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| 6/5/2008 | 8:44:27 PM
Bossa Nossa/ Lado 2
É Lúcio Alves quem ouvimos agora na faixa de abertura do Lado 2 deste Bossa Nossa. O Lúcio que vem ao vivo, com aquele cheiro-Djalma Ferreira. Aquele cheio de saudade. Não o Lúcio Alves que também mereceu capa de cara “clean” & concreta assinada por César Villela – e com sua marca por excelência: o preto-e-branco predominante, foto constrastada, discretíssimos detalhes em vermelho naquele elepê Aloysio Oliveira/Elenco, ouvido na casa do Carlos Sérgio. Mas sim o cataguasense Lúcio Alves Ciribelli (que ele também era coisa nossa), cuja voz surge de uma casa na Avenida (qual? quando?), a gente sentado no chão da sala, silêncio & ouvidos absolutos – o outono enfim no coração só pra ouvir a impecável “versão Lúcio” da canção de Ferreira que ficara famosa na voz “Drink no Rio” de Miltinho: “É aquele cheiro de saudade/ que me traz você a cada instante/ folhas de saudade, mortas pelo chão,/ é o outono, enfim, no coração”.

É. É talvez que é tempo de saudade (“trago o peito tão carregadinho”), pois volta súbito um táxi subindo a Rio-Petrópolis, junho de 1969. Eu e o motorista no banco da frente; atrás, Lúcio Alves e a cantora (e também “certinha” do Stanislaw) Luely Figueiró. O destino? Adivinhem! Lúcio ia/vinha pro júri do 1º Festival de Música Popular de Cataguases, que eu organizara com o poeta Joaquim Branco, e Luely pra defender a canção “Momento”, de Messias dos Santos. O Messias que aqui retorna – depois de ouvir com o Acir, em 1959, a Canção do Amor Demais na loja do Comissário, vide Lado 1: retornar é sina dos Messias.

“Momento” era do Messias com letra de Afonso Vieira, o Afonsinho da Bateria, que volta à cena numa das faixas, perdão, parágrafos adiante. Nesta, e por enquanto, o que ouvimos são mesmo os sincopados semitons de Lúcio & Luely, que cantam Ismael Netto/Antônio Maria na Serra de Petrópolis, ainda agora e a duas vozes. E olha: bem que eu quis escrever um poema de amor, e o amor estava em tudo o que eu vi, o que ouvia , em tudo quanto eu amei naqauele momento. Mas no poema que eu fiz tinha alguém mais feliz que eu: o meu amor que não me quis (eta fossa, sô!). E olha o vento, esse vento do mar em meu rosto. E o sol a queimar, queimar. Calçada cheia de gente a passar e a me ver passar.

O Rio que por nós passava naqueles tempos era mesmo o das calçadas da Copacabana de Antônio Maria, do brilho de seus textos, do seu humor escancarado em paradoxal convivência com suas letras “down by the river side”. Aquela coisa de ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire – tudo, é claro, na voz dilacerada & fossa-pura de Nora Ney (que volta aqui após aquela mal-sucedida incursão no “Rock Around” que nos trouxe a já famigerada vitrola do Comissário). Mas o engraçado é que foi o próprio Antônio Maria quem escreveu logo de cara sobre a “bossa” de João. Fala, Maria: “João Gilberto será sempre o violeiro manso que, tirante o amor, tem medo de tudo. Tempestade, guerra, faca de prata, febre terçã. De tudo ele receia. Menos do amor. E sua voz rumoreja uma porção de palavras que sabem os caminhos dos corações sensíveis. No peito, a viola. Não sei de quem toque de maneira tão esquisita, tão fácil de sentir. Tinha que ser entendido, um dia”.

Qual o quê, Maria! Até hoje esse tocar esquisito do João parece não ter sido devidamente entendido. Não só “quem toque assim”, mas também “quem cante assim”. É, Maria. Veja agora as quebras e requebros de suas palavras, o seu cristalino silabar e diga lá o que é isto, diga lá junto com seu rival Ary Barroso, Maria. Isto aqui o que é, bim-bom, João-João, o que é essa morena boa que me faz penar, mas olha só o remelexo que ela sabe dar, olha como João pega carona com Haroldo Barbosa e diz adeus ao boogie woogie e ao swing também, pois isso aqui é um pouquinho de Brasil e o samba mandou nos chamar.

E olha que toda a “poesia” da Bossa Nova – Tom Jobim à parte – encontra-se no fraseado e no tom inovador de João, com seu dizer-não-dizendo, sua dicção reinventada – um João pleno de sons e permanentes surpresas. O cantar escandido, a pronúncia exata como nunca se ouvira – só aquele inglês silabado e corretíssimo de Sinatra poderia ser um parâmetro. Vinicius falava em emissão perfeita, num texto de 1965: “Bossa Nova é o canto puro e solitário de João Gilberto, eternamente trancado em seu apartamento, buscando uma harmonia cada vez mais extremada e simples nas cordas de seu violão e uma emissão cada vez mais perfeita para os sons e palavras de sua canção”. É isso. Estavam certos Antônio Maria e seu grande amigo Vinicius (“fala, Poesia”) de Moraes: a bossa toda era/é mesmo João. E sempre no tom (de) Jobim.

Na segunda metade dos anos 60, aquele Rio de Antônio Maria era pra mim Copacabana e um Edifício chamado 200, nome de peça do meu amigo Paulinho Pontes, que morava com Bibi Ferreira numa rua das vizinhanças – e que deu aquele título possivelmente influenciado por tanto eu contar pra eles aquelas inacreditáveis “histórias do 200”. Ali morei com dois bateristas, o conterrâneo Afonsinho e o paranaense Tião, meus grandes amigos até hoje. Era música, eram músicos dia-e-noite, night´n´day jazz & bossa. A maioria dos músicos da noite morava na Zona Norte e nosso apartamento – situado no meio de emaranhado de boates, casas noturnas e inferninhos de toda espécie – era o endereço certo, o ponto de referência onde trocavam de roupa, batiam papo, tomavam umas & outras, ensaiavam e, às vezes, até mesmo compunham.

Pelo apartamento da Barata Ribeiro, 200, passaram – citando assim ao “vai-do-samba”, que a turminha não era de encarar uma valsa – o Juarez do Sax, o baterista Robertinho Silva, o grande guitarrista Írio de Paula (que está na Itália há 40 anos, ou mais, desde que pra lá foi com o Afonsinho e Elza Soares – e pelos trasteveres dessa vida se embrenhou pra sempre), o Reizinho da bateria, os baixistas Tuca e Totó, o Celinho do pistom, o saxofonista Zito Righi (que logo depois seria “Bob Fleming”, atuando nos bailes dessa vida no lugar do Moacir Siva, com o Afonsinho no comando da bateria), o compositor Mário (irmão da Silvinha) Teles e o baterista Milton Banana. Este estacionava toda noite no botequim lá embaixo, e sempre me perguntava pelas cotações da Bolsa, pois Banana acreditava que eu era no mínimo um “broker” do pregão, dado eu andar invariavelmente de terno. E ainda o não menos Milton Nascimento, que chegava de Minas pra defender sua Travessia naquele Festival, lembram? E, também de Minas, o pianista e arranjador Wagner Tizo – que morou conosco por uns dois ou três meses.

Ah sim, abro outra faixa-parágrafo, pois o “Barata Ribeiro, 200” tem história – Paulinho Pontes tinha razão ao escrever sua peça. Um dia, distraído, abro a porta e sou quase atropelado por uma moto, que vinha a toda pelo imenso corredor que abrigava não sei mais quantos apês por andar. Chose de loque. Mas louco mesmo era o saxofonista Tranka, um arranjador conceituado e genial. Amigo do Tião, Tranka baixava sempre lá em casa e às vezes ficava dedilhando um velho violão jogado por alguém na sala. Um dia, aparece o Martinho da Vila. Tranka ia fazer o arranjo de uma música dele (qual mesmo?) que estava concorrendo a um dos muitos festivais da época. Martinho chegou cobrando o arranjo, e não deu outra. Tranka pegou o violão e fez o arranjo na hora, assim como quem não quer nada. A música foi grande sucesso no Festival. Detalhe: para desespero de Martinho da Vila, o violão tinha uma corda a menos.

E a figura impoluta do pianista Paulinho Cego, minha gente? Sempre sorrindo, de bem (como ninguém) com a vida. Um dia, alguém trocou suas meias de pura sacanagem. Lá foi ele, pimpão como sempre, nem aí pras meias – uma vermelha, outra marinho. Contaram pra ele, mas Paulinho fez que não sabia (“cego tem dessas vantagens, Ronaldo”).

Só o vi enfurecido quando, apertado pro pipi, alguém lhe deixou como mictório o capô de um carro estacionado. Dia claro, sol em meio, o motorista com a namorada do lado quase enche nosso ceguinho de porrada. Ufa, dessa vez foi por pouco: Paulinho dava murros cegos e em vão no ar, aqui e ali, que nem Muhammad Ali. Mas a melhor dele foi com o Afonsinho. Os dois já prontos pra descer, show-time, e já atrasados para entrarem na boate, quando falta luz. Seis andares no escuro, como é que fica? Paulinho vira-se pro Afonsinho: “põe a mão no meu ombro, bicho, que dessa vez é o ceguinho quem vai guiar a parada”.

Pois é, isso aqui é também um pouquinho de Brasil, desse Brasil que canta e toca, né seu Ary?, dessa gente que às vezes até é feliz-infeliz. Eles todos que no 200 baixaram e também a inacreditável penca dos demais músicos a circular sua solidão pela madrugada de Copacabana – a ver a calçada vazia, ninguém a passar, ninguém a os ver passar. E mais ainda: uma pá de garotas da noite, da bossa e da breca, que acabavam buscando caliente acolhida em minha cama, a única de casal do famigerado apê do 200. Pois é, as moças da noite amanhecendo em minha cama e eu tendo que cumprir meu ofício... no Banco do Brasil, é claro, onde batia ponto invariavelmente às nove da manhã. Semana que vem, a Bossa Nossa prossegue: faixas-bônus.
| 5/29/2008 | 8:45:15 PM
Bossa Nova/ Lado 1
Na geografia afetiva da época, as ruas da Cataguases 1950 eram rebatizadas por afinidade. Era assim a rua da Maizé e do Zé Luiz, a da Elvira, a do Carlos Sérgio, a da Maria do Carmo, que também era a minha. A cidade girava em torno da praça e de seu entorno – não uma “Rui Barbosa” qualquer, como tantas outras, mas a “nossa” praça Rui Barbosa, entoada com todos os erres. Um largo entorno que passava pela rua do Sobedesce, chegava à praça da Igreja, descia a rua dos Estudantes, atravessava a Avenida (sempre “Avenida”, jamais “Astolfo Dutra”) pra subir o morro de terra do Colégio (não havia Avenida Humberto Mauro, nem dele sabíamos ainda).

Na volta do Colégio, o dia em meio, jogávamos pedrinhas no córrego Lava-Pés – só pra fazer chuá-chuá, que coisa mais supimpa! – e subíamos famintos a rua da Estação. Às vezes, enveredávamos pela rua do Carlos Sérgio (a única no mundo que “descia pra Cima”, a Cia. Mineira Automobilística) e seguíamos em direção à rua da Maria Cristina e da Mabel, para deixarmos as duas meninas na casa da rua do Pomba, a casa do nosso diretor (que sequer imaginávamos, imagina!, ser assinada por Niemeyer), o Doutor Francisco (que mais tarde, quando já éramos “colegas de escriv´ânsias”, acabou mesmo sendo chamado afetuosamente de “Chico”, Chico Peixoto). Outras vezes, descendo do Colégio, esticávamos por outras bandas & esquivanças e subíamos a rua do Mete-em-Pé. Mas eram subidas inocentes, como de resto tudo o mais.

E agora – lá se vai meio século, e morando na Avenida, exatamente na cândida perpendicular do Mete-em-Pé – saio de novo a procurar o som daquele tempo. Não, meu caro Acir, nada daquilo que você, Vatinho e Messias ouviam na praça, na minúscula lojinha do Comissário José Thomaz – que se chamava, é claro, “Miniatura” (gracias, Antônio Jaime!). Nada da batida cool da Bossa Nova, nada do violão de João. Nem lugar há mais pra isso. Pelas ruas o que se vê é ainda uma gente que nem se vê. E nem marcha-rancho. Nem Lyra-Vinicius.

Pois o que agora ouço, e com profunda irritação, não é mais o apito da fábrica de tecidos, que silenciou como aquela do Noel. Mas sim o apito do trem, que leva nossa bauxita e paciência Avenida afora. E parece nos passar um pito a apitar assim, a rir de nós assim – a tremer nos trilhos assim, esse gaiato que lá vai a buzinar com estrondo. Parece filme do John Ford. Só que somos os índios. O quê? É, os ín-di-os! E devidamente ensurdecidos. Dá vontade de no trem meter em pé (mas de guerra) um trovão de volta. De destampar com um estridente A wop-bop-aloo-mop-alop-bam-bom, de rachar com um Little Richard os ouvidos do maquinista – que nos sorri com ar de pateta e ainda acena para idiotas como nós, que se debruçam pelas varandas a varar suas vaias contra o vento.

Só depois que o trem passa posso no passado pensar. Posso por essas ruas passar. “Velho caminho/ por onde passou o meu carinho/ chamando por mim.// Caminho perdido na certa,/ caminho de pedra onde não vai ninguém.// Só sei que hoje tenho dentro de mim/ um caminho de pedra no peito também”, cantava “Tom & Vinicius” aquela Elizete do “Caminho de Pedra” de Canção do Amor Demais. Tempos de “um olhar desesperado/ a derramar melancolia em mim/ poesia em mim”. Mas na verdade a poesia ainda não mandara me chamar. Nem o samba com essas novas bossas. Eu queria mesmo era rosetar.

Melancolia em mim, poesia em mim? Vê se derrama pra outras bandas. Aquele Vinicius de letras ainda empostadas, que vinha lá dos tempos da busca pelo “Sublime”, não me dizia nada. Aquele negócio de “assim como o poeta só é bem grande se sofrer” – que surgia do Vinicius em diálogo como o “Absoluto”, aquele dos anos 30, de “Forma e Exegese”, de “Ariana, a Mulher” e até dos “Novos Poemas”, de 1938 – não me motivava “em absoluto”. Aquele letrista ainda apegado aos “males inevitáveis do amor”, aos desencontros e sofrimentos na linha do amor cortês medieval – que emblematizava o sofrimento como único caminho para as epifanias do amor –, aquele Vinicius não “calava” em mim, porque em mim não repercutia.

Mais eis que o mundo começacaba mesmo em Cataguases. Ou daqui se inicia, se alça para a partida. Pois a canção, como naquela mesma e exata letra de Vinicius, “só tem razão se se cantar”. Inclusive com esse melódico “se-se”, ciciar de pássaros, canto de cigarras. A Bossa Nova passou por Cataguases – tudo passa por aqui, ou vocês duvidam? – quando ainda nem se sabia como tal. Lembro de Vinicius no Colégio Cataguases, numa manhã qualquer dos anos 50, talvez 1957-58. Camisa vermelha, cabelos grandes e (ainda) grisalhos, sapatos mocassim sem meias. Os mesmos e confortáveis mocassins da “Moreyra” (usados também pelos “Chicos Peixotos”, o pai e o filho), que eu mesmo iria adotar ao me estabelecer no Rio, meados da década de 60. Era o poeta de quem eu tinha “vaga notícia”, pai do meu colega Pedrinho (sempre a “filar” minhas “vinte”, as bingas de meus cigarros da época, o sem-filtro e arranca-peito “K-Tall”) – esse tal de Vinicius de Moraes, que nos chegou muito descontraído, e muito cariocamente nos falou no Grêmio Literário Machado de Assis sobre poesia & coisas quetais. Prestei mais atenção em seus mocassins sem meias, seu indistinto charme bossanovista.

Havia também um violão pré-bossa, tocado por outro interno do Colégio, o Dori, que namorava uma daquelas meninas da minha rua, filha do Seu Nogueirinha (Maria, Maria do Carmo, Terezinha?). Na varanda das Nogueirinhas, ouvi atento e por várias vezes aquele violão batuta, a voz rouca de meu colega Dori a cantar aquelas canções de pescadores, de uma aparente simplicidade – na verdade sofisticadíssimas. O mar da Bahia chegou-me assim, com a melodia de seu pai, um certo Caymmi. Mal sabia eu que menos de cinco anos depois, 1964, iria também morar na Bahia de São Salvador – e baiano por pouco não me tornaria, tal a porretíssima força de baianidade tamanha que baixou em mim, ó minha Menininha!

Foi então, nesse vai-não-vai, que o que Bossa viria a ser já me vinha de viés e ao vivo naquela Nova Cataguases de nunca mais anos 50 – do violão de Dori aos mocassins de Vinicius. Mas ouvida mesmo, e com atenção, acho que só em 1960. Era o som que “descia pra cima”, que ro(n)dava em nossos estudos na vitrola da casa do Carlos Sérgio. Junto com um ou outro Sinatra, predileção do nosso pianista Paulino. Lembro-me de “Sinatra Sings for Only the Lonely”, particularmente daquela canção de Nelson Riddle, “Ebb Tide”, que hoje pode ser encontrada no “youtube” – numa curiosa versão como pano de fundo para a famosa cena do assassinato de Janeth Leigh na banheira, no clássico Psicose, de Hitchcock.

A batida inovadora de João Gilberto, aquele violão “desencontrado” que acompanhava a Elizete em “Chega de Saudade”, quem percebeu de cara foi o Ernesto. Que não morava no Brás, mas foi quem primeiro nos convidou praquele novo tipo de samba. O Ernesto Guedes, que sempre intuía o novo e que logo nos trazia, “gilbertista de primeira hora”, o elepê inaugural do João, “O Amor o Sorriso e a Flor”. Um título que vou te contar. Mas com uma virada de viola e uma dicção tão perfeita que parecia aquela onda que surgiu no mar. E a capa? Cara, a capa era aquele nada que é tudo. Tudo branco, com discreta inserção de suave tipologia, em pequenos caracteres com o nome da gravadora (Odeon), do autor e o título. Logo abaixo, uma breve assinatura “João Gilberto”. Uma foto solarizada de João & violão no canto esquerdo, e é tudo. Tudo-quase-nada (o)usado pelo programador visual César Villela, o mesmo que faria logo a seguir as capas da gravadora Elenco, do Aloysio de Oliveira. Mas isso já faz parte do “Lado 2”. Semana que vem, viramos o disco.
| 5/14/2008 | 2:07:06 PM
O rock do Comissário
Na eletrola, a agulha sobre o vinil e o mundo a girar 1958 adentro. O som era o do Zé Comissário. Na Cataguases da época, “Comissário” era aquele sujeito pago por “comissão” como o Zé, que ia semanalmente ao Rio para levar e trazer encomendas. E que aproveitou pra abrir pequeníssimo ponto de vendas no esmirrado hall ao lado do Cinema Cataguases – discos, chocolates, chicletes ping-pong e cigarros Minister, a grande novidade das primeiras baforadas com filtro. Tudo ali naquele canto, subida pro Clube Social e descida pro Porão do João Tatu, a toca freqüentada pela maçonaria dos sinuqueiros. Exatamente onde agora funciona a Maçonaria, a outra.

Hoje Edgar Cine-Teatro, o Cinema Cataguases – instalado no novo prédio aberto em 1956, onde funcionara o velho Cine-Theatro Recreio dos tempos de Humberto Mauro – era naturalmente chamado de “Cinema Novo”, também para se distinguir do velho “Nelascope”, como eu chamava o Cinema do Seu Nelo Machado, na diagonal da Praça Rui Barbosa. E, como sempre antevendo o futuro – pois o presente, olhaí, já é passado –, Cataguases inaugurou o seu verdadeiro Cinema Novo antes do movimento dito como tal. Bem verdade que “Rio 40º”, o filme-seminal de Nelson Pereira dos Santos, é de 1955. Mas verdade mesmo é que o Cinema Novo, o “deles”, só ganhou esse nome bem depois, já nos anos 60. A gente de Cataguases já ia ao “Cinema Novo” em 1956: não há controvérsias.

E ouvia-se de lá a vitrola do Comissário. De lá do Porão do Tatu, digo eu, que ali ensaiava novas tacadas e assistia – pura fascinação, I know – aos inacreditáveis lances daquelas memoráveis partidas de bilhar entre Aristides Braga e Elton Santos, coisa de gênios. O som que descia pela escada já vinha alto de nascença e não havia razão prum antecipador “aumenta que é rock´n´roll”. Vinha de lá o "negrimoral” Chuck Berry, o papa-mocinhas Jerry "The Killer" Lee Lewis, o adamado Little Richard e a sex-coqueluche Elvis "The Pelvis" Presley. Mas nada disso sabíamos ainda. Só que aquilo era o tal de rock´n´roll, que a gente ouvira pela primeira vez do outro lado da praça, naquele “filme do Glenn Ford” no Nelascope, o Sementes da Violência/Blackboard Jungle, e logo naquele outro, Ao Balanço das Horas/Rock Around the Clock, com o Bill Halley e seus Cometas, que além da vibração da música-título nos apresentava Only You e See you Latter Alligator.

E tudo isso a combinar com o chiclete de bola, o cigarro com filtro, a camisa vermelha e a calça Lee dos alunos internos do Colégio Cataguases. Que quase sempre vinham do Rio de Janeiro e ganhavam, com o devido perdão, todos os “brotinhos”, mas – ó tangas, ó mangas! – eram nossos eternos patos na sinuca e nas notas mensais. Exceção feita pro Chico Buarque de Hollanda, o próprio, que costumava brilhar, o safado, nas lides das notas escolares. “Também, pudera!”, disse alguém, “o cara é filho do homem do dicionário!”. Contei isso pro Chico anos depois, quando seguíamos, velhos atletas, pruma partida de futebol do Politheama no Recreio dos Bandeirantes. Ao volante, “o filho do homem do dicionário” quase bate com o carro, tamanha foi sua risada.

Coisas que agora retornam, trazidas pelos contraventos de um email de meu amigo Acir Vidal, o comandante-em-chefe do “Contraovento”, mordaz & movimentado blog que ele posta lá de Vitória de todos os Santos Espíritos, inclusive os de porco – e que até mesmo os meus “Há Controvérsias” abriga. Sem brigas, sem nada demais. Assim diz Acir: “Ronaldo, meu querido. Em 1958/59 eu ouvi pela primeira vez o João Gilberto cantando Chega de Saudade, num disco 33 RPM, na loja do Zé Comissário, na entrada do Clube Social. Eu estava com o falecido Vatinho, Jones Walter de Mello, o Messias e não me lembro mais quem. Ouvíamos discos também lá na loja da Belinha, cujo nome da loja me esqueço, e que ficava em frente onde hoje é a Caixa Econômica Federal, perto da Estação. Seguinte: como estamos comemorando 50 Anos de Bossa Nova, bem que você poderia escrever algo a respeito. Mesmo havendo “controvérsias”. Que tal?”

Dito & feito. Ou: eis-que o porquê. Atendendo ao pedido do Acir – com entregas sempre contra o vento e “a/em” domicílio, graças à internet – comecei a me lembrar do Comissário, dos discos 33 RPM e até da loja da Belinha, na verdade a Casa Radar. Mas, eu nunca ouvi discos por lá, na Radar. Na loja do Comissário, sim. E, perdão Acir, era na verdade muito rock que rolava escada abaixo. Por onde descia do rascante refrão de “Let´s rock, evebody, let´s rock” do Jailhouse Rock do Elvis – idolatrado/imitado mais tarde pelo nosso querido Niquinha –, a todos os outros “Snookers Rock” ali ouvidos, hits como Roll Over Beethoven e Route 66, de Chuck Berry, & os cambaus. Bossa Nova pra mim foi depois. Eram naturalmente outros os ouvidos do Acir, um expert e colecionador, sempre atento a qualquer novidade “mais sofisticada” surgida nos discos; do caro e saudoso Vatinho-Jones Walter, que bem se defendia na voz-violão; e do compositor e cantor Messias dos Santos.

Os meus ouvidos, à época, ligavam-se ao barulho das bolas do bilhar, ao balanço das horas da sinuca. Esse o meu ritmo, o frenesi do “rock do Comissário”, que reverbera ainda agora e toma de assalto minhas palavras. De Chuck Berry a Chubby Checker e só depois, num vôo cool, a Chet Baker. Daquele mix de rock-blues-country de Berry em Maybellene ou Johnny B. Goode ao Let´s twist again do Ernest Evans, que vocês podem chamar de Chubby Checker, se melhor lhes aprouver. De quem, aliás, eu preferia a versão “twilstal” & coisa do I Could Have Danced All Night, som que me levou a sessões de contorcionismo explícito com (a)variado elenco de My Fair Ladies na pista do Clube Social.

Falta Little Richard, que ressurge aqui, e vivíssimo (como também Berry) ainda agora, com Long Tall Sally e o famigerado Tutti Frutti, aquele do grito de guerra de “Tarzan das Bonecas”: A wop-bop-aloo-mop-alop-bam-bom. Pois é: isso enquanto, nos brasis de Cataguases o rock tupiniquim nos chegava pelo rádio na voz da musa da fossa Nora Nei com “Na Ronda das Horas”, a tenebrosa versão de Rock Around the Clock. Logo quem, a Nora Nei do início da MPB, cujo grupo contava, vejam vocês, com o sofisticado acompanhamento do piano de Johnny Alf, além dos irmãos Farney: Cyll na bateria e Dick nos vocais. O “rádio” era naturalmente “Hoje é Dia de Rock”, o programa de Jair de Taumaturgo que a torcida do Operário e todos nós, desprovidos de “electrola”, ouvíamos pela Rádio Mayrink Veiga.

É por aí que surge o não menos Carlos Imperial, também ele interno no Colégio Cataguases, agora no comando do “Clube do Rock” na TV-Tupi do Rio. Imperial iria produzir em 1961 Louco por Você, o primeiro disco de Roberto Carlos (que ele intitulou “príncipe da Bossa Nova”). Acusado de imitar João Gilberto, o disco do “príncipe” desatinou nas paradas e foi por água abaixo. Mas, logo à frente, o príncipe voltaria à tona: coroado rei, ele mandaria tudo pro inferno ao deslanchar no leme de emoções jovemguardistas dos Lady Lauras & outros detalhes. E deixou de tratar Imperial por “papai”, como nos velhos tempos: o império agora era só dele. Coisas de rei, vocês sabem. Semana que vem, e finalmente para gáudio do Acir, a gente vem cheio de bossa. A nossa.
 
 
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