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| 2/15/2010 | 4:21:02 PM
NÃO ESTAMOS SÓS
Tenho com todo o orgulho um amigo. Desses que, parece, não mais aparecem. Velho colega do Banco do Brasil na Revista Cacex, amigo ímpar, amizade que cultivo há mais de trinta anos. Quer dizer, na medida do possível, pois ele continua no Rio, esse mineiro de Nanuque e já eterno morador do Leme – enquanto eu vivo do escreviver de acá/taguases & do mundo que nos cerca e distancia. Na verdade, o que mais dificulta manter acesa a chama dessa amizade é que – com sua famosa idiossincrasia – ele não se adaptou de forma alguma ao computador, e nem tenta. O que faz ser por carta nossa rara comunicação. Cartas com sua letra miúda, um leve tombar para a direita, seus característicos caracteres muitíssimo bem construídos – um píccolo “pleonas/meu/femismo” que adoto aqui só pra dizer que é uma bela e saudosa letra esta que vejo agora no envelope que acabo de encontrar, carta datada de janeiro de 2007 (acabara de lhe enviar meu livro “Doris Day by Night/Noite Americana”):

“No espaço/ esparso/ à luz da noite americana,/ vogais e consoantes/ vagam soantes/ ou toantes/ ou não,/ e fazem lembranças,/ talvez já mortas/ voltarem à vida/ de Copa by night. Eu acho, meu caro Ronaldo, que aquele mundo que você conheceu a fundo, se por um lado era pesado e fundo, por outro, era de um brilho ‘fracturado’ de fantasias e realidades. Como as aparas, limalhas, maravalhas, fagulhas luminosas que se etincelam de uma serra a trabalhar o metal. Assim foi como vejo os seus poemas do tempo do Beco da Fome, e de outros tempos, e doutros becos, depois”.

Palavras que, como sempre, me emocionam – essa letra fina e magra e seca nascida no árido sertão de Nanuque. Letra elegante, como seu dono. De grande sensibilidade, como seu dono. Com seu saber enciclopédico, ele sempre nos disse mais de Paris que muito parisiense – sua Paris-paixão, que só conheceu “ao vivo” depois dos 50 anos. Ao “vivo” porque, muito antes de lá ter botado os pés, ele sempre nos dava indicações precisas de ruas, teatros, cafés – um parisiense nato (em Nanuque).

Lembro-me que, nos anos 70, da primeira vez em que estive em Paris, mandava-lhe poemas-postais que tentavam flagrar a cidade com citações de cinema, música, literatura, como este: “Suponhamos assim um sol. Um sol a sós que nos solapa. Que nous brûle et nous devore. Encore-encore, encore-encore: Saravá, Pierre Barouh! Paris-verão, verão partout. Paris, le soleil: bateau-mouche. Solta no céu, La Tour Eiffel. Alors, qu´est-ce que je peux faire? Pierrot, j´sais pas quoi faire. Pêut-être, lire Appolinaire”.

Postais altamente etílicos e entusiasmados: “Ontem à tarde dei uma volta pelo Bois de Boulogne (que temeridade!), depois passei ao lado da Sorbonne e logo-logo parei num café da Rue des Écoles pra tomar, é claro, mais um Rémy Martin. À noite, em outro café do Quartier Latin, paro pruma dose estratégica de Napoléon. A vida em Paris é um só cognac e outro, atrás do outro. Não estamos sós, há sempre um cognac a nos acompanhar. Saravá”.

Na volta, ele me mostrou os postais que eu mandara: vários, de vários países e cidades, de Argel a Roma, de Madri a Lisboa, todos sempre remetendo a cognacs, vinhos, uísques, Fernet Branca, cervejas variadas – principalmente Stela Artois, minha predileta na ocasião, facilmente encontrável em Paris. Rimos muito com meu homérico porre afro-europeu, que nada tinha a ver com os países que ia conhecendo; melhor, que ia bebendo. Parecia (não era verdade) que eu estava pouco me importando com todos eles. Parecia que podia ter ficado no Brasil, pois – à exceção da belga Stela Artois e do italiano Fernet Branca – os demais “traçados” eu já traçava normalmente no Rio, em Cataguases & quejandos.

Assim é agora este texto sobre meu caro Trajano Valpassos: só pra dizer que tenho um amigo, um amigo querido desses que não se fazem mais (Rosário Fusco dizia que os amigos, amigos mesmo, podiam ser contados nos dedos da mão – da mão direita). Só pra dizer (como em minha carta do início de 2007) que “vi você a passar indoutro dia numa manhã chuvosa de fim-de-ano pela Gustavo Sampaio: eu, distraído, a pagar o café-da-manhã na padaria e você a passar apressado, esguio e um pouco mais grisalho, mas com o andar firme e nanuqueano de sempre.

A moça do caixa demorou a me dar o troco. Cheguei à calçada, gritei por você, mas qual o quê: o Velho Traja já dobrara com elegância pra Antônio Vieira, ‘a rua da Ulla’, com toda a pompa e circunstância merecida pelo próprio padre. Por acaso, e veja como ‘o discurso é/continua infalível’, o mesmo Vieira que acabo de citar como uma das epígrafes de meu último livro, aquele Doris Day que enviei pra você, ‘rodado’ em Copa by Night”.

Em março de 2007, dizia o Velho Traja: “Como você é um curioso dessas produções folclórico-literárias, avaliador (e até avalista) delas, ouso voltar à sua presença com alguns daqueles sonetos luxuriosos, à moda do Aretino, que perpetuei faz alguns anos. Na verdade, os sonetos foram de viagens, que é a única coisa que, acho, aprendi a fazer, realmente bem, na vida. A origem deles vem de um anúncio, em “revista de sacanagem”, de um casal propondo-se a trocas amorosas. Havia uma foto de uma mulher em decúbito: o rosto não aparecia, o corpo era muito bonito, particularmente a bunda. Daí o mote: ‘as curvas dessa bunda’

A você, obviamente, foram dedicados dois deles: um, em Madri; e o outro, você à la Gabin, atrás daqueles curvas em Paris. Esse que aí vai: Túnel da Mancha, musa faz forfait,/ em vão a esperou no Pas de Calais,/ tomar um Calvados de armar banzé/ ou de boiotar como um zé-mané.// Deglutindo um paté de canard frais,/ sujeito pobre de marré, marré,/ em Minas, tomaria um capilé,/ sertão dos cataguás – Antão, inté...// Num bistrô chic, diante de um “Monet”, / um gauloise, Gabin, plus que jamais,/passeia pelo Sena. E o Corcunda// de Nôtre Dame o observa do alto. C´est/ la vie, meu caro amigo, s´il vou plaît/ de conhecer “as curvas dessa bunda”.

Sim, a bem da verdade, não se fazem mais bundas, ou curvas, ou pessoas tão retas como Trajano de Almeida Valpassos, o meu querido Velho Traja, impávido imperador do Leme. “Não estamos sós” (no universo) era/é seu lema, seu leme. Assino embaixo, porque quem o tem como amigo sabe que nunca vai estar só. E, olha cá: Trajan é tranchã! Et voilà!

| 9/1/2009 | 9:21:41 PM
Teço e traço meu texto


Brincadeira boboca, mas irresistível: Cataguases é uma cidade de primeira. Passou a segunda, não tem mais graça: ela também passa. Para quem gosta de dirigir, é um desatino. Mal começa, ela acaba. Nem bem engrena, ela termina. Não importa se o carro é mecânico ou automático, se a gente passa ou não passa marcha, ou se as marchas é que nos passam: na primeira acelerada, ela termina. Ou determina marchas-lentas: surgem do nada um trem que é um trem de transtorno, motociclistas avoados, bicicleteiros que parecem esquecidos da vida, (di)vagando nas vias onde o trânsito deveria escoar.

Mas nem sempre escoa, eis que a cidade já exibe, orgulhosa, seus engarrafamentos na hora do rush. Coisas de metrópole: Cataguases tem mais auto(i)móveis que Nova York. Há controvérsias? Resolve-se num só instante: basta checar (por logaritmo, é claro) a proporção carro-habitante. É uma cidade que não pede prise. Talvez por isso não entre em crise. E sejam poucos os acidentes. Que assim seja. Meia-volta-e-meia saio dela pelaí – assim ao vai-da-valsa, ao suingar-do-samba, ao roquear do rock, ao tarantantan-do-tango, ao bolero-pra-quê-te-quero. Quer dizer: som na caixa (de marcha). Para Astolfo Dutra, quando bate uma vontade já agora impossível de rever meu caro Luiz Linhares. Para Itamarati, porque me agrada a súbita assonância dessa “pedra-ita” que “amara a ti”. Para o Glória, distrito que torna masculina a vila-fazenda do Major Vieira, primeva e primorosa. Para Mirai, quando – mira aí, minha menina – batem saudades de laranjas maduras à beira da estrada, aquela fruta que não vai dar no “avarandado do amanhecer”, que isso é coisa do baiano Caetano, mas no pequenino manancial de mineiras reinações de Mestre Ataulfo Alves.

Para Leopoldina, às vezes & quase sempre, que isso aqui é um festival de controvérsias – e não é? Logo que pra cá voltei, final do século passado, costumava ir pra lá de madrugada, tomar café. Ninguém acreditava que eu pegasse estrada noite adentro pra tomar café. “Tem mulher no meio”, diziam. Pra quem quiser, rimam café & mulher. Mas, não aqui: era café mesmo. Num velho bar perto da Rodoviária, há uma parada dos ônibus que trafegam pela Rio-Bahia. Ali, no Centenário – não falei que o bar era antigo? –, há (ou havia?) café expresso a noite inteira. Então, Leopoldina by night era/é café no Centenário e gostar de dirigir, guiar pra desanuviar, guiar quando o trabalho trava, botar o carro na estrada pra ver se a noite vem socorrer meu texto. Sim, eu dirijo escrevendo.

Ou escrevo dirigindo. Sempre que o texto entala, pego o carro e saio por aí a pensar na morte da cachorra ou na do Ulysses Guimarães. Sim, no insondável mistério da morte direta e já. No súbito desaparecimento do Doutor Ulysses. E na pergunta sem resposta que me fez Tia Dalila, lá se vão mais de quinze anos. Internada no Pronto-Cordis, segurando-se no alto de seus quase noventa anos, Lilila vira-se pra mim no meio da noite, assim como quem não quer nada: “Meu filho, o mar devolve tudo que nele jogamos, não é? Então por que até hoje não devolveu o Ulysses Guimarães?”.

Ó mar, ó mar, porque até agora nada do velho Ulysses voltar? Nada o Doutor Ulysses? Nada? Sigo eu me perguntando estrada afora, enquanto me anoiteço e me aconteço de encontro ao acaso, e torço e traço e teço meu texto. Som ligado, a voz de Cartola me inunda de poesia, e à estrada, e à noite perto da Aurora: “Deixe-me ir preciso andar/ Vou por aí a procurar/ Quero assistir ao sol nascer/ Ver as águas dos rios a correr/ Se alguém por mim perguntar/ Diga que eu só vou voltar/ Depois que eu me encontrar” .

Então, Cataguases está logo ali, no clarão da antemanhã E não há mais controvérsias: ela é um só entrecruzar de fronteiras eruditas e automobilisticamente semoventes, com ou sem marchas. De tudo um trem, um traste, um apito, um muito alto grito. Tudo fora dos trilhos: drama, geografia, manhã, etimologia, música, poesia. Como este texto, essas palavras que escapam ao meu domínio. Um cicio, um sussurro em fuga, quase algaravia. Uma reta, uma canção que se segreda. Uma curva, uma história que surge e some.

| 7/1/2009 | 5:39:24 PM
D´ EU NO JB - Minerar O Branco


 
 
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