:27 PM
Bossa Nossa/ Lado 2
É Lúcio Alves quem ouvimos agora na faixa de abertura do Lado 2 deste Bossa Nossa. O Lúcio que vem ao vivo, com aquele cheiro-Djalma Ferreira. Aquele cheio de saudade. Não o Lúcio Alves que também mereceu capa de cara “clean” & concreta assinada por César Villela – e com sua marca por excelência: o preto-e-branco predominante, foto constrastada, discretíssimos detalhes em vermelho naquele elepê Aloysio Oliveira/Elenco, ouvido na casa do Carlos Sérgio. Mas sim o cataguasense Lúcio Alves Ciribelli (que ele também era coisa nossa), cuja voz surge de uma casa na Avenida (qual? quando?), a gente sentado no chão da sala, silêncio & ouvidos absolutos – o outono enfim no coração só pra ouvir a impecável “versão Lúcio” da canção de Ferreira que ficara famosa na voz “Drink no Rio” de Miltinho: “É aquele cheiro de saudade/ que me traz você a cada instante/ folhas de saudade, mortas pelo chão,/ é o outono, enfim, no coração”.

É. É talvez que é tempo de saudade (“trago o peito tão carregadinho”), pois volta súbito um táxi subindo a Rio-Petrópolis, junho de 1969. Eu e o motorista no banco da frente; atrás, Lúcio Alves e a cantora (e também “certinha” do Stanislaw) Luely Figueiró. O destino? Adivinhem! Lúcio ia/vinha pro júri do 1º Festival de Música Popular de Cataguases, que eu organizara com o poeta Joaquim Branco, e Luely pra defender a canção “Momento”, de Messias dos Santos. O Messias que aqui retorna – depois de ouvir com o Acir, em 1959, a Canção do Amor Demais na loja do Comissário, vide Lado 1: retornar é sina dos Messias.

“Momento” era do Messias com letra de Afonso Vieira, o Afonsinho da Bateria, que volta à cena numa das faixas, perdão, parágrafos adiante. Nesta, e por enquanto, o que ouvimos são mesmo os sincopados semitons de Lúcio & Luely, que cantam Ismael Netto/Antônio Maria na Serra de Petrópolis, ainda agora e a duas vozes. E olha: bem que eu quis escrever um poema de amor, e o amor estava em tudo o que eu vi, o que ouvia , em tudo quanto eu amei naqauele momento. Mas no poema que eu fiz tinha alguém mais feliz que eu: o meu amor que não me quis (eta fossa, sô!). E olha o vento, esse vento do mar em meu rosto. E o sol a queimar, queimar. Calçada cheia de gente a passar e a me ver passar.

O Rio que por nós passava naqueles tempos era mesmo o das calçadas da Copacabana de Antônio Maria, do brilho de seus textos, do seu humor escancarado em paradoxal convivência com suas letras “down by the river side”. Aquela coisa de ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire – tudo, é claro, na voz dilacerada & fossa-pura de Nora Ney (que volta aqui após aquela mal-sucedida incursão no “Rock Around” que nos trouxe a já famigerada vitrola do Comissário). Mas o engraçado é que foi o próprio Antônio Maria quem escreveu logo de cara sobre a “bossa” de João. Fala, Maria: “João Gilberto será sempre o violeiro manso que, tirante o amor, tem medo de tudo. Tempestade, guerra, faca de prata, febre terçã. De tudo ele receia. Menos do amor. E sua voz rumoreja uma porção de palavras que sabem os caminhos dos corações sensíveis. No peito, a viola. Não sei de quem toque de maneira tão esquisita, tão fácil de sentir. Tinha que ser entendido, um dia”.

Qual o quê, Maria! Até hoje esse tocar esquisito do João parece não ter sido devidamente entendido. Não só “quem toque assim”, mas também “quem cante assim”. É, Maria. Veja agora as quebras e requebros de suas palavras, o seu cristalino silabar e diga lá o que é isto, diga lá junto com seu rival Ary Barroso, Maria. Isto aqui o que é, bim-bom, João-João, o que é essa morena boa que me faz penar, mas olha só o remelexo que ela sabe dar, olha como João pega carona com Haroldo Barbosa e diz adeus ao boogie woogie e ao swing também, pois isso aqui é um pouquinho de Brasil e o samba mandou nos chamar.

E olha que toda a “poesia” da Bossa Nova – Tom Jobim à parte – encontra-se no fraseado e no tom inovador de João, com seu dizer-não-dizendo, sua dicção reinventada – um João pleno de sons e permanentes surpresas. O cantar escandido, a pronúncia exata como nunca se ouvira – só aquele inglês silabado e corretíssimo de Sinatra poderia ser um parâmetro. Vinicius falava em emissão perfeita, num texto de 1965: “Bossa Nova é o canto puro e solitário de João Gilberto, eternamente trancado em seu apartamento, buscando uma harmonia cada vez mais extremada e simples nas cordas de seu violão e uma emissão cada vez mais perfeita para os sons e palavras de sua canção”. É isso. Estavam certos Antônio Maria e seu grande amigo Vinicius (“fala, Poesia”) de Moraes: a bossa toda era/é mesmo João. E sempre no tom (de) Jobim.

Na segunda metade dos anos 60, aquele Rio de Antônio Maria era pra mim Copacabana e um Edifício chamado 200, nome de peça do meu amigo Paulinho Pontes, que morava com Bibi Ferreira numa rua das vizinhanças – e que deu aquele título possivelmente influenciado por tanto eu contar pra eles aquelas inacreditáveis “histórias do 200”. Ali morei com dois bateristas, o conterrâneo Afonsinho e o paranaense Tião, meus grandes amigos até hoje. Era música, eram músicos dia-e-noite, night´n´day jazz & bossa. A maioria dos músicos da noite morava na Zona Norte e nosso apartamento – situado no meio de emaranhado de boates, casas noturnas e inferninhos de toda espécie – era o endereço certo, o ponto de referência onde trocavam de roupa, batiam papo, tomavam umas & outras, ensaiavam e, às vezes, até mesmo compunham.

Pelo apartamento da Barata Ribeiro, 200, passaram – citando assim ao “vai-do-samba”, que a turminha não era de encarar uma valsa – o Juarez do Sax, o baterista Robertinho Silva, o grande guitarrista Írio de Paula (que está na Itália há 40 anos, ou mais, desde que pra lá foi com o Afonsinho e Elza Soares – e pelos trasteveres dessa vida se embrenhou pra sempre), o Reizinho da bateria, os baixistas Tuca e Totó, o Celinho do pistom, o saxofonista Zito Righi (que logo depois seria “Bob Fleming”, atuando nos bailes dessa vida no lugar do Moacir Siva, com o Afonsinho no comando da bateria), o compositor Mário (irmão da Silvinha) Teles e o baterista Milton Banana. Este estacionava toda noite no botequim lá embaixo, e sempre me perguntava pelas cotações da Bolsa, pois Banana acreditava que eu era no mínimo um “broker” do pregão, dado eu andar invariavelmente de terno. E ainda o não menos Milton Nascimento, que chegava de Minas pra defender sua Travessia naquele Festival, lembram? E, também de Minas, o pianista e arranjador Wagner Tizo – que morou conosco por uns dois ou três meses.

Ah sim, abro outra faixa-parágrafo, pois o “Barata Ribeiro, 200” tem história – Paulinho Pontes tinha razão ao escrever sua peça. Um dia, distraído, abro a porta e sou quase atropelado por uma moto, que vinha a toda pelo imenso corredor que abrigava não sei mais quantos apês por andar. Chose de loque. Mas louco mesmo era o saxofonista Tranka, um arranjador conceituado e genial. Amigo do Tião, Tranka baixava sempre lá em casa e às vezes ficava dedilhando um velho violão jogado por alguém na sala. Um dia, aparece o Martinho da Vila. Tranka ia fazer o arranjo de uma música dele (qual mesmo?) que estava concorrendo a um dos muitos festivais da época. Martinho chegou cobrando o arranjo, e não deu outra. Tranka pegou o violão e fez o arranjo na hora, assim como quem não quer nada. A música foi grande sucesso no Festival. Detalhe: para desespero de Martinho da Vila, o violão tinha uma corda a menos.

E a figura impoluta do pianista Paulinho Cego, minha gente? Sempre sorrindo, de bem (como ninguém) com a vida. Um dia, alguém trocou suas meias de pura sacanagem. Lá foi ele, pimpão como sempre, nem aí pras meias – uma vermelha, outra marinho. Contaram pra ele, mas Paulinho fez que não sabia (“cego tem dessas vantagens, Ronaldo”).

Só o vi enfurecido quando, apertado pro pipi, alguém lhe deixou como mictório o capô de um carro estacionado. Dia claro, sol em meio, o motorista com a namorada do lado quase enche nosso ceguinho de porrada. Ufa, dessa vez foi por pouco: Paulinho dava murros cegos e em vão no ar, aqui e ali, que nem Muhammad Ali. Mas a melhor dele foi com o Afonsinho. Os dois já prontos pra descer, show-time, e já atrasados para entrarem na boate, quando falta luz. Seis andares no escuro, como é que fica? Paulinho vira-se pro Afonsinho: “põe a mão no meu ombro, bicho, que dessa vez é o ceguinho quem vai guiar a parada”.

Pois é, isso aqui é também um pouquinho de Brasil, desse Brasil que canta e toca, né seu Ary?, dessa gente que às vezes até é feliz-infeliz. Eles todos que no 200 baixaram e também a inacreditável penca dos demais músicos a circular sua solidão pela madrugada de Copacabana – a ver a calçada vazia, ninguém a passar, ninguém a os ver passar. E mais ainda: uma pá de garotas da noite, da bossa e da breca, que acabavam buscando caliente acolhida em minha cama, a única de casal do famigerado apê do 200. Pois é, as moças da noite amanhecendo em minha cama e eu tendo que cumprir meu ofício... no Banco do Brasil, é claro, onde batia ponto invariavelmente às nove da manhã. Semana que vem, a Bossa Nossa prossegue: faixas-bônus.
| 5/29/2008 | 8:45:15 PM
Bossa Nova/ Lado 1
Na geografia afetiva da época, as ruas da Cataguases 1950 eram rebatizadas por afinidade. Era assim a rua da Maizé e do Zé Luiz, a da Elvira, a do Carlos Sérgio, a da Maria do Carmo, que também era a minha. A cidade girava em torno da praça e de seu entorno – não uma “Rui Barbosa” qualquer, como tantas outras, mas a “nossa” praça Rui Barbosa, entoada com todos os erres. Um largo entorno que passava pela rua do Sobedesce, chegava à praça da Igreja, descia a rua dos Estudantes, atravessava a Avenida (sempre “Avenida”, jamais “Astolfo Dutra”) pra subir o morro de terra do Colégio (não havia Avenida Humberto Mauro, nem dele sabíamos ainda).

Na volta do Colégio, o dia em meio, jogávamos pedrinhas no córrego Lava-Pés – só pra fazer chuá-chuá, que coisa mais supimpa! – e subíamos famintos a rua da Estação. Às vezes, enveredávamos pela rua do Carlos Sérgio (a única no mundo que “descia pra Cima”, a Cia. Mineira Automobilística) e seguíamos em direção à rua da Maria Cristina e da Mabel, para deixarmos as duas meninas na casa da rua do Pomba, a casa do nosso diretor (que sequer imaginávamos, imagina!, ser assinada por Niemeyer), o Doutor Francisco (que mais tarde, quando já éramos “colegas de escriv´ânsias”, acabou mesmo sendo chamado afetuosamente de “Chico”, Chico Peixoto). Outras vezes, descendo do Colégio, esticávamos por outras bandas & esquivanças e subíamos a rua do Mete-em-Pé. Mas eram subidas inocentes, como de resto tudo o mais.

E agora – lá se vai meio século, e morando na Avenida, exatamente na cândida perpendicular do Mete-em-Pé – saio de novo a procurar o som daquele tempo. Não, meu caro Acir, nada daquilo que você, Vatinho e Messias ouviam na praça, na minúscula lojinha do Comissário José Thomaz – que se chamava, é claro, “Miniatura” (gracias, Antônio Jaime!). Nada da batida cool da Bossa Nova, nada do violão de João. Nem lugar há mais pra isso. Pelas ruas o que se vê é ainda uma gente que nem se vê. E nem marcha-rancho. Nem Lyra-Vinicius.

Pois o que agora ouço, e com profunda irritação, não é mais o apito da fábrica de tecidos, que silenciou como aquela do Noel. Mas sim o apito do trem, que leva nossa bauxita e paciência Avenida afora. E parece nos passar um pito a apitar assim, a rir de nós assim – a tremer nos trilhos assim, esse gaiato que lá vai a buzinar com estrondo. Parece filme do John Ford. Só que somos os índios. O quê? É, os ín-di-os! E devidamente ensurdecidos. Dá vontade de no trem meter em pé (mas de guerra) um trovão de volta. De destampar com um estridente A wop-bop-aloo-mop-alop-bam-bom, de rachar com um Little Richard os ouvidos do maquinista – que nos sorri com ar de pateta e ainda acena para idiotas como nós, que se debruçam pelas varandas a varar suas vaias contra o vento.

Só depois que o trem passa posso no passado pensar. Posso por essas ruas passar. “Velho caminho/ por onde passou o meu carinho/ chamando por mim.// Caminho perdido na certa,/ caminho de pedra onde não vai ninguém.// Só sei que hoje tenho dentro de mim/ um caminho de pedra no peito também”, cantava “Tom & Vinicius” aquela Elizete do “Caminho de Pedra” de Canção do Amor Demais. Tempos de “um olhar desesperado/ a derramar melancolia em mim/ poesia em mim”. Mas na verdade a poesia ainda não mandara me chamar. Nem o samba com essas novas bossas. Eu queria mesmo era rosetar.

Melancolia em mim, poesia em mim? Vê se derrama pra outras bandas. Aquele Vinicius de letras ainda empostadas, que vinha lá dos tempos da busca pelo “Sublime”, não me dizia nada. Aquele negócio de “assim como o poeta só é bem grande se sofrer” – que surgia do Vinicius em diálogo como o “Absoluto”, aquele dos anos 30, de “Forma e Exegese”, de “Ariana, a Mulher” e até dos “Novos Poemas”, de 1938 – não me motivava “em absoluto”. Aquele letrista ainda apegado aos “males inevitáveis do amor”, aos desencontros e sofrimentos na linha do amor cortês medieval – que emblematizava o sofrimento como único caminho para as epifanias do amor –, aquele Vinicius não “calava” em mim, porque em mim não repercutia.

Mais eis que o mundo começacaba mesmo em Cataguases. Ou daqui se inicia, se alça para a partida. Pois a canção, como naquela mesma e exata letra de Vinicius, “só tem razão se se cantar”. Inclusive com esse melódico “se-se”, ciciar de pássaros, canto de cigarras. A Bossa Nova passou por Cataguases – tudo passa por aqui, ou vocês duvidam? – quando ainda nem se sabia como tal. Lembro de Vinicius no Colégio Cataguases, numa manhã qualquer dos anos 50, talvez 1957-58. Camisa vermelha, cabelos grandes e (ainda) grisalhos, sapatos mocassim sem meias. Os mesmos e confortáveis mocassins da “Moreyra” (usados também pelos “Chicos Peixotos”, o pai e o filho), que eu mesmo iria adotar ao me estabelecer no Rio, meados da década de 60. Era o poeta de quem eu tinha “vaga notícia”, pai do meu colega Pedrinho (sempre a “filar” minhas “vinte”, as bingas de meus cigarros da época, o sem-filtro e arranca-peito “K-Tall”) – esse tal de Vinicius de Moraes, que nos chegou muito descontraído, e muito cariocamente nos falou no Grêmio Literário Machado de Assis sobre poesia & coisas quetais. Prestei mais atenção em seus mocassins sem meias, seu indistinto charme bossanovista.

Havia também um violão pré-bossa, tocado por outro interno do Colégio, o Dori, que namorava uma daquelas meninas da minha rua, filha do Seu Nogueirinha (Maria, Maria do Carmo, Terezinha?). Na varanda das Nogueirinhas, ouvi atento e por várias vezes aquele violão batuta, a voz rouca de meu colega Dori a cantar aquelas canções de pescadores, de uma aparente simplicidade – na verdade sofisticadíssimas. O mar da Bahia chegou-me assim, com a melodia de seu pai, um certo Caymmi. Mal sabia eu que menos de cinco anos depois, 1964, iria também morar na Bahia de São Salvador – e baiano por pouco não me tornaria, tal a porretíssima força de baianidade tamanha que baixou em mim, ó minha Menininha!

Foi então, nesse vai-não-vai, que o que Bossa viria a ser já me vinha de viés e ao vivo naquela Nova Cataguases de nunca mais anos 50 – do violão de Dori aos mocassins de Vinicius. Mas ouvida mesmo, e com atenção, acho que só em 1960. Era o som que “descia pra cima”, que ro(n)dava em nossos estudos na vitrola da casa do Carlos Sérgio. Junto com um ou outro Sinatra, predileção do nosso pianista Paulino. Lembro-me de “Sinatra Sings for Only the Lonely”, particularmente daquela canção de Nelson Riddle, “Ebb Tide”, que hoje pode ser encontrada no “youtube” – numa curiosa versão como pano de fundo para a famosa cena do assassinato de Janeth Leigh na banheira, no clássico Psicose, de Hitchcock.

A batida inovadora de João Gilberto, aquele violão “desencontrado” que acompanhava a Elizete em “Chega de Saudade”, quem percebeu de cara foi o Ernesto. Que não morava no Brás, mas foi quem primeiro nos convidou praquele novo tipo de samba. O Ernesto Guedes, que sempre intuía o novo e que logo nos trazia, “gilbertista de primeira hora”, o elepê inaugural do João, “O Amor o Sorriso e a Flor”. Um título que vou te contar. Mas com uma virada de viola e uma dicção tão perfeita que parecia aquela onda que surgiu no mar. E a capa? Cara, a capa era aquele nada que é tudo. Tudo branco, com discreta inserção de suave tipologia, em pequenos caracteres com o nome da gravadora (Odeon), do autor e o título. Logo abaixo, uma breve assinatura “João Gilberto”. Uma foto solarizada de João & violão no canto esquerdo, e é tudo. Tudo-quase-nada (o)usado pelo programador visual César Villela, o mesmo que faria logo a seguir as capas da gravadora Elenco, do Aloysio de Oliveira. Mas isso já faz parte do “Lado 2”. Semana que vem, viramos o disco.
| 5/14/2008 | 2:07:06 PM
O rock do Comissário
Na eletrola, a agulha sobre o vinil e o mundo a girar 1958 adentro. O som era o do Zé Comissário. Na Cataguases da época, “Comissário” era aquele sujeito pago por “comissão” como o Zé, que ia semanalmente ao Rio para levar e trazer encomendas. E que aproveitou pra abrir pequeníssimo ponto de vendas no esmirrado hall ao lado do Cinema Cataguases – discos, chocolates, chicletes ping-pong e cigarros Minister, a grande novidade das primeiras baforadas com filtro. Tudo ali naquele canto, subida pro Clube Social e descida pro Porão do João Tatu, a toca freqüentada pela maçonaria dos sinuqueiros. Exatamente onde agora funciona a Maçonaria, a outra.

Hoje Edgar Cine-Teatro, o Cinema Cataguases – instalado no novo prédio aberto em 1956, onde funcionara o velho Cine-Theatro Recreio dos tempos de Humberto Mauro – era naturalmente chamado de “Cinema Novo”, também para se distinguir do velho “Nelascope”, como eu chamava o Cinema do Seu Nelo Machado, na diagonal da Praça Rui Barbosa. E, como sempre antevendo o futuro – pois o presente, olhaí, já é passado –, Cataguases inaugurou o seu verdadeiro Cinema Novo antes do movimento dito como tal. Bem verdade que “Rio 40º”, o filme-seminal de Nelson Pereira dos Santos, é de 1955. Mas verdade mesmo é que o Cinema Novo, o “deles”, só ganhou esse nome bem depois, já nos anos 60. A gente de Cataguases já ia ao “Cinema Novo” em 1956: não há controvérsias.

E ouvia-se de lá a vitrola do Comissário. De lá do Porão do Tatu, digo eu, que ali ensaiava novas tacadas e assistia – pura fascinação, I know – aos inacreditáveis lances daquelas memoráveis partidas de bilhar entre Aristides Braga e Elton Santos, coisa de gênios. O som que descia pela escada já vinha alto de nascença e não havia razão prum antecipador “aumenta que é rock´n´roll”. Vinha de lá o "negrimoral” Chuck Berry, o papa-mocinhas Jerry "The Killer" Lee Lewis, o adamado Little Richard e a sex-coqueluche Elvis "The Pelvis" Presley. Mas nada disso sabíamos ainda. Só que aquilo era o tal de rock´n´roll, que a gente ouvira pela primeira vez do outro lado da praça, naquele “filme do Glenn Ford” no Nelascope, o Sementes da Violência/Blackboard Jungle, e logo naquele outro, Ao Balanço das Horas/Rock Around the Clock, com o Bill Halley e seus Cometas, que além da vibração da música-título nos apresentava Only You e See you Latter Alligator.

E tudo isso a combinar com o chiclete de bola, o cigarro com filtro, a camisa vermelha e a calça Lee dos alunos internos do Colégio Cataguases. Que quase sempre vinham do Rio de Janeiro e ganhavam, com o devido perdão, todos os “brotinhos”, mas – ó tangas, ó mangas! – eram nossos eternos patos na sinuca e nas notas mensais. Exceção feita pro Chico Buarque de Hollanda, o próprio, que costumava brilhar, o safado, nas lides das notas escolares. “Também, pudera!”, disse alguém, “o cara é filho do homem do dicionário!”. Contei isso pro Chico anos depois, quando seguíamos, velhos atletas, pruma partida de futebol do Politheama no Recreio dos Bandeirantes. Ao volante, “o filho do homem do dicionário” quase bate com o carro, tamanha foi sua risada.

Coisas que agora retornam, trazidas pelos contraventos de um email de meu amigo Acir Vidal, o comandante-em-chefe do “Contraovento”, mordaz & movimentado blog que ele posta lá de Vitória de todos os Santos Espíritos, inclusive os de porco – e que até mesmo os meus “Há Controvérsias” abriga. Sem brigas, sem nada demais. Assim diz Acir: “Ronaldo, meu querido. Em 1958/59 eu ouvi pela primeira vez o João Gilberto cantando Chega de Saudade, num disco 33 RPM, na loja do Zé Comissário, na entrada do Clube Social. Eu estava com o falecido Vatinho, Jones Walter de Mello, o Messias e não me lembro mais quem. Ouvíamos discos também lá na loja da Belinha, cujo nome da loja me esqueço, e que ficava em frente onde hoje é a Caixa Econômica Federal, perto da Estação. Seguinte: como estamos comemorando 50 Anos de Bossa Nova, bem que você poderia escrever algo a respeito. Mesmo havendo “controvérsias”. Que tal?”

Dito & feito. Ou: eis-que o porquê. Atendendo ao pedido do Acir – com entregas sempre contra o vento e “a/em” domicílio, graças à internet – comecei a me lembrar do Comissário, dos discos 33 RPM e até da loja da Belinha, na verdade a Casa Radar. Mas, eu nunca ouvi discos por lá, na Radar. Na loja do Comissário, sim. E, perdão Acir, era na verdade muito rock que rolava escada abaixo. Por onde descia do rascante refrão de “Let´s rock, evebody, let´s rock” do Jailhouse Rock do Elvis – idolatrado/imitado mais tarde pelo nosso querido Niquinha –, a todos os outros “Snookers Rock” ali ouvidos, hits como Roll Over Beethoven e Route 66, de Chuck Berry, & os cambaus. Bossa Nova pra mim foi depois. Eram naturalmente outros os ouvidos do Acir, um expert e colecionador, sempre atento a qualquer novidade “mais sofisticada” surgida nos discos; do caro e saudoso Vatinho-Jones Walter, que bem se defendia na voz-violão; e do compositor e cantor Messias dos Santos.

Os meus ouvidos, à época, ligavam-se ao barulho das bolas do bilhar, ao balanço das horas da sinuca. Esse o meu ritmo, o frenesi do “rock do Comissário”, que reverbera ainda agora e toma de assalto minhas palavras. De Chuck Berry a Chubby Checker e só depois, num vôo cool, a Chet Baker. Daquele mix de rock-blues-country de Berry em Maybellene ou Johnny B. Goode ao Let´s twist again do Ernest Evans, que vocês podem chamar de Chubby Checker, se melhor lhes aprouver. De quem, aliás, eu preferia a versão “twilstal” & coisa do I Could Have Danced All Night, som que me levou a sessões de contorcionismo explícito com (a)variado elenco de My Fair Ladies na pista do Clube Social.

Falta Little Richard, que ressurge aqui, e vivíssimo (como também Berry) ainda agora, com Long Tall Sally e o famigerado Tutti Frutti, aquele do grito de guerra de “Tarzan das Bonecas”: A wop-bop-aloo-mop-alop-bam-bom. Pois é: isso enquanto, nos brasis de Cataguases o rock tupiniquim nos chegava pelo rádio na voz da musa da fossa Nora Nei com “Na Ronda das Horas”, a tenebrosa versão de Rock Around the Clock. Logo quem, a Nora Nei do início da MPB, cujo grupo contava, vejam vocês, com o sofisticado acompanhamento do piano de Johnny Alf, além dos irmãos Farney: Cyll na bateria e Dick nos vocais. O “rádio” era naturalmente “Hoje é Dia de Rock”, o programa de Jair de Taumaturgo que a torcida do Operário e todos nós, desprovidos de “electrola”, ouvíamos pela Rádio Mayrink Veiga.

É por aí que surge o não menos Carlos Imperial, também ele interno no Colégio Cataguases, agora no comando do “Clube do Rock” na TV-Tupi do Rio. Imperial iria produzir em 1961 Louco por Você, o primeiro disco de Roberto Carlos (que ele intitulou “príncipe da Bossa Nova”). Acusado de imitar João Gilberto, o disco do “príncipe” desatinou nas paradas e foi por água abaixo. Mas, logo à frente, o príncipe voltaria à tona: coroado rei, ele mandaria tudo pro inferno ao deslanchar no leme de emoções jovemguardistas dos Lady Lauras & outros detalhes. E deixou de tratar Imperial por “papai”, como nos velhos tempos: o império agora era só dele. Coisas de rei, vocês sabem. Semana que vem, e finalmente para gáudio do Acir, a gente vem cheio de bossa. A nossa.
| 4/15/2008 | 5:44:02 PM
Frevo na Casa do Agra


Recife: RW & o apresentador da folia no Marco Zero
© Lilia Tandaya

Ainda na prise nordestino-momesca. Na terça, rumo ao frevo – que Lilia precisava fotografar no Recife. Mas já saímos tarde de João Pessoa e chegamos com a noite em meio. Grandes engarrafamentos até a entrada de Olinda. Passamos batido rumo ao Recife: frevar ali nem pensar. Já ia lá pelas dez quando adentramos o Marco Zero – o “epicentro da efeméride”, com o devido perdão pelo pernambucano arroubo de epicentro & efeméride E literalmente adentramos também a balbúrdia de vários blocos de rua. Lilia clicava dali e daqui e eu dançava aqui e ali em plena rua, junto à multidão de brincantes. Não dançar, nem pensar. Sem dançar, não conseguiria acompanhar minha amiga, que dançava num bloco e clicava no outro. Ou vice-versa: há controvérsias.

Mas não conseguimos encontrar nenhum frevo na noite. Exaustos, saímos do Marco Zero em direção ao carro, que estava do outro lado da ponte. Só então, atravessando a ponte toda carnavalizada com aqueles bonecos imensos e luzes verde-rosa – a Mangueira homenageava Recife nesse Carnaval, e Recife retribuiu com suas luzes –, é que me dei conta de seu nome: Ponte Buarque de Macedo. Foi quando ainda em pleno Carnaval fui lembrar-me logo de quem, de Augusto dos Anjos, o poeta das sombras. Pois é, disse para Lilia, o Augusto dos Anjos, que está enterrado em Leopoldina, cidade perto de Cataguases, tem um poema que fala dessa ponte. E lembrei-me da enigmática quadra inicial do poema vastíssimo:

Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo.

Já na BR de volta à Paraíba, Lilia pisa fundo e me diz que prefere não usar faróis altos, pois enxerga bem e não gosta de ficar trocando a luz ao cruzar todo veículo que lá vem vindo. Noite alta e faróis baixos, lá vem vindo minha cisma – e me distraio em meio à escuridão a pensar no poema do Augusto. No sinistro poema dos Anjos em meio à noite, naquela “casa do Agra”, na verdade, um funerária (ou necrotério?) que existia (existe?) no Recife. E sinto um arrepio nesse final de noite e de Carnaval ao lembrar-me de outra das quadras do poema:

Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!

Na verdade, não pensava em (d)escrever nada disso. Paraíba, Pernambuco, Maracatu, o frevo que não houve. Acontece que em minha caminhada neste início de noite, quase dois meses depois, vejo minha gorda e nada saudável sombra projetar-se à minha frente na velha ponte de Cataguases. Ela levou-me de imediato ao poema de Augusto. Não uma sombra magra, como a dele. Nem (ainda) rumo “à casa do Agra”. Mas lembrei-me também que a Ponte Velha nos leva a Leopoldina, onde o poeta se encontra ainda hoje – e, seguindo direto & reto, ao cemitério de Cataguases, onde me encontrarei um dia. O que não é muito correto.

Estranha coincidência: como a Buarque de Macedo, a velha ponte de Cataguases também leva à casa do Agra. E do metal da ponte me surgiu essa quadra assim, em redondilha. Não tão longos versos, como os “de onze” do Augusto, mas com ar de emplacados em funesto bronze.

Ponte Velha: Cataguases.
Eu, em minha caminhada,
Arrasto a forma abaulada.
Sombra redonda: ou quase.

Mas, nem eu nem Augusto seguimos “direto & reto” pra aonde vocês bem sabem. O poema dele atravessou a ponte levando todas as suas cismas e dobrou pra direita, pros lados de Leopoldina. Já o meu ficou por lá mesmo, ensimesmado. Eu fui-me logo embora dali, passos apressados à esquerda, pela calçada do Clube do Remo afora. Logo a memória remou velhos carnavais pras bandas daqueles salões. Coisas de confeti que (não) chorei.

Prise de lança e magnólia
em mim recende vida afora:
dança balança na memória
e Pernambuco vai embora.
Caduco agora vivescrevo:
Bloco das Flores, Pirilampos
luzAndaluzas – não me atrevo
frevê-frevar por esses campos.
| 4/9/2008 | 11:59:15 AM
Boi com Maracatu


Paraíba à beça: a fotógrafa, o boi, o poeta.

© Foto: G.G. Carsan

Pimpão e passadiço passo-que-passo por Paraíba-Pernambuco no compasso da folia 2008. Frevo esparso, mas muito maracatu no pedaço. O quartel-general da banda é em Cabedelo, nas proximidades de João Pessoa: Pousada de Ana Júlia, mãe de minha amiga, a fotógrafa paulista Lilia Tandaya. O mar em frente, verde-invadente: à tardinha, maré cheia, cadê a areia? O mar quase nos alcança na varanda. Êh verde-vida! Quer dizer, nos interlúdios. Na verdade, todo-tempo-todo trouxe muito (e, é claro, carnavalesco) trabalho. Pernas pro ar? Nem pensar, nem penso: só mesmo no poema do Ascenso. Lilia foi fotografar as manifestações de raiz em vários locais – e lá fomos nós nordeste aforadentro, eu de fiel escudeiro.

Em João Pessoa, na concentração do tradicional Bloco do Boi do Bessa, em casa do artista plástico Clóvis Júnior, ensaiamos apenas um esquenta-tamborins. Pelo menos pra mim: Lilia me diz que os blocos “pessoenses” (é isso mesmo? Acho que Ariano iria preferir “parahybanos”, com rima e tudo) já vinham se esquentando desde a semana anterior, e olhe que ainda era apenas sábado à tarde. O bloco sai à cata de resgatar os velhos cajueiros e os bois das ruas do Bairro do Bessa. O Boi do Bessa existe há 14 anos, o mesmo número dos belos estandartes do boi com chifres de caju, criados a cada Carnaval, e que remetem à “estética Clóvis Júnior”, fundador e folião primaz.

Na copa da casa do artista, enquanto a batucada come solta na varanda, não só encaramos como também até mesmo comemos um inacreditável prato de favas ao lado dele e de sua mãe, foliã contumaz. Batidas a rodo, até mesmo de caju. Ao me oferecerem um suco da mais pura fruta, falo sobre o “caju amigo” do Carlinhos Niemeyer. Mas ninguém sabia o que era. Também, pudera: como poderiam nossos alegres-à-beça foliões paraibanos saber do carioca Carlinhos e de sua fantástica receita de uma talagada de cachaça rebatida por um espremer do próprio caju, tudo direto na goela do bebum-doidão?

No domingo cedo, empreendemos a empreitada por um Pernambuco pré-profundo: verde mato, verde mundo. Em plena Zona da Mata, a deles: não havia alpendre a se debruçar sobre o canavial, mas a paisagem me levou a João Cabral. Um canavial visto de dentro, um canavial literalmente viajante (enquadrado da janela do carro), no primeiríssimo plano de um travelling nordestino. E muito, muito canavial e travellings depois, no rumo daquela “prumada”, como nos indicou um caboclo, finalmente adentramos Nazaré da Mata.

Vem dali o Maracatu, como do morro o samba. Havia na praça um palanque e brincantes de muitas cores por toda a cidade. Mas não sentamos praça, que Lilia já conhecia o fuzuê de outros carnavais. Direcionados por um negro redondo e sorridente, que assume o papel clownesco da “Catita” na folia do Maracatu Rural – tomamos o “prumo” da estrada que leva ao Engenho do Cumbe, berço do Maracatu da Cambinda Brasileira, que completava 90 anos de folguedos nesse Carnaval.

Estrada de chão afora fomos devagar-devagarinho quase tropeçando em brincantes do Maracatu durante todo o trajeto Nazaré da Mata-Engenho do Cumbe. Um fantástico contraste entre suas coloridíssimas fantasias e o cáqui da estrada, com o verde da mata pernambucana projetando-se num plano geral ao fundo do quadro-paisagem. Olha que falo como se olhasse pelo visor da câmera de Lilia, que foto-filmava enquanto dirigia. Melhor ver o resultado no vídeo “Cores & Ritmo do Maracatu Rural”, disponível em seu blog na internet: http://liliatandaya.blogspot.com/. Está tudo ali, captado com precisão e editado com ótimo ritmo, como que seguindo a “cantoria de uma nota só” do Maracatu Cambinda do Cumbe.

Na segunda de Carnaval, pequeno “refresco” na própria Cabedelo. Uma ida pra rever o Jurandyr do Sax tocar o Bolero de Ravel na praia do Jacaré. Já ou/vira e me emocionara com o “Bolero do Jacaré” no ano passado, quando cheguei mesmo a entrevistar o Jurandyr durante o Cineport da Paraíba. Sou “vendido” pelo Bolero (quase que também de uma nota só) e me emociono à-toa sempre que ouço. Assisti no Rio a algumas das apresentações do “Boléro-Béjart” nos anos 1970, com performances do argentino Jorge Donn, no Municipal e no Maracanãzinho. E de novo ele, com seu Donn fantástico, em pleno Trocadéro, Tour Eiffel ao fundo, na seqüência final do filme de Claude Lelouch. E ainda, em 2006, a uma inovadora montagem vista em Paris, no Opéra Bastille. Maurice Béjart ainda vivo, e em cena o solo eletrizante da bailarina Marie-Agnès Gillot, atual estrela do Ballet de l´Opéra de Paris.

Lembrei-me do “Boléro-Béjart” naquela tarde porque – tal a multidão afim e no afã do espetáculo – não conseguimos ver nem Jurandyr nem o pôr-do-sol ao som do seu Bolero. Mal ouvíamos seu sax, ao som da tapioca-maravilha que mastigávamos num barzinho ao lado. Eta Paraíba-pau-pereira! Um abraço pra ti, pequenina, que já-já voltamos Pernambuco adentro.
| 4/4/2008 | 7:18:04 PM
Glauber-Cangaceiro


“Sou um artista. Não me exijam coerência”, disse um dia Glauber Rocha. Relendo ao acaso o livro “Glauber Rocha – Cartas ao Mundo”, organizado por Ivana Bentes (Companhia das Letras, 1997), vejo que marquei várias “tiradas” do cineasta baiano entre sua correspondência do início dos anos 1960, principalmente naquelas cartas dirigidas ao amigo e também cineasta Paulo Cezar Saraceni. Os trechos marcados, vejo agora, são por si só uma resposta à c...g...da que recentemente o cômico (?) Marcelo Madureira disse em público sobre Glauber. Literalmente: “Glauber é uma merda”. Não soube de alguém que tenha rido do Glauber. Mas, e da merda do Madureira?

Dona Lúcia Rocha, mãe de Glauber, disse que se o filho fosse vivo ele (Madureira) não teria coragem de dizer aquilo. Glauber para Saraceni, 1961: “Estou em luta com muita gente. Vou terminar dando tiro no Rio e em São Paulo. Você sabe que tenho sangue de cangaceiro”. E, em 1963: “Gustavo (o cineasta Gustavo Dahl) me escreveu sobre o Cahiers (um artigo da revista francesa Cahiers du Cinéma, que elogiava Glauber e Saraceni) e isto é ótimo. Justamente eu e você que Ely (o crítico Ely Azeredo) esculhambou. Com que cara ele vai ficar? Aquilo é um pobre-diabo; já disse a ele uma vez que se bulisse comigo eu ia dar porrada. Quando chegar ao Rio vou quebrar os óculos dele na vista de todo mundo, pra desmoralizar de vez e ele aprender a não bulir com baiano”.

Mas “o cangaceiro Glauber” era na verdade um ser sensível, que “pensava cinema” mesmo nas ocasiões mais inusitadas. Por email, e a pedidos (não me lembrava mais exatamente da história), meu amigo Saraceni me (re)conta o inacreditável episódio ocorrido quando da morte do pai de Glauber: “Caro Ronaldo, lá vai a história do pai do Glauber, que se chamava Adamastor. Morreu numa noite no Arpoador, em Ipanema, onde moravam. Glauber me chamou, às duas da madrugada. Lá fui eu para casa dele. Encontrei Dona Lúcia muito nervosa, me pedindo para convencer o Glauber a deixar que retirassem o corpo do apartamento, pois os vizinhos estavam reclamando. Glauber expulsou todos do quarto e, ficando só comigo e o cadáver do Adamastor, me pediu para contar o roteiro que eu tinha escrito sobre a Coluna Prestes, porque era a grande frustração de seu pai por não poder seguir com a Coluna, pois foi logo preso. Eu contei para Glauber e o cadáver do Adamastor meu roteiro. Glauber chorava e vibrava com o roteiro. Só quando eu acabei ele deixou que levassem o corpo do Adamastor”. Corte rápido.

Para (pára?) essa história do menino Madureira, metendo a merda da caceta no Glauber. Repercussão via jornal, e fico no Globo, pra não ir muito longe. Deus & o Diabo, muita gente a protestar. A Terra em Transe: sessão de desagravo, declarações de amigos de Glauber, Saraceni inclusive, e de colegas-cronistas, defendendo (discretamente) a “bostura” Madureira (que não chorou de dor, mas devia). Tudo é relativo e o (mal)dito pelo cu(su)jo do Madureira deveria era reverberar naquele “fala sério”, o bordão boboca de seu confrade Bussunda – o que, falando sério, já foi. Mas o humor dos cacetóides é mesmo rasteiro e pra lá de debilóide, coisa de meninos de primário, babacas & boçais. Ri quem não tem mais remédio nesse (neste?) idiotal planeta. “Você permanecerá pelo que fizer, criar”, disse certa vez Glauber para Saraceni, como se caceteando o caceta. A relação entre os dois cineastas é, aliás, um dos temas do belo e imperdível documentário “A Etnografia da Amizade”, de Ricardo Miranda. Na seqüência, a mesma morte que abate e o aceno para a “coerência revolucionária” em carta de Glauber para Saraceni, 1962.

“A morte de Miguel Torres (ator e roteirista, morto em acidente de jipe durante filmagens no Nordeste) me abalou muito, logo depois da morte de Mário Faustino (poeta, morto em acidente aéreo nos Andes)... subitamente vi um negócio terrível, que me apavora tanto, que é a morte... tenho a impressão de que a solidão humana só não é absoluta porque você tem irmãos em determinados momentos da história com os quais se comunica – lendo poetas mortos ou falando com amigos. A morte é inevitável, a vida não tem o menor sentido enquanto vazio, renúncia, recusa, humildade: você é na medida em que você está em relação com o mundo e faz. Importa apenas o que você fizer – você permanecerá pelo que você fizer, criar. Eis a vantagem de ser artista... o verdadeiro artista é um ser revolucionário; um ser em oposição, em luta consigo mesmo e com o seu tempo.

“Escrevo pedindo que você nunca se perca no seu caminho, embora ele seja tortuoso, duro de ser seguido. Já lhe disse mais de uma vez que você é um homem à margem e seria muito difícil você marchar com a história do nosso cinema, porque você vai na frente, assim como Humberto Mauro vai atrás e Nelson (Pereira dos Santos) vai conosco. Sobre isto, sobre Mauro, Nelson e você, estou fazendo um artigo para Sadoul (o crítico francês e historiador do cinema Georges Sadoul) publicar no Lettres Françaises. Tenho agora de escrever muito, pois esta crítica está demitida, falida, aniquilada pela burrice. O Brasil é um país morto-vivo, onde poucos homens pensam e fazem”. E, em 1963, também para Saraceni: “O cinema brasileiro é assim: Ganga Bruta evolui para Rio, 40º evolui para Porto das Caixas evolui para Vidas Secas evolui para o próximo filme seu, meu, de outro qualquer, entende? A gente faz grandes filmes porque nós somos cinema, nosso ser é o cinema e temos talento”.

Ainda em 1962, ainda para Saraceni: “Antonioni (Michelangelo Antonioni, o “cineasta da incomunicabilidade) só me interessa enquanto eu sou intelectual de superestrutura. Quando eu faço a redução pro Brasil subdesenvolvido e inculto eu vejo que a Europa é a história feita e nós somos a história a fazer, e nosso tempo é pouco, nosso passado é vergonhoso e temos de agir engajados na história. O Brasil de hoje não tem lugar pro artista romântico e sim para o artista revolucionário. Mas não um revolucionário da arte e sim da própria história. Estética hoje é uma questão política”.

Para o crítico baiano Walter da Silveira, em 1964: “Digo, humildemente, como Antonioni: não tenho mais pudores em me dizer um diretor intelectual. É crime ser intelectual em cinema? O músico, o crítico, o poeta, o pintor, o político é intelectual, não? Porque somente o cineasta tem de ser um mecânico e banir a condição de intelectual? Quem não é intelectual faz os filmes ruins, ou todos os grandes realizadores que nós amamos não são intelectuais? Talvez a massa não esteja preparada para o papel histórico que nós, intelectuais, desejamos que ela assuma. Respeitar o público é fazer mau cinema? Respeitar o cinema e sua História, aprender dos grandes mestres e evoluir & revolucionar para o moderno é crime contra o público? Onde começa o cinema e termina o público?”.

Enfim, há controvérsias. Oswald de Andrade disse um dia: “A massa ainda comerá do biscoito fino que eu fabrico”. Antonioni sim, Antonioni não: Glauber tinha razão. “Sou um artista. Não me exijam coerência”.
| 3/23/2008 | 11:41:16 PM
Para ler RW
O multiartista Jiddu Saldanha (pintor, poeta, mímico, cineasta) esteve em Cataguases no domingo, dia 16 de março, para realizar alguns takes do próximo filme da trilogia que está fazendo, tendo por base poemas de meu livro “Noite Americana/Doris Day by Night”. Filmamos a tarde toda e noite adentro. Na madrugada, Jiddu pediu que eu pegasse alguns livros e fosse lendo ao acaso que ele iria rodar e ver no que dava. O resultado está aí, improviso puro, até mesmo no making of. Um cinema possível, mais que provável de ser feito. Cinema (im)possível.

| 3/23/2008 | 11:16:35 PM
A noite do iguana


Bahia, 1964. Saída do Cine-Guarany: “Que bela fotografia, hein? Também, com o mestre Figueroa por trás da câmera só podia sair mesmo essa maravilha em preto-e-branco”. Quem me falava assim era o artista plástico Sante Scaldaferri. Acabáramos de ver juntos “A Noite do Iguana”, o filme que John Huston lançara naquele ano, baseado na peça de Tennessee Williams. Coisas de cada qual. O pintor Sante destacara a imagem, a esplêndida fotografia do mexicano Gabriel Figueroa (indicado ao Oscar daquele ano). Quanto a mim, estava mesmo era impressionado com o poema ditado no final do filme pelo poeta-avô Jonathan Goffin, o nonno de Deborah Kerr – o canto de cisne do ator Cyrill Delevanti, que morreria logo depois das filmagens. Ele foi indicado ao Globo de Ouro, junto com Ava Gadner, melhor atriz dramática, pelo papel de Maxine Faulk, a dona do Hotel Miss Malaya.

Nunca mais me esqueci de Delevanti já meio moribundo marcando o ritmo de seu belo poema com a bengala, enquanto ditava para sua neta. Outro dia, no Rio, encontrei o dvd do filme na Modern Sound. Não sabia de seu lançamento. Revi agora e percebo que conserva intacta a bela fotografia do Figueroa; o martírio do reverendo, interpretado por Richard Burton, oscilando entre todos os álcoois e todas as seduções da adolescente Sue Lyon (logo após fazer a Lolita de Kubrick) e da já meio-que-madura Ava Gardner. Ah!va Gardner!. Ela valia por todas, e acaba “ganhando” o reverendo Shannon/Burton. E, é claro, revi o poema de Tennessee Williams “escrito” pelo nonno – nada menos que emocionante. Que posso dizer mais, a não ser que saiu disso tudo um poema, ora pois. Esse que aí vai.

a noite do iguana

How calmly does the olive branch
Observe the sky begin to blanch
Without a cry, without a prayer
With no betrayal of despair

Tennessee Williams

no leme treme Tennessee
e seu solto iguana seu signo
do dia-noite atrás do dia
de um prior fantastic-indigno

john huston cede coco e rum
e burton bebe e be-bebum
trafega velhuscas turistas
e tentações lyon-lolita

gabriel na câmera foto
grafa fosca luz figueroa
luz mexicana ava-e-tarde
tesa na tela arde gardner

peixes frescos saltam no prato
vaga no écran ava qual eva
mar de maracas e mulatos
beach boys garotos de esfrega

tudo avatar tudo ava dar
na areia na água a suar
enfim se esfalfa a miss malaya
antes que a noite do céu saia

Com que calma o ramo de oliva.
Vê a tarde ficar menos viva
Nenhuma súplica ou ruído
Seu desespero não é sentido

deborah kerr crava dilemas
anota versos do poeta-
nonno que na bengala bate
um certo ritmo de poema

Um dia será essa luz tolhida
E então o zênite da vida
Terá passado e em tal momento
Começará um segundo alento

nada que é humano me enoja
deborah fala e se despoja
enquanto sacana o iguana
some na noite mexicana

e vibra o poema do nonno
a neta anota e quer deborah
que reverbere em ava e burton
e gabriel-huston e todos

Num intercurso inadequado
Para um matiz que é tão dourado
Pairar tal verde deveria
Por sobre a terra obscena e fria

sus! sacana some o iguana
solto na ante-luz mexicana
e em sua voz fraca o poeta
seu poema assim nos completa

Coragem! você não poderia
Fazer outra moradia
Não só no ramo tão dourado
Mas em meu coração assustado?
| 3/6/2008 | 11:50:35 PM
Modestamente!
Na guerra e no pós-guerra, a Itália era o país da bicicleta (e, na pobreza, dos “ladrões de” – vide o filme de Vittorio de Sica). Logo depois, o império da motorina, das lambretas. E logo-logo da febre dos automóveis, da macchina, orgulho e glória de onze entre dez italianos em louca disparada, ultrapassagens controvertidas e desenfreada buzinação asfalto afora. Este o ritmo, o acelerar de Il Sorpasso/Aquele que sabe viver, de Dino Risi – filme que adoro, mas que não vou contar. Quem viu, volte a ver correndo (e com todas as “ultrapassagens” possíveis). Quem não viu, corra logo: o dvd é encontrável nas chamadas boas casas do ramo. Só três lances rápidos, relembranças que valem por fragmentos emblemáticos de Il Sorpasso (pode também ser chamado de “A ultrapassagem”).

Primeiro, o personagem Bruno/Vittorio Gassman – como sempre incorretíssimo – “desconstruindo” a inocência da infância de Roberto/Jean-Louis Trintignant, na seqüência da visita a seus tios. Bruno acaba transando com a tia de Roberto, o fetiche de sua infância. Mais: insinua que sua outra tia traía o marido e que o filho deles era na verdade filho do capataz. Mais ainda: logo que chegam à propriedade, são atendidos por “Occhio Fino”, o mordomo todo “adamado”. Só Roberto parece não ter percebido durante toda a sua vida. Bruno: “Mas, como? Ele não engana ninguém. Você não percebe que “Occhio Fino” é “Finocchio” (gay) ao contrário?”. Na (perfeita) versão brasileira, o jogo de palavras resultou em “Chabi-Bicha”. Segundo lance, a cantada de Gassman em Lili/Catherine Spaak, quando ele a persegue, ela de costas a andar por uma praia. Quando ela se vira, ele vê que é sua filha. “Claro que foi brincadeira, imagina!”.

Terceiro, a famosa cena da dança “engoma-cueca” com Gassman e a mulher do Comendador, a coleante Gianna/Luciana Angiolillo. Tudo na presença do próprio Comendador, que está numa mesa a contar piadas de adultério para os convidados. Lá pelas tantas, após o endiabrado “torcer de um twist” (ele dá literalmente uma “bundada” em um dos dançarinos, um chega-pra-lá enquanto exclama: “pô!, eu estou criando”), a música ralenta e Gassman quase que se debruça sobre sua partner, fincando o queixo em seu ombro, no ardor do “é-pau-é-pedra”. Ela sussurra em seu ouvido: “U-lá-lá!!!”. É quando, afastando-se ligeiramente, Gassman diz num semi-sorriso safado: “Modestamente! Modestamente, Signora!”.

Isso sem falar nos estropiados e absolutamente desabonadores comentários sobre Federico García Lorca (“aquele poeta da Casada Infiel. Sabe, Roberto, aquele “meio assim-assim”?) e Michelangelo Antonionni. “Muito bom, esse tal de O Eclipse. Dormi o filme todo. Ótimo diretor, esse Antonionni”. Revendo o filme agora, fica também aquele cena onde o rapaz, já meio fascinado pelo modo de vida do personagem de Gassman, vira-se e diz terem sido aqueles dois dias os melhores de sua vida. E Gassman (sorrindo): Que importam as tristezas? Sabe qual a idade mais bela? É aquela que cada um tem, no dia-a-dia”. O próprio carpe diem.

Passo agora a palavra ao próprio Dino Risi. Ninguém melhor do que ele para falar de seu belo filme, como nesses fragmentos que traduzi de um antigo depoimento de Risi sobre como surgiu Il Sorpasso. “O personagem de Il Sorpasso nasceu numa viagem que fiz com um advogado milanês meio maluco, que um dia me levou de Milão a Varese para procurar a irmã, depois a Lugano para comprar cigarros, e depois me perguntou de chofre: “Você já esteve em Lichtenstein?”. E me levou para comer com o Príncipe de Lichtenstein, em cujo castelo conseguimos entrar mostrando a carteira de sócios do time do Milão, fazendo-nos passar por jornalistas. Assim, pensei em contar uma história parecida, que se completou quando fiz uma viagem de Roma a Maratea, em busca da locação adequada para as externas de A porte chiuse, um filme com Anita Ekberg.

“O produtor com quem viajava, outro maluco completo, era apaixonado pelo time do Roma a ponto de ter dado um chute no rádio quando, no trajeto, o seu time sofreu um gol. Tivemos que procurar um posto de gasolina, para saber o final da partida. Mas precisamos também de mudar de restaurante pois, num deles, o garçom suava nas mãos; no segundo, era a garçonete que fedia; e no terceiro, nós comemos pessimamente. Assim, chegamos a Maratea às três da madrugada, não encontramos sequer um hotel aberto – e acabamos dormindo no carro.

“Esse foi o segundo qüiproquó resultante de uma aventura automobilística, que me serviu como primeiro tratamento para o roteiro de Il Sorpasso: a história de uma bela amizade entre dois homens, que assustou o produtor Mario Cecchi Gori. Ele me disse, esperançoso: ´Se chover amanhã, terminamos o filme com os dois correndo ao longo da estrada e um final feliz´. Mas no outro dia não choveu – e filmamos o acidente com o qual eu queria que o filme terminasse. Estranhamente, esse final trágico conquistou o público, que sentiu o perigo que se esconde na vida daqueles que são felizes, mas pressentem o surgimento de alguma coisa de terrível. Isso foi tão bem compreendido que o filme alcançou sucesso em todo o mundo.

“Meu grande amigo nessa história cinematográfica foi Vittorio Gassman, com quem fiz dezesseis filmes. Il Sorpassso, por exemplo, começou muito mal, pois me recordo que no Cine Corso, onde foi feita a pré-estréia, havia ainda cartazes de um filme de Rossellini com Gassman, Anima nera, que ficou somente dois dias em exibição e depois foi retirado. Quem passava em frente ao cinema e via a cara de Gassman escapava de imediato, pois Gassman estava em um período em que era rejeitado pelo público. Para atuar no grande sucesso que foi I soliti ignoti (Os Eternos Desconhecidos, 1958), de Monicelli, quase mudaram todas as suas características, colocando algodão nas bochechas e abaixando sua fronte, dando-lhe praticamente uma cara de clown. Eu tive a coragem de usar Vittorio como era na vida, isto é, muito simpático, belo mesmo.

“De início, pensara em Sordi (Alberto Sordi, Roma, 1920-2003). Mas, quando falei com ele, Sordi me disse que temia se entregar totalmente ao papel e, no final, o mérito ir todo para o co-protagonista. Aconteceu também que, como Cecchi Gori devia fazer um filme com Gassman, tentamos nos aventurar com esse ator, embora não fosse um queridinho do público. O filme começou com cinqüenta pessoas na sala de exibição. Na noite seguinte, não eram mais que duzentas. Na terceira noite, era o jipe da polícia que mandava as pessoas de volta. A crítica só se tocou quando o filme caiu no agrado dos franceses, em particular da Revista Positif, que lançou a commedia all´italiana na França. Na Itália, esse gênero tinha alguma coisa de ´sucesso malvisto, recorrente´. Súbito, passou-se a falar da commedia all´italiana não mais com desprezo, mas com uma certa atenção – e começou a belíssima temporada que fez o sucesso de filmes extraordinários como Divorzio all´italiana, de Pietro Germi, e de tantos filmes de Pietrangeli, Monicelli, Comencini e até mesmo os meus”.

Modestamente, meu caro Dino Risi! Chiaro que mui modestamente.
| 3/6/2008 | 11:46:21 PM
A Ultrapassagem
Em plena viagem, e em meio aos “livros de”, sou quase atropelado na Libreria del Cinema, em Roma, pelo dvd de “Il Sorpasso”: súbita ultrapassagem. Tudo a ver. Ou a rever. Principalmente agora, após a leitura de um dos contos do ótimo Cybersenzala (Ed. Brasiliense, 2006), de Jair Ferreira dos Santos. Ali, desconfio que meu amigo paranaense andou trocando as bolas ao citar uma das (ultra)passagens, possivelmente a mais famosa, do filme de Dino Risi. Na verdade, o feroz bate-coxa de Bruno (Vittorio Gassman) na cena antológica da dança na boate não é com sua filha Lili (Catherine Spaak), mas com Gianna (Luciana Angelillo), a mulher do Comendador com quem ele mantinha atabalhoadas negociações. Volto assim a Il Sorpasso, não só para – “modestamente” – confirmar minha suspeita, bingo!, como pelo prazer de rever momentos marcantes de um filme que adoro. Um filme que ficou, desde que o vi no velho Cinema do Seu Nelo, na Cataguases do início da década de 1960. E ficou mesmo quando em constante movimento – orquestrado a cada fotograma pelo maestro Gassman, “Aquele que sabe viver”, como o filme seria conhecido no Brasil.

Pelo que sabe viver e por seu regista. Um dos mais prolíficos diretores da commedia all´italiana, ele realizou entre outros os filmes Poveri ma belli, Una vita difficile, Profumo di donna (com um Gassman arrasador no papel do cego, vivido depois por Al Pacino) e Il nuovi mostri. Teve amantes famosas, de Anita Ekberg a Alida Valli. Há treze anos não filma, há trinta e três vive isolado em Roma, há três tornou-se escritor (I miei mostri, Mondadori). Programou morrer no ano 2000. “Estou ganhando quatro anos”, disse em 2004. Mais quatro, até agora. Ele é Dino Risi (Milão, 1916), o roteirista e diretor de Il Sorpasso/Aquele que sabe viver. Pioneiro dos chamados road-movies – na verdade, Il Sorpasso (Milão, 1962) significa “A ultrapassagem” –, este é um dos filmes emblemáticos da explosão da commedia all´italiana naquela década.

Grande sucesso de bilheteria – e desde o início “bafejado pela sorte”, como disse Risi – Il Sorpasso, inspirou, segundo o diretor italiano, até mesmo o mitológico Easy Rider (“Sem destino”, 1969), de Dennis Hopper. Interessante notar que na América o filme de Dino Risi foi intitulado “The Easy Life”. Mais interessante ainda: a expressão “easy rider”, que dá nome ao filme de Hopper (com roteiro de Hopper, Peter Fonda e Terry Southern), pode ser atribuída também ao homem sustentado pela “namorada-que-namora-no-atacado”. Vamos dizer, o proxeneta e sua “prima-piranha”. O personagem Bruno Cortoni, vivido – e como! – por Vittorio Gassman, não chega a tanto. Mas derrapa (“modestamente”, é claro!) em sinuosas curvas femininas nas suas sucessivas e incorretíssimas ultrapassagens filme afora. Numa delas, como agora, minha atenção é cortada abruptamente pela capa do dvd – a imagem de Gassman ao volante de seu Lancia conversível, Trintignant a tiracolo, quase me atropelando na Libreria del Cinema, em pleno Trastevere.

Il Sorpasso é Vittorio Gassman (Gênova, 1922; Roma, 2000) em seu esplendor. É o jovem talento de Jean-Louis Trintignant. É o sacadíssimo roteiro de Ettore Scola, Ruggero Maccari e do próprio Risi. É o brilho dos diálogos, também escritos por Scola. É a trilha sonora de Riz Ortolani, com direito a “Quando, quando, quando” na voz de Emílio Pericoli. A “St. Tropez Twist”, “Don’t Play that song (You Lied)” e “Per un attimo”, tudo com Peppino di Capri. A “Vechio Frak” de e com Domenico Modugno. E a “Pinne Fucili Occhiali” e “Guarda come Dondolo”, as duas canções da dupla Rossi-Vianello, na voz de Edoardo Vianello. Principalmente a última, que marca o ritmo saltitante daquela Itália que se industrializava, tutti quanti se retorcendo ao som-twist dos anos 1960. É também muito da beleza então adolescente de Catherine Spaak, a valer mais que um parágrafo.

Em 1965, durante o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, eu e meu saudoso amigo, o cineasta baiano Olney São Paulo, fumávamos no foyer do Cine Bruni-Copacabana quando vimos ganhar literalmente todo o mar da “locação” uma jovem de longos cabelos negros, pele dourada e belíssimo porte, que adentrou a sala com seu mover sinuoso e a autoridade de um transatlântico. Do casco ao portaló, do verniz dos sapatos ao frufu do vestido, ela era toda uma viagem em vermelho. Nunca mais me esqueci dessa imagem de Catherine Spaak assim, vivaz e carmesim. E tão perto passou que eu e Olney sentimos a sua, vamos dizer, fragância – esse aroma a recender de cada poro e que só emana de animais magníficos e em toda a sua plenitude. Entramos para a sessão e Catherine sentou-se na fileira à nossa frente, o que me deixou particularmente perturbado, pois não sabia se adivinhava o esplendor da nuca por detrás de seus cabelos ou se me concentrava nas imagens de “Simão do Deserto”, o filme de Luis Buñuel que estava sendo projetado.

Na fileira de trás, a mexicana Silvia Pinal, protagonista desse e de outros filmes de Buñuel, cuja imagem eu via agora na tela, tentava explicar num “mexicanenglish” a Lucynna Winnicka, a “Madre Joana dos Anjos” (Matka Joanna od Anioláw, Polônia, 1961) de Jersy Kawalerovicz, o que se passava na tela, pois o filme, falado em espanhol e sem legendas, era incompreensível para a bela atriz polonesa. Lá pelas tantas, la Pinal – que me pareceu não gostar muito do filme que protagonizara – saiu-se com esse arroubo inesperado: “Buñuel hoje não é mais o mesmo. Você precisa ver a beleza dos filmes realizados pelos jovens cineastas mexicanos!”. Virei pro Olney e sorrimos, meio espantados com a tolice da falastrã.
Até hoje, lá se vão mais de 40 anos, não consegui saber desses jovens cineastas mexicanos e de seus filmes maravilhosos. Silvia Pinal perturbou toda a sessão, com suas explicações desnecessárias (imagem não carece de palavreado) e suas traduções capengas. A voz de la Pinal vinha direto aos nossos ouvidos. Os cabelos de la Spaak, à frente, a encobrir a nuca insondável. Na tela, Buñuel a apresentar uma Silvia travestida de colegial, nada a ver com a voz irritante que me chegava ao fundo. Sons e imagens em conflito: “Simão do Deserto” é para mim, até hoje, o mais impenetrável dos filmes de Luis Buñuel. Pudera.

Fui então “ultrapassado”, por Catherine Spaak, uma bela macchina ao vivo e em vermelho. Mas voltemos a Il Sorpasso, antes que acabe meu espaço. Spaak à parte, o filme é principalmente aquele que sabe viver, o folgazão Bruno Cortono (o vulcão Gassman, muito “gás/man”), ao volante de um turbinado Lancia Aurelia Spyder easy rider entre as estradas de Roma e da Toscana. A seu lado, o jovem carona-forçado, o mais que tímido estudante Roberto Mariani (Trintignant, retraído e cativo). No painel, um lance hilário: uma pequena foto de uma sorridente Brigitte Bardot com a legenda: “Seja prudente, eu te espero em casa.” Gassman mostra a foto e fala: “Bela ragazza, hein!”. Como se dissesse, ao ritmo da música, “olha como balanço”. Rapaz, guarda come dondolo. Na próxima coluna, o próprio Dino Risi conta como encontrou em Vittorio Gassman o seu personagem perfeito. Vejo Gassman a viver: “Ragazzo, olha como ultrapasso”.
| 12/12/2007 | 4:28:14 PM
Dry Milk no vídeo
Sob os auspícios da Diretoria do Fomento ao Audiovisual da Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais, alunos de uma oficina de vídeo da Secretaria de Cultura de Igarapé, Minas Gerais, acabam de fazer um belo trabalho visual sobre meu poema "Dry Milk" (do livro Selva Selvaggia, de 1976), colocando palavras em movimento. Isso é cinema, disse um dia Glauber Rocha. Vale para este vídeo. Transcrevo o email que de agradecimento que escrevi aos jovens de Igarapé:

" Olá, pessoal! Só pra dizer que adorei o vídeo de vocês. Adorei mesmo: editado no ritmo certo, com cortes precisos de imagens e grande riqueza visual. O jogo de vozes e a "massa sonora" casam perfeitamente com as imagens e engrandecem o meu poema. Maravilha!

Engraçado, e não sei se vocês sabem disso, que esse meu poema foi escrito inicialmente para ser letra de uma canção que eu e o compositor paraíbano Marcus Vinicius faríamos para o filme " O País de São Saruê", de nosso amigo Vladmir Carvalho. Acabou saindo o meu poema e a canção do Marcus, que terminou recebendo letra dele mesmo e virou canção-tema do filme.

O País de São Saruê (e se vocês não viram corram pra ver) tem imagens muito próximas das que vocês captaram/elegeram para o vídeo. Só que mais secas, filmadas em p&b pelo então iniciante Walter Carvalho em pleno sertão nordestino. Um (mais que saudável) festival de coincidências e uma espécie de retorno às origens, pois vocês fizeram do meu poema (e com grande talento), o que eu queria fazer com ele desde o início. Ele foi pensado para "dialogar com imagens", exatamente a forma com que vocês o vestiram agora. E tudo enriquecido pela (re)leitura gráfico-visual que dele fizeram. Fico honradíssimo por ter contribuído com meu poema para o belo trabalho de vocês.

Parabéns! Daqui da Zona da Mata, Cataguases saúda Igarapé. Viva!

Abraços,

Ronaldo Werneck.



O link para ver o "Dry Milk de Igarapé" é Dry Milk
| 12/10/2007 | 4:52:33 PM
Bravo, Jiddu!
Mímico, poeta, agitador cultural, o multifacetado artista Jiddu Saldanha é agora um criativo videomaker, como se vê por este filme que ele realizou a partir de dois poemas meus. Bravo, Jiddu!

Dois Poemas
| 12/10/2007 | 12:30:27 PM
Movido a álcool
Amador, a princípio – mas logo puro profissional da mais baixa (ou alta, depende das doses do enquadramento) estirpe de bares & balcões de botequins os mais diversos e safadins – eu bebi de tudo um muito por quase 30 anos, dos 14 aos 44. Conheço ainda hoje – melhor, localizo-me ainda agora – (em) várias cidades do in(ex)terior por (débil) mental mapeamento “hidráulico”: não sei as ruas e seus nomes, mas sim onde estão as vendas, armazéns, empórios, restaurantes, bares, boates, botecos & butiquins onde bebi, onde bebi, onde bebi. Um poetanol por excelência, tal como aquele Nouas, o poeta árabe que só poetava às expensas de altissimas libações etílicas. E cujo nome “nomeou” famosa cerveja argelina, uma das maravilhas árabes de minha estada em Argel no final da década de setenta. Na coluna de hoje, e na próxima, um pouco do que restou na memória desse tempo movido a álcool – agora que acabo de completar vinte anos sem combustível. O carro ainda anda, mas tem hora que custa a pegar. Com tônica & guaraná a marcha é lenta, mas segura. Como (não) dizia meu amigo Waly Salomão: “– (Não) me segura que eu (não) vou dar um troço!”. E soltem os tremoços!

Na noite em que Rosário Fusco morreu, falei com o Ziraldo por telefone e combinamos que eu faria um artigo pro Pasquim. Eu ainda estava chorando quando fui pra máquina, a velha e imbatível Lettera-22.. Meia hora e três doses de uísque depois estava pronto um texto apaixonado sobre o romancista, que foi publicado no Pasquim naquela semana de agosto de 1977. Havia seis meses que eu não via o meu amigo. A gente havia “brigado” por conta da entrevista que havíamos feito com ele, eu e Joaquim Branco.

Aliás, pro próprio Pasquim: uma garrafa de gin pro Fusco, umas dez doses de uísque pro poetinha, este aqui. Só podia dar no que deu: telefonemas, cartas, até telegramas esculhambativos de ambas as partes: “eu não disse isso, vou te processar, vou processar o Pasquim” – “Disse sim, está gravado (pelo menos na memória, pois Fusco detestava gravador), não vai processar droga nenhuma”. Enfim, um etílico e diabólico qüiproquó.

Fusco amava as bebidas como amou as várias mulheres que passaram por seus curtos 60 e poucos anos de vida (um “sex-appeal-genário”, como gostava de dizer, citando Oswald de Andrade). Exatamente como se entregou às mulheres, uma de cada vez, se entregou ao álcool: gin este mês, uísque no outro, conhaque no outro. Jamais misturava as coisas, mulheres ou bebidas. Era um fiel apaixonado, um furacão de criatividade, amor, ódio, talento.

E assim cumpriu sua trajetória neste mundo. Lúcido, mesmo encharcado de álcool, vociferando do alto de seu metro e noventa, terno, amigo, arrumando mirabolantes empregos pra Deus e todo mundo, esse misto de italiano e mulato (“saco azul, cinta encarnada”, como dizia) foi devorado pelo álcool e morreu sem escrever sequer metade da grande obra que poderia ter feito. Annie, sua última mulher e seu grande amor, me diria mais tarde que pouco antes de morrer ele ainda bebeu sua derradeira dose de uísque em pleno hospital. Folclore? Chi lo sà?

Um ano antes de sua morte, minha ex-mulher Adriana Monteiro – autora das fotos da entrevista do Pasquim –, teve uma desidratação em Cataguases e passou a noite internada. Eu fumava no corredor do hospital quando passou uma enfermeira conhecida, dizendo que o Fusco estava internado no quarto ao lado. Ao abrir a porta, achei que entrara no lugar errado: o quarto daria inveja a qualquer botequim. Garrafas para todos os lados, fumaça e alegria.

Fusco contava uma piada para as enfermeiras. Havia subornado todas elas para que contrabandeassem uísque e cigarros para seu quarto. Recebeu-me efusivamente: e não descansou enquanto não estourou uma garrafa de champanhe para bebemorarmos nosso reencontro. Era o mesmo Fusco, equilibrando-se como sempre entre o soro, o sonho e o não sei quê do álcool de cada dia.

Quando o romancista William Faulkner veio pela primeira e última vez ao Brasil, tomou um porre terrível no avião, bicho que definitivamente detestava. Ao descer as escadas, olhou a cidade (São Paulo) e berrou naquele inglês do Mississipi: “Não, não vou descer! Isso é Chicago!” – e voltou. De certa forma, Fusco faria a mesma coisa. O medo do avião o deixou praticamente um mês num hotel de Copacabana, já com passagem marcada, aguardando uma inesperada conexão para Paris, devidamente bêbado e preocupando mulher e filho. Bêbado e brilhante, como sempre.

Lembro que nesse meio tempo fomos ao tradicional almoço que o Zé Olympio dava todas as sextas-feiras em sua livraria. Antes, havíamos tomado uns quatro uísques per capita num botequim do Leme, onde eu morava (no Leme e às vezes no botequim, o Boca Seca) e havíamos deixado a Annie na Sears fazendo compras. Eu e Fusco caminhávamos pela praia de Botafogo aí por volta de mezzogiorno, já devidamente bêbados. Duas figuras de almanaque: Fusco altíssimo, com os sapatos na mão (os pés estavam tão inchados que não mais agüentava calçados); eu possivelmente trôpego, tropeçando na barba e no que mais pintasse na minha frente.

Antes do almoço, Zé Olympio chamou-me ao seu escritório, pra dizer da sua preocupação com o Fusco, sua saúde, com suas mamas que estavam muito crescidas. Combinamos então de levar o Rosário pro Pelegrino Jr. dar uma olhada. Qual o quê! Fusco falou que jamais, jamais de la vie. Primeiro, porque não acreditava em acadêmico, segundo porque o Pelegrino não escrevia lá essas coisas. E ele não confiava em quem “não escrevia lá essas coisas”, entenda quem quiser. Era assim o meu amigo. As mamas crescidas eram um indício da doença que iria derrubá-lo. A confiança em seus princípios, e em quem escrevia bem, um indício do que iria perpetuá-lo – pra mim, certamente. Para seus leitores, quem sabe?

| 12/3/2007 | 3:14:47 PM
(Re)movido a álcool
Bêbado, Rosário Fusco subornou certa vez um motorneiro, e assumiu a direção de seu bonde, de boné e tudo – e de Copacabana ao Largo do Machado foi fazendo aquela algazarra federal na sonolenta madrugada da capital então idem. Tudo sob o olhar também etilicamente espantado de seu amigo Lúcio Cardoso, ilustre passageiro devidamente encarapitado num dos bancos de trás.

Um maluco maravilhoso que dançou com Grace Kelly no Quitandinha e me diria 20 anos depois: “o sovaco da princesa fedia paca”. Quando Orson Welles, a quem conheceu no Rio, comprou os direitos de seu romance “O Agressor”, Fusco me soprava, entre uma tragada e uma talagada: “não sei o que ‘o atleta’ viu no meu livro”. O filme nunca foi feito, mas Fusco recebeu seus dólares – devidamente transformados em uísque.

Enfim, Fusco era um bêbado terrivelmente talentoso. E talentoso é palavra que conheço. Bêbado, eu evito. O que o Fusco escreveu custou um câncer, várias amolações e algumas inúmeras caixas de uísque e outros álcoois do momento. Valeu a pena? – Quem sabe, minha pequena! De